Incêndios: até onde vai a autonomia de Portugal?
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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, Jesus.
Bruno, nuestros hermanos son nuestros amigos?
Hoje à noite vamos estar em campos opostos, mas durante o fim de semana, no incêndio na região de Tondela, portugueses e espanhóis combateram lado a lado contra um inimigo comum, o fogo. Após o governo ter acionado o mecanismo de apoio europeu, Espanha enviou para o nosso país a Unidade Militar de Emergências, uma força especializada que entra em ação quando a situação aperta. Temos um especial no Observador, também na História do Dia que foi tema. E esta força especial que veio apoiar os bombeiros portugueses, segundo quem está no terreno, entrou a matar, isto no bom sentido, claro, rápidos, organizados e prontos para trabalhar no terreno. São unidades autossuficientes, trazem comida e combustível. Dizem eles próprios que é para não sobrecarregar as populações que já estão muito ocupadas e mostram uma eficácia que é também fruto de uma vontade de investimento feito pelo governo espanhol na prevenção e no combate aos incêndios após os grandes fogos de 2005. E às vezes, do outro lado da fronteira não vêm só os maus casamentos e os maus ventos. Vêm também bons exemplos e, neste caso em concreto, uma preciosa ajuda no combate aos incêndios.
E por falar em incêndios e em vento quente, Paulo, o calor excessivo também faz parar os comboios?
Nós vamos constatando que não estamos preparados para estas ondas de calor que são cada vez mais excessivas. Por exemplo, isso mesmo, o calor pode fazer parar comboios. A CP cancelou seis comboios de intercidades no sábado e no domingo, e a circulação tem sido afetada por interrupções noutras ligações. Houve quem dissesse que era porque o ar-condicionado não funcionaria em algumas carruagens, mas a empresa pública veio esclarecer que não é disso que se trata. Diz a CP que reteve comboios de forma temporária pelo impacto das altas temperaturas na linha ferroviária. A CP explica que os efeitos das altas temperaturas não se limitam ao material circulante, às carruagens, se quisermos. Pode também afetar diferentes componentes da infraestrutura ferroviária, ao nível dos sistemas de sinalização, as catenárias, aparelhos de mudança de via e outros equipamentos fundamentais para a circulação segura dos comboios. Ou seja, o problema é mais grave ainda, porque é estrutural. Ficamos a saber que as temperaturas de 30 e tal graus tornam o serviço da CP ainda mais incerto e com mais riscos.
E mudando de tema, Bruno, devemos celebrar os 250 anos dos Estados Unidos?
Olha, Luís, muitos, incluindo muitos norte-americanos, como o maior de Nova Iorque, por exemplo, festejaram timidamente os 250 anos da Declaração de Independência dos Estados Unidos, comemorada a 4 de julho, por causa das contradições da América, e muitos outros, como o presidente Trump, festejam efusivamente, como se a América fosse isenta de problemas e de pecados, para utilizar aqui uma linguagem religiosa. Pelo meio andará a virtude de apreciar as qualidades extraordinárias da República Americana, que resistiu a uma guerra civil, a guerras mundiais, ao assassínio de presidentes, à escravatura e à segregação racial, e a de reconhecer os seus problemas que, a partir do momento em que a América se tornou um império, passaram a ser também problemas de todo o mundo. Por isso é que nós não tiramos mesmo os olhos da América, seja para ver nela o farol, o tal farol, para guiar os outros povos, que foi e em muitos aspectos continua a ser, porque são 250 anos de democracia ininterrupta e até é curioso ver países com experiências democráticas muito mais recentes e frágeis a querer dar lições à América, seja também para, em razão do seu estatuto, exigir que a América esteja à altura das suas responsabilidades.
Voltando aqui à nossa terrinha, Paulo, somos cada vez mais um país de passagem.
É verdade, o filme dos irmãos Coen, ou o título do filme, vai dando para tudo. “Este país não é para velhos”, é assim mesmo o original. Este país não é para novos, também já o fizemos muitas vezes em Portugal. E agora sabemos que este país também não é para imigrantes. Apesar das estatísticas que agora conhecemos nos dizerem que no final do ano passado havia cerca de 1.600.000 estrangeiros a viverem em Portugal, o certo é que eles chegam, mas também partem, também se vão embora. E provavelmente fomos durante alguns anos a porta mais aberta para o espaço Schengen. Por isso, alguns vêm e depois vão, e o Express noticiou que a Segurança Social registou o fim de atividade para mais de 160 mil imigrantes que trabalhavam por conta de outrem e que não voltaram a ter registo ativo, portanto, estiveram registados, depois isso significa que abandonaram o país ou permanecem, mas numa situação ilegal. Este número de saídas, se quisermos, ou de cancelamento do registo na Segurança Social, subiu 66% face a 2024. Ou seja, cada vez mais somos levados a concluir que, afinal, este país não é mesmo para ninguém.
Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, Jesus.










