CIÊNCIA

O Portugal-Espanha do combate aos fogos


Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Esta é a história do dia da Rádio Observador: o Portugal-Espanha do combate aos fogos. O som que estão a ouvir não é o de um treino num campo de futebol em Dallas, nos Estados Unidos. Esse Portugal-Espanha é uma história que ganhará corpo lá mais para o início da noite. Não, este som foi captado em Vouzela, no incêndio mais complicado dos últimos dias. As chamas ameaçavam já várias casas em Tondela, para onde o fogo se tinha espalhado. E as vozes que ouvimos são dos mais de 100 homens da Unidade Militar de Emergências, que vieram de Leão assim que Portugal pediu ajuda à Europa para reforçar o combate aos incêndios em plena onda de calor. Hoje eu vou falar com o jornalista do Observador, Miguel Pinheiro Correia, que passou estes dias em reportagem no terreno, falou com a população, com os bombeiros portugueses e com os espanhóis da UME. Vamos saber que força é esta, como é que atua e que diferença faz, e vamos tentar perceber também porque é que em Portugal não existe uma força como esta. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de segunda-feira, 06 de julho. Olá, Miguel.
Viva, Pedro.
Tu passaste estes dias no terreno a fazer reportagens sobre aquilo que se estava a passar, sobretudo nesta zona de Vouzela, onde houve este incêndio de grandes dimensões nos últimos dias. Traça-nos só um pouquinho como é que foram os teus dias de trabalho.
Ora, sim, o incêndio acabou por ficar batizado, como muitos incêndios ficam, pelo nome da primeira localidade afetada, neste caso, o município de Vouzela. Entretanto, alastrou-se a vários outros municípios. Eu estive na companhia do Guilherme Costa Oliveira, fotojornalista, e percorremos vários municípios, sobretudo municípios de Águeda e de Tondela, um em Aveiro e outro em Viseu, e estivemos em várias localidades afetadas pelas chamas: Castanheira de Vouga, Meçadas, São João do Monte, Airas. E o cenário em todas elas, claro que cada uma com as suas especificidades, o que também torna o combate dos bombeiros mais complicado, porque não é uma réplica em qualquer lugar. Mas o cenário era parecido e acho que ilustra bem este perigo das chamas, dois momentos que se repetiram, tanto no primeiro dia que nós estivemos em Águeda e no segundo em Tondela, que é: de repente estão os bombeiros muito concentrados a tentar combater as chamas, virados para um lado a tentar combater as chamas, e de repente uma projeção, claro, imprevisível, como o são as chamas, surge nas costas dos bombeiros. E nos dois locais, foi mesmo uma réplica muito parecida, foram os populares que correram rapidamente para apagar as chamas. Acho que é o relato perfeito do que são estes incêndios e do perigo que representam.
E por que nós vamos vendo nas notícias que o incêndio estava dominado e, de repente, há reincêndios e volta a ficar grande outra vez, porque há fatores de imprevisibilidade e coisas surpreendentes que acontecem sempre nesse tipo de cenários.
Claro, sim, e por muito que haja o desespero das pessoas e depois também se possa traduzir nalgumas críticas aos bombeiros, parte-se sempre desta fragilidade que as pessoas e os bombeiros também têm de enfrentar este fogo que é incontrolável e que muitas vezes não é esta a ajuda dos populares, que estão a lutar pelas vidas, que acabam por ajudar. E esta entreajuda entre moradores, vizinhos ou pessoas, amigos que vêm ajudar, e bombeiros nota-se muito no terreno.
E é fundamental. Falando de entreajuda, tu quando foste para o terreno, já tinhas o objetivo de contar esta história desta unidade militar espanhola ou foi uma coisa com que te deparaste quando estavas no terreno e percebeste que havia ali uma operação um pouquinho diferente?
Ora, foi um misto. Nós já sabíamos que os espanhóis estavam no terreno, como também já estiveram noutros anos, mas no meio de um incêndio e de tentar contar histórias que ilustrem bem o que está a acontecer, para que as pessoas percebam, acabamos por encontrar perto de um quartel, onde estavam lá muitos espanhóis. E acho que partiu mais dessa curiosidade de estarem ali todos concentrados a conversar uns com os outros. E nós pensamos: “Bom, é preciso perceber também o que é que estes espanhóis, o que é que este grupo acrescenta, o que eles vêm fazer de diferente que os bombeiros portugueses ou que os elementos portugueses, Proteção Civil e também GNR ou até Exército, não fazem, o que eles vêm acrescentar. Não será só uma questão de ter mais pessoas.
Mais homens, exatamente.
Exatamente.
Então, para quem nunca ouviu falar desta Unidade Militar de Emergência, como é que tu explicarias o que eles são e o que eles fazem?
A UME, a sigla, a Unidade Militar de Emergências, é curioso porque se falássemos com populares, muitos diziam: “Estão ali os bombeiros espanhóis”. E parece, porque de fato estão a combater as chamas, têm mangueiras e têm fardas vermelhas. Mas não são bombeiros, a UME é uma força conjunta das Forças Armadas espanholas. Foge aqui um pouco aos ramos tradicionais, o Exército, a Marinha e a Força Aérea, e foi criada em 2005. Entretanto, o desenho jurídico das funções da UME foi se compondo ao longo dos anos, até hoje, mas manteve-se sempre um traço geral que é: a UME, que é uma unidade que está espalhada por todo o país. A Espanha tem vários batalhões, são cinco batalhões principais, e estes batalhões atuam principalmente nas áreas geográficas que lhes dizem respeito Ou seja, não atuam como os nossos bombeiros, que há um incêndio e eles são os primeiros a serem mobilizados. A UME é acionada quando estes mecanismos, as autoridades civis, os bombeiros ou proteção civil, não conseguem dar conta de uma tragédia, que pode ser, neste caso foi um incêndio, mas não é só de incêndios, e também ilustra bem esta amplitude de alcance da UME. Também estão em cheias, agora no sismo na Venezuela estão lá também. Estiveram há pouco tempo também-
É uma equipa de elite, se é que podemos dizer assim, especializada em cenários de emergência, de grandes catástrofes e, portanto, estão preparados para isso. Quando falamos da preparação deles, falamos do quê? Eles não são apenas os homens especializados, eles vêm com muita coisa para o terreno.
Sim, por exemplo, aqui em Portugal eles contavam essa história, eles ainda demoraram algumas horas na viagem, porque este batalhão veio de Leão e a viagem até Portugal demorou um pouco, porque eles vieram em caravana e traziam, eram mais de 100 militares, traziam máquinas, os caminhões que normalmente vemos dos bombeiros, traziam drones, máquinas de arrasto, até uma caminhonete que depois eles usaram aqui no município de Tondela para levar de um quartel dos bombeiros até o sítio onde eles estavam a pernoitar, um pavilhão, a uns 10 minutos, era perto. Eles vieram com vários equipamentos, não eram só os homens e por isso ilustra também bem esse treino que têm. Não estamos a falar só de homens que vêm com muita vontade, ou de operacionais, homens e mulheres que vêm com muita vontade de combater um fogo. Têm um treino especializado em combater fogos, mas também noutras valências que referimos há pouco.
Vêm com tudo. Quando chegam, vêm com tudo. O que te surpreendeu mais? Foi a organização que eles têm, foi a rapidez com que atuam, foi a logística toda, a quantidade de meios com que eles aparecem, o que te surpreendeu mais?
Melhor do que o que me surpreendeu a mim, e também partiu muito destes relatos, e foi um bocado coincidência. Nós achamos interessante contar a história desta unidade espanhola e, ao mesmo tempo, as pessoas com quem falávamos, diziam todas: “Os espanhóis têm sido incansáveis, têm sido excepcionais.” Sem críticas aos bombeiros portugueses, claro, mas destacava-se por serem diferentes e por estarem a fazer um trabalho às vezes diferente, por virem de fora também. Acho que foi isso que também puxou aqui um bocado a atenção para este tema. E a maioria das pessoas falava nesta organização. Uma das pessoas com quem eu falei, dizia: “Os nossos bombeiros”, e também é um relato que se repete de ano para ano, “os nossos bombeiros caem exaustos depois de estarem horas e horas a combater. Esta unidade espanhola, eles combatem e trocam. Enquanto um turno vai combater as chamas, está outro a descansar e vão-se revezando.” E eu também notei isso, porque no sítio onde eu os encontrei inicialmente, estavam lá alguns a descansar. Claro, isto é importante, porque depois a vontade ou a energia com que se combate um incêndio será diferente, naturalmente, quando se tem muita energia ou não. Isto é um exemplo da organização que eles têm. É uma unidade que tem muitos meios, tem muito dinheiro também, o Exército Espanhol tem muito dinheiro e, por isso, as Forças Armadas espanholas têm muito dinheiro e isso faz diferença, claro.
E como é que foi a integração com os portugueses que estavam no terreno, os bombeiros portugueses que estavam no terreno? As coisas funcionaram bem, houve ali alguma tensão, como é que as coisas se passaram?
Eu, em jeito de alguma brincadeira, atendendo o contexto, mas perguntei se aqui a língua às vezes não é uma barreira. Nós, às vezes, os portugueses são um bocado mais poliglotas que os espanhóis, mas os espanhóis também brincaram com isso e disseram: “Não, nós aqui quando estamos com vontade e quando estamos todos a remar para o mesmo lado, entendemo-nos bem.” E acho que é um bocado isto. Mesmo as pessoas podiam saber ou não espanhol e os militares não sabiam todos português, mas entendiam e falavam com as pessoas e sabiam onde é que era preciso ajuda. Foram muito bem recebidos. Outro dado importante é, esta unidade veio de Espanha com mantimentos, mesmo gasolina, nós víamos a abastecer os caminhões, eles trouxeram tudo e o que eles disseram foi: “Nós vimos para aqui, sabemos que os portugueses, neste caso, mas que as populações que nós vamos ajudar já estão a passar por tanto, não vamos estar aqui a sobrecarregar com-”
A depender de ninguém.
Exatamente, sim.
E eles ainda por cima têm experiência no terreno português, já não é a primeira vez que aqui vêm.
Sim, exatamente. E essa questão da integração também foi importante nesse aspecto. Muitos destes militares, e normalmente também pela questão geográfica, quando é preciso ajuda em Portugal, e foi em 2017 e em 2024, nas duas ocasiões com incêndios, e foi este batalhão de Leão que veio para Portugal. Não todos os mais de 100 que estavam ou que estão ainda estes dias a combater este incêndio, mas muitos deles já conheciam Portugal, já sabiam o que era preciso e têm treino e estão habituados a ir para qualquer lado do mundo, por isso sabem o que é preciso e sabem como ajudar e sabem integrar-se. E também as forças portuguesas, naturalmente, os bombeiros e a proteção civil sabe integrar estas equipas, por isso é que são chamados.
E funcionou tudo bem. Agora, há uma questão que é mais ou menos evidente quando lemos o texto que tu escreveste para o Observador e quando te ouvimos aqui a falar sobre como é que eles estão organizados, como é que isto funciona. A pergunta que fica é: por que não existe uma unidade semelhante em Portugal?
É um debate antigo, há declarações antigas de antigos líderes da UME a aconselhar Portugal a ter uma força semelhante. Agora, perceber porquê ou a razão pela qual não há uma igual é difícil.
Em quanto tempo se debate, então?
Sim, há uma força que muitas vezes é comparada, que é a RAME, que não é semelhante. Há uma força no exército que muitas vezes é comparada por estar mais vocacionada para estas questões de atuação em emergência, mas a RAME em Portugal funciona simplesmente como meio agregador ou coordenador do combate.
Estamos a falar do Regimento de Apoio Militar de Emergência.
Exatamente. E esse regimento não tem propriamente meios próprios como tem a UME, tampouco dinheiro. Isso é muito diferente.
Portanto, não é comparável.
Sim, de todo. E a RAME, esse regimento, simplesmente coordena a resposta com os meios do exército, ou seja, há uma emergência, se fosse a tempestade Cris, como tivemos há pouco tempo, há uma emergência e este regimento olha para as forças que o exército tem, para os homens que o exército tem, para os destacamentos, e percebe que é preciso enviar meios para ali, é preciso levar militares para ali, por isso não é de todo comparável. E é uma questão antiga, já muitas vezes se debateu. Normalmente, debate-se sempre depois de acontecerem estas tragédias e até depois de vir a UME a Portugal e percebemos que isto faz diferença, de facto, ter aqui uma força coordenada e que está direcionada para este combate, faz sentido. Muitas vezes uma das críticas que se aponta ao combate aos incêndios, mas também a outras catástrofes em Portugal, é às vezes falhar esta coordenação, porque há bombeiros, há proteção civil, há os municípios e há aqui, às vezes, uma dificuldade em perceber quem é que está a mandar ou, às vezes, pior, quem está a mandar não é a pessoa que conhece melhor o terreno e por isso surge sempre esta dúvida depois das tragédias acontecerem, mas para já não há fumo branco à vista.
Debate-se muito, mas até agora não há nenhuma decisão nessa matéria.
Sim, está em banho-maria, está sempre.
Muito bem. Miguel, obrigado.
Obrigado, Pedro.
Eu conversei com o jornalista do Observador, Miguel Pinheiro Correia. Ao longo do dia de ontem, o incêndio de Vozela foi dominado, mas os reacendimentos não davam trégua aos bombeiros. E nesta altura, olha-se para o exemplo espanhol e a pergunta fica sempre no ar: não devia Portugal investir numa unidade com esta robustez, com estes meios, com esta capacidade de intervenção? A pergunta fica, mas como acontece com muitas perguntas em Portugal, esta é daquelas em que o debate se arrasta sem haver uma resposta. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Tomás Ferreira, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.

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