O futuro será mais tecnológico. E também mais manual
Nos últimos meses tenho reparado numa tendência curiosa. Pessoas que trabalham em tecnologia, consultoria, gestão ou empreendedorismo estão a voltar a atividades que, durante anos, pareceram ultrapassadas: bordado, cerâmica, jardinagem, costura ou bricolage. E, talvez de forma mais discreta, um regresso aos livros em papel e às caminhadas sem auscultadores.
À primeira vista, pode parecer apenas mais uma tendência impulsionada pelas redes sociais. No entanto, o fenómeno parece refletir algo mais profundo: uma necessidade crescente de encontrar um contrapeso para um mundo cada vez mais digital, acelerado e exigente.Vivemos uma época marcada pela sobre-estimulação permanente. Entre notificações, reuniões, mensagens instantâneas, ciclos noticiosos de 24 horas e a necessidade constante de acompanhar novas ferramentas de inteligência artificial, a nossa atenção tornou-se um recurso disputado por todos.A inteligência artificial veio acelerar ainda mais este ritmo. Nunca foi tão fácil produzir conteúdos, resumir informação, gerar ideias ou automatizar tarefas. Mas essa eficiência tem um efeito secundário pouco discutido: a sensação de que precisamos de acompanhar tudo, o tempo todo.
A necessidade constante de acompanhar a próxima ferramenta, a próxima atualização ou a próxima mudança de mercado tornou-se parte do quotidiano de muitos profissionais.Os dados ajudam a enquadrar esta realidade. Estudos da Harvard Medical School demonstram que notificações constantes ativam respostas de stress semelhantes às de alguém permanentemente de prevenção. A American Psychological Association associa o multitasking a níveis mais elevados de fadiga cognitiva. E o mais recente relatório State of the Global Workplace, publicado pela Gallup, identifica a fadiga digital como um dos fatores que mais contribuem para o aumento do burnout a nível global.Perante este contexto, seria natural assumir que a resposta passa por fazer menos. Curiosamente, muitas vezes acontece o contrário.O que se observa é uma procura crescente por atividades que envolvem fazer, mas fazer de outra forma. Cozinhar. Bordar. Trabalhar madeira. Restaurar móveis. Cultivar uma horta. Fazer cerâmica.
Atividades aparentemente simples, mas que partilham algumas características importantes: exigem presença, envolvem o corpo, oferecem feedback tangível e raramente dependem de métricas, algoritmos ou validação externa.Existe uma diferença importante entre terminar uma apresentação e terminar uma peça de cerâmica. A primeira pode desaparecer numa pasta digital ou ser substituída por uma nova versão no dia seguinte. A segunda existe fisicamente. Pode ser imperfeita, mas é real.Talvez seja precisamente essa tangibilidade que tantas pessoas procuram, sobretudo quem trabalha em indústrias mais intangíveis.Nos últimos anos habituámo-nos a medir quase tudo: performance, produtividade, crescimento. Até os hobbies foram, em muitos casos, transformados em conteúdo para publicar ou competências para desenvolver.
Num contexto destes, atividades manuais oferecem algo raro: a possibilidade de criar sem otimizar, sem audiência, sem métricas. Sem expectativa de retorno.Mais do que nostalgia, talvez estejamos a assistir à procura de equilíbrio. Não uma rejeição da tecnologia, mas a procura do contrapeso.À medida que o nosso trabalho se torna mais abstrato, mais acelerado e mais difícil de prever, cresce a necessidade de fazer algo tangível, lento e real, fora da lógica da performance.E talvez o regresso ao manual seja também uma forma de regressarmos a algo familiar. A processos que compreendemos, a ritmos que conseguimos controlar e a resultados que não dependem de algoritmos, mercados ou da próxima evolução tecnológica.
Num mundo cada vez mais automatizado, isso pode tornar-se menos um luxo e mais uma necessidade.O Observador associa-se à comunidade PortugueseWomeninTech para dar voz às mulheres que compõe o ecossistema tecnológico português. O artigo representa a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da comunidade.
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