TECNOLOGIA

Quase todas as cidades do Brasil já passaram por algum desastre ambiental, revela estudo

Enchentes, secas, deslizamentos de terra e tempestades já atingiram quase todos os municípios brasileiros nas últimas três décadas. O alerta veio de um estudo conduzido por pesquisadores do Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (CEMADEN), da Universidade de São Paulo (USP) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).Continua após a publicidade

A pesquisa analisou cerca de 60 mil registros de eventos relacionados a inundações, alagamentos, enxurradas, deslizamentos, tempestades e secas. E mostrou que 91,5% das cidades do país registraram pelo menos um desastre hidrogeológico entre 1991 e 2024.
Ocorrência de desastres ambientais aumentou com os anos – Imagem: foi a região mais afetadaO estudo foi publicado na revista Environmental Research Letters e teve como objetivo identificar padrões que possam orientar políticas públicas de prevenção, adaptação e mitigação dos impactos provocados por eventos climáticos extremos.Foram 5.570 municípios avaliados. Desses, 1.814 enfrentaram pelo menos três tipos diferentes de desastres durante o período analisado, enquanto 270 registraram ocorrências de todos os fenômenos considerados pelo estudo. O Nordeste concentrou o maior número de cidades afetadas, seguido pelas regiões Sudeste, Sul, Norte e Centro-Oeste.Os pesquisadores também mapearam os impactos humanos e econômicos desses eventos:
O Sudeste liderou o número de mortes relacionadas a inundações, alagamentos, enxurradas e deslizamentos de terra;

Já o Sul registrou mais vítimas fatais em tempestades;

O Nordeste concentrou o maior número de mortes associadas à seca.
Na análise dos prejuízos econômicos, o Sul apresentou as maiores perdas provocadas por enchentes e alagamentos. No Nordeste, os maiores impactos foram causados por secas e deslizamentos de terra, enquanto o Sudeste concentrou os danos decorrentes de tempestades.Entre os episódios recentes destacados pelo estudo estão as chuvas que atingiram São Sebastião, no litoral norte de São Paulo durante o Carnaval de 2023, deixando ao menos 60 mortos, e a tragédia climática registrada no Rio Grande do Sul em maio de 2024, quando tempestades afetaram cerca de 2,3 milhões de pessoas em 471 municípios e provocaram mais de 180 mortes.

Prejuízo financeiro ultrapassou a casa dos US$ 120 bilhões – Imagem: Environmental Research LettersPrejuízos econômicos foram bilionáriosNo total, os 59.658 desastres analisados resultaram em pelo menos 4.774 mortes, 3.031 pessoas desaparecidas e impactos diretos sobre mais de 129,7 milhões de brasileiros. As perdas econômicas estimadas ultrapassam US$ 123,8 bilhões.Apesar desses números, os autores afirmam que a dimensão real dos desastres pode ser ainda maior. Isso porque a pesquisa utilizou informações do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2iD) e do Atlas Digital de Desastres no Brasil, bases alimentadas pelos próprios municípios. Segundo os pesquisadores, nem todos os eventos são registrados, seja porque as administrações locais conseguem lidar com a situação sem solicitar apoio federal ou por limitações na estrutura de coleta de dados.Continua após a publicidadeOutro problema identificado é que os sistemas atuais não adotam uma abordagem de múltiplos riscos. Em situações em que um desastre desencadeia outro (como uma enchente que provoca deslizamentos de terra) apenas um dos eventos costuma ser registrado, dificultando uma avaliação mais precisa dos impactos. Os pesquisadores também apontam falhas na classificação das causas de mortes durante esses episódios.
Enchente no Rio Grande do Sul deixou cerca de 180 mortos – Imagem: Cid Guedes/iStock)/Culpa não é só das mudanças climáticasSegundo Elton Vicente Escobar Silva, pesquisador do CEMADEN e primeiro autor do estudo, os desastres não podem ser atribuídos apenas às mudanças climáticas.
Queríamos desmistificar a ideia de que um desastre é algo sobrenatural, que suas causas decorrem de forças desproporcionais. Existem exceções que os modelos climáticos não conseguem prever, mas, na maioria dos casos, agências nacionais como o CEMADEN emitem alertas e as autoridades públicas são informadas sobre o que pode acontecer. O problema reside na negligência, na falta de infraestrutura e até mesmo na inação. Decidimos denominá-los desastres socioambientais ou socioambientais porque existe um fator agravante antropogênico – não apenas relacionado às mudanças climáticas, mas também a falhas na gestão pública.
Elton Vicente Escobar Silva, pesquisador do CEMADEN e primeiro autor do estudoContinua após a publicidadeSilva ressalta que o Brasil avançou na criação de bancos de dados sobre desastres, mas ainda enfrenta desafios para aprimorar o monitoramento. Um levantamento da Confederação Nacional de Municípios citado no estudo indica que cerca de 1.660 cidades brasileiras ainda não possuem uma estrutura organizada de defesa civil, o que compromete tanto a resposta aos eventos extremos quanto a qualidade das informações registradas.A Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (SEDEC) informou aos pesquisadores que trabalha em uma nova versão do S2iD e do Atlas Digital de Desastres. A atualização permitirá registrar eventos com uma abordagem de múltiplos riscos, além de manter os dados atualizados mesmo após o reconhecimento federal da situação de emergência.

Vitoria Lopes Gomez

Vitoria Lopes Gomez é jornalista formada pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) e redatora do Olhar Digital.

Ver todos os artigos →


Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Botão Voltar ao Topo

Adblock Detectado

Para continuar no site, por favor, desative o Adblock.