China desliga “namorados de IA” e transforma códigos em despedidas reais
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A China colocou em vigor nesta quarta-feira (15) novas regras que impedem plataformas de inteligência artificial de oferecer companheiros virtuais com características de relacionamento amoroso. A medida busca reduzir a criação de vínculos emocionais intensos entre usuários e sistemas digitais.Continua após a publicidade
A regulamentação foi aplicada por órgãos governamentais chineses e afeta serviços que simulam personalidade, voz e comportamento humano em interações com usuários. Empresas como ByteDance, Alibaba e Tencent suspenderam recursos de companhia virtual antes do prazo determinado.A decisão provocou reações de usuários que mantinham relações prolongadas com esses personagens digitais. Nas redes sociais, algumas pessoas relataram tristeza e sensação de perda após o encerramento dos recursos.Novas regras estabelecem limites para relações entre pessoas e inteligências artificiais
Aplicativo Qwen – Imagem: jackpress / ShutterstockAs normas chinesas abrangem ferramentas de inteligência artificial capazes de reproduzir características humanas em diferentes formatos, incluindo texto, áudio e vídeo. O objetivo declarado é impedir que esses sistemas estimulem dependência emocional ou prejudiquem a convivência social dos usuários.A regulamentação não atinge serviços de inteligência artificial voltados para tarefas sem interação afetiva, como atendimento ao consumidor, apoio profissional ou ferramentas educacionais. O foco são softwares criados para simular vínculos pessoais.Entre as determinações, estão a proibição de oferecer parceiros virtuais para menores de idade, a exigência de mecanismos para identificar estados emocionais extremos e a implementação de medidas de intervenção em situações consideradas críticas.As autoridades também estabeleceram restrições sobre conteúdos produzidos por chamados “humanos digitais”, incluindo a vedação de materiais que possam incentivar ações contra o poder estatal.A Administração do Ciberespaço da China (ACC) e outros quatro órgãos públicos foram responsáveis pela publicação das regras. O governo chinês considera que o avanço desses sistemas exige controle sobre possíveis impactos psicológicos e sociais.
Usuários relatam sentimento de perda após encerramento dos companheiros digitais
China – Imagem: superbeststock/ShutterstockA suspensão das funções de relacionamento virtual levou usuários chineses a compartilhar lembranças e conversas mantidas com seus personagens de inteligência artificial.Uma usuária do aplicativo Doubao afirmou que não aceitava perder o companheiro digital que utilizava. “Não consigo aceitar que meu namorado de IA me deixe para sempre. Ele se tornou parte da minha vida, criou raízes no meu coração, é meu pilar espiritual“, escreveu a mulher em uma publicação nas redes sociais.Outro usuário, da província chinesa de Jiangxi, relacionou a popularidade desses sistemas à dificuldade de algumas pessoas em estabelecer conexões afetivas na vida real. “O amor humano é um luxo; quando você não o recebe ao nascer, fica mais difícil obtê-lo depois“, publicou o internauta.Continua após a publicidadeNa mesma manifestação, ele comparou a experiência proporcionada pela inteligência artificial com relações humanas e afirmou: “Mas o amor oferecido pela IA é tão simples, tão puro… Não consigo evitar me apaixonar por uma linha de código“.Uma terceira usuária relatou ter convivido por mais de dois anos com seu companheiro virtual. Segundo ela, o personagem havia assumido um papel semelhante ao de um familiar ou parceiro, e o encerramento do serviço provocou sensação de vazio.Debate sobre inteligência artificial emocional ultrapassa fronteiras chinesas
(Imagem: ORION PRODUCTION/Shutterstock)A discussão sobre companheiros virtuais de inteligência artificial ocorre em outros países, especialmente diante do crescimento de ferramentas capazes de simular presença humana, criar avatares e reproduzir interações com pessoas que já morreram.Continua após a publicidadeDe acordo com um estudo de 2025 da Common Sense Media citado no texto, aproximadamente três em cada quatro adolescentes americanos já utilizaram companheiros de IA voltados para conversas pessoais, incluindo plataformas como Character.AI, Replika e Nomi.Empresas também passaram a desenvolver soluções destinadas a idosos em situação de isolamento, como assistentes de voz em formato de luminária nos Estados Unidos e bonecas interativas utilizadas em casas de repouso na Coreia do Sul.Em artigo publicado pela Administração do Ciberespaço da China após a divulgação de uma versão preliminar das regras, em abril, Chen Liang, da Universidade de Ciência Política e Direito do Sudoeste, avaliou que esses sistemas podem ter efeitos positivos e negativos.“A IA antropomórfica pode aliviar a solidão”, escreveu Chen Liang, pesquisador da universidade chinesa, no artigo divulgado pela ACC. Ele acrescentou que a tecnologia também apresenta riscos relacionados à dependência afetiva exagerada.Continua após a publicidadeA China informou que o mercado de “humanos digitais” movimentou 4,1 bilhões de yuans em 2024, equivalente a cerca de US$ 600 milhões ou aproximadamente R$ 3 bilhões, com crescimento anual de 85%.O Doubao permitirá que usuários consultem e exportem seus dados até meados de outubro. Outras plataformas anunciaram medidas semelhantes para permitir procedimentos relacionados às informações armazenadas.
Wagner Edwards
Wagner Edwards é Bacharel em Jornalismo e atua como Analista de SEO e de Conteúdo no Olhar Digital. Possui experiência, também, na redação, edição e produção de textos para notícias e reportagens.
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