Superlaboratório brasileiro revela segredo de proteína ligada à DCJ
O diagnóstico de doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ) de Lito Sousa trouxe atenção para uma pesquisa brasileira sobre as proteínas envolvidas nas doenças priônicas. Cientistas usaram o Sirius, em Campinas (SP), para observar o que acontece quando essas moléculas começam a mudar de comportamento.Continua após a publicidadePublicado na Science Advances em 2023, o trabalho investigou uma das etapas iniciais desse processo. Não há relação direta com o caso de Lito, nem se trata de uma pesquisa sobre tratamento. A proposta é entender melhor o que ocorre antes dos danos ao cérebro.
A pesquisa ajuda a estudar doenças priônicas, mas não tem relação direta com o diagnóstico de Lito Sousa. – Imagem: Kateryna Kon/ShutterstockQuando a proteína começa a mudarA proteína príon, conhecida como PrPC, faz parte do organismo e está presente nos neurônios. Em doenças priônicas, ela pode mudar de forma e levar outras proteínas semelhantes a seguir pelo mesmo caminho.
O resultado são acúmulos que afetam principalmente o cérebro e provocam danos ao sistema nervoso. O que ainda intriga os pesquisadores é o começo dessa transformação.Uma das pistas está nos chamados condensados: pequenas regiões nas quais as proteínas ficam concentradas. No início, elas mantêm características de uma gotícula líquida e continuam se movimentando. Em determinadas condições, porém, esse estado pode mudar.O papel do cobreOs cientistas observaram os condensados na presença de cobre, elemento que também está nos neurônios. Nessas condições, as gotículas continuaram fluidas.“Quando essas gotas ainda são líquidas, a gente não observa uma estrutura patológica. Porém, em algum momento, elas podem passar por um estado intermediário, formando algo gelatinoso, até chegar a um estado sólido”, explica Aline Ribeiro Passos, pesquisadora do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), ao g1.Depois, o experimento ganhou outra variável: o peróxido de hidrogênio, usado para simular uma situação de estresse oxidativo. Foi aí que o comportamento das estruturas mudou.Os experimentos indicaram que:
Os condensados inicialmente apresentam comportamento líquido.
A presença de cobre manteve as estruturas fluidas.
O estresse oxidativo alterou essa dinâmica.
As proteínas passaram a formar estruturas mais rígidas.
Essa evolução já foi associada a doenças.
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Entender como proteínas mudam de comportamento pode ajudar a preencher lacunas sobre doenças neurodegenerativas. Imagem: o:peterschreiber.media/iStockComo o Sirius ajudouParte dos experimentos foi realizada na Cateretê, uma das estações de pesquisa do Sirius. Para produzir a luz síncrotron usada nas análises, elétrons são acelerados quase à velocidade da luz em um túnel de 500 metros.Na Cateretê, os pesquisadores recorreram à técnica de raios X XPCS. Ela permitiu ir além de tamanho e formato das gotículas. O equipamento também mostrou como as proteínas se movimentavam dentro delas.“As proteínas são estruturas extremamente pequenas e têm uma organização muito complexa. Quando elas formam esses condensados, estamos falando de gotas micrométricas. Tentamos identificar qual é o estado físico da proteína dentro dessa gota micrométrica. Para isso, precisamos de muita resolução espacial e temporal, que equipamentos como o Sirius conseguem fornecer”, detalha Aline.Continua após a publicidadeE o caso de Lito?A DCJ pertence ao grupo das doenças priônicas, mas os resultados do laboratório não podem ser transferidos diretamente para um paciente. O estudo não mostra que cobre ou peróxido de hidrogênio causem a doença e também não resultou em um medicamento.Leia mais:Enquanto a pesquisa básica continua, a família de Lito busca alternativas experimentais nos Estados Unidos. O Ministério da Saúde tentou ajudar na participação do influenciador em estudos, mas uma das pesquisas procuradas deixou de recrutar voluntários. Outra possibilidade é o estudo PRiSM, ligado a pesquisadores de Harvard e MIT.Continua após a publicidadeNo Brasil, o trabalho segue. Pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) têm novos experimentos previstos para o fim de setembro no Sirius, desta vez usando a técnica SAXS, na linha de luz Sapucaia.A aposta dos cientistas está em uma etapa anterior ao tratamento: descobrir exatamente como essas proteínas mudam. Sem essa resposta, ainda há muitas peças do quebra-cabeça das doenças priônicas — e de outras doenças neurodegenerativas — que permanecem fora do lugar.
Valdir Antonelli
Valdir Antonelli é jornalista com especialização em marketing digital e consumo.
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