TECNOLOGIA

Discord demora para remover servidores denunciados por crimes graves

Relatórios da Polícia Civil de São Paulo apontam que o Discord levou quase 17 dias para retirar do ar um servidor denunciado por práticas criminosas. O material reúne 63 comunicações emergenciais feitas entre maio de 2025 e janeiro deste ano.Continua após a publicidadeSegundo a GloboNews, os documentos indicam que a plataforma demorou, em média, 17 horas para responder aos alertas. Entre os casos estavam automutilação, suicídio, estupros virtuais, abuso sexual infantil e maus-tratos a animais.
Um dos servidores denunciados pela Polícia Civil levou 16 dias, 18 horas, 29 minutos e 33 segundos para ser removido. – Imagem: Sergei Elagin/ShutterstockAlertas sobre crimes gravesOs relatórios foram elaborados pelo Núcleo de Observação e Análise Digital (Noad), da Polícia Civil, e compartilhados com o Ministério Público de São Paulo (MP-SP) e a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD). O material ainda deve ser encaminhado à Advocacia-Geral da União (AGU).

Na avaliação dos investigadores, o Discord não oferece mecanismos adequados para restringir o acesso de menores a conteúdos impróprios ou ilícitos. A polícia também aponta fragilidades no cadastro: seria possível entrar na plataforma sem fornecer informações suficientes para uma identificação confiável.Os documentos registram:
34 casos relacionados à automutilação;

22 envolvendo estupros virtuais;

15 de incitação ao suicídio ou suicídio;

10 de maus-tratos ou crueldade contra animais;

sete situações de abuso sexual infantil.
Também aparecem ocorrências de exploração sexual de crianças e adolescentes, ataques ou incêndios contra pessoas em situação de rua e apologia ao terrorismo. Um mesmo servidor podia reunir mais de uma dessas práticas.Um servidor ficou 16 dias no arO episódio mais demorado começou em 15 de julho do ano passado. Às 14h45, a polícia avisou o Discord sobre um servidor que planejava realizar, naquele mesmo dia, um evento envolvendo o sacrifício de gatos.O Noad reiterou o pedido. Sete dias depois, recebeu uma negativa para a remoção, sem justificativa. O servidor só foi retirado 16 dias, 18 horas, 29 minutos e 33 segundos após o primeiro alerta e as demais solicitações.Continua após a publicidadeOutro caso começou em 5 de agosto. A polícia comunicou a existência de um servidor dedicado a práticas como estupros virtuais e automutilações. A remoção ocorreu 188 horas e 23 minutos depois, em 13 de agosto.Para os investigadores, o problema começa antes mesmo da análise do pedido. Os prazos registrados não incluem o tempo gasto para acessar o sistema do Discord, preencher os formulários exigidos e demonstrar a urgência da ocorrência.
Os alertas envolviam automutilação, estupros virtuais, suicídio, abuso sexual infantil e maus-tratos a animais. – Imagem: Primakov/ShutterstockEm outro caso, resposta veio em 16 minutosHouve também uma situação em que a plataforma agiu rapidamente. Em 11 de junho de 2025, o Noad comunicou às 19h43 a existência de um servidor ligado a estupros virtuais, automutilações e incitação ao suicídio. Às 19h59, a polícia recebeu a informação de que a remoção havia sido feita.Continua após a publicidadeLeia mais:Os investigadores também questionam a criação de contas. Segundo os documentos, usuários poderiam repetir identificações semelhantes em diferentes perfis, sem mecanismos considerados eficazes para impedir a criação sucessiva de contas.As transmissões ao vivo do Discord estão suspensas no Brasil desde 12 de agosto. A medida foi tomada depois que a ANPD identificou uso recorrente da ferramenta em casos de violência, assédio e indução à automutilação e ao suicídio envolvendo crianças e adolescentes.Em um dos relatórios, o Noad afirma que “a empresa Discord tem reiteradamente adotado conduta morosa” no tratamento de pedidos de remoção de servidores relacionados a crimes graves.Continua após a publicidadeO Discord também enfrenta ações na Justiça. Nesta quarta-feira (2), está prevista uma audiência de conciliação entre o governo federal e a plataforma na Justiça Federal do Distrito Federal. Em São Paulo, o Ministério Público entrou com uma ação civil pública no fim de agosto.A investigação paulista começou em 2023, foi arquivada em 2024 e reaberta em fevereiro de 2026, após novos elementos apontarem dificuldades persistentes na prevenção e interrupção de práticas ilícitas e na cooperação da plataforma com as autoridades.

Valdir Antonelli

Valdir Antonelli é jornalista com especialização em marketing digital e consumo.

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