Remaster de graça: por que The Witcher 3, Cyberpunk e No Man’s Sky dão atualizações gigantes sem cobrar
Em 29 de setembro de 2026, The Witcher 3: Wild Hunt ganhou um remaster completo, com as duas expansões incluídas e sem custo para quem já tinha o jogo, e poucos dias depois chegou a 137.724 jogadores simultâneos na Steam, acima dos 103.329 que o game segurava desde janeiro de 2020. Mais de onze anos depois do lançamento, o RPG da CD Projekt Red teve o maior pico da sua história com uma atualização que não custou nada a quem já era dono.Continua após a publicidadeE a lista de grandes atualizações gratuitas não para nele. Na última quinta-feira (22), Cyberpunk 2077 recebeu a Atualização Edgerunners 2 (2.5), também de graça, com duas missões secundárias, Repressão e Boas-vindas ao Paraíso, e a vantagem Treta em Dobro, que permite empunhar duas pistolas ou dois revólveres da categoria Potência, como mostramos aqui no Olhar Digital. No Man’s Sky, que fez dez anos em agosto, já passou de 40 atualizações grandes sem cobrar por nenhuma. A pergunta é inevitável: por que esses estúdios dão de graça o que muita gente cobraria?Um presente que ninguém precificouImagem: The Witcher/ DivulgaçãoNo caso de The Witcher 3, a resposta veio do próprio co-CEO. Em entrevista ao The Game Business, publicada em 1º de setembro, Michał Nowakowski contou que o remaster nasceu quase por acidente, durante o desenvolvimento da expansão Songs of the Past, prevista para 2027. Quando veio a pergunta sobre o lado comercial, ele respondeu:“Estávamos mergulhando mais fundo no desenvolvimento de Songs of the Past com a Fool’s Theory e começamos a conversar: ‘Por que não deixamos o jogo mais moderno? Tudo parecia ter sido feito há dez anos’. Porque foi feito há mais de dez anos. Começamos a pensar no que poderíamos fazer para melhorar. Começou com coisas pequenas e virou esse projeto maior, e de repente percebemos que tínhamos um remaster nas mãos. Mas, voltando à sua pergunta comercial, nunca pensamos dessa forma. A parte comercial é a expansão, mas, com o jogo, sentimos de verdade que esse é o jeito da CDPR de presentear quem já tem o game. Simplesmente nunca foi uma pergunta que nos fizemos.”A conta, portanto, ficou com a expansão, que será paga, e o jogo base virou presente. A produtora Joanna Wieliczko-Masios, da CDPR, repetiu a ideia em entrevista à Epic Games Store: “Sempre quisemos que fosse um upgrade gratuito e, se antes você só tinha o jogo base e ganha o remaster de graça, incluir as expansões pareceu a melhor forma de apresentar o Remastered.” Por isso, quem só tinha o jogo base recebeu também Hearts of Stone e Blood and Wine, sem custo adicional. Quem quiser ver o que mudou no jogo, a review do remaster está aqui no Olhar Digital.
Dez anos e mais de 40 atualizaçõesImagem: Steam/ DivulgaçãoNo Man’s Sky chegou às lojas em 9 de agosto de 2016 e teve uma recepção morna no lançamento. O que veio depois virou exceção na indústria: mais de 40 grandes atualizações, todas gratuitas. Em texto assinado por ele no PlayStation Blog, Sean Murray resumiu o que isso significou:“Com agora 40 grandes atualizações, todas gratuitas, expandimos nosso universo sandbox com construção de bases, exocraft, assentamentos, mechs, pets, naves vivas, expedições, e reconstruímos o universo várias vezes.”Em entrevista ao GamesRadar, Murray foi além e explicou por que não quer cobrar. Sobre quanto dinheiro o jogo poderia ter rendido com conteúdo pago, ele disse: “Não acho que faria bem para a minha saúde mental.” E completou:“Tenho certeza de que alguém poderia me levar para uma sala e me mostrar um PowerPoint provando que poderíamos ter ganhado mais dinheiro com compras dentro do app ou DLC ou algo assim. E talvez isso seja verdade. Eu nunca quero ver esse PowerPoint.”Continua após a publicidadePara ele, a gratuidade também é parte do processo criativo. Em outro trecho da entrevista, ele afirma:“O que eu sei é que gosto muito, e acho que a equipe também se diverte, de trabalhar em uma atualização sabendo que aquilo em que estou trabalhando todo mundo vai experimentar. Todos os jogadores que temos vão experimentar isso. E acho que a gente realmente curte a jornada, e a jornada só é possível porque cada atualização se acumula.”O raciocínio tem um limite óbvio: o tamanho do estúdio. A equipe de No Man’s Sky tinha em média cerca de seis pessoas no início do desenvolvimento, chegou a 15 no lançamento e hoje tem entre 12 e 20 no jogo, dentro de um estúdio que também trabalha em Light No Fire. Tudo indica que a sequência de melhorias gratuitas ajudou o estúdio a recuperar a confiança dos jogadores depois do lançamento conturbado. O capítulo mais recente é o Cosmos, lançado em 9 de setembro e gratuito para todos os jogadores, em todas as plataformas.Continua após a publicidadeA dívida de Night CityImagem: Cyberpunk.net/ DivulgaçãoCyberpunk 2077 vive outra história. O jogo de 2020 deixou uma dívida com o público, e a própria CD Projekt admite que talvez ainda não a tenha quitado por completo. Em entrevista à newsletter Knowledge, da Edge, divulgada pelo GamesRadar em 19 de junho, Nowakowski disse que não está “100% convencido de que passamos por todo o arco de redenção”. E completou: “Estou convencido de que perdemos a fé de algumas pessoas indefinidamente, e isso é justo. Mas espero que a gente consiga reconquistar, se não com The Witcher 4, então com o que vier depois.” A história desse tropeço já foi contada aqui no Olhar Digital.A fala não é sobre a Atualização 2.5, mas ajuda a entender o contexto: o estúdio que precisa reconquistar o público é o mesmo que, quase seis anos depois, lançou mais uma atualização gratuita. O jogo passou de 40 milhões de cópias, segundo o balanço do primeiro semestre da CD Projekt, e voltou a ter mais de 100 mil jogadores simultâneos em julho, o melhor resultado desde 2023, de acordo com o iXBT Games, que ligou o número à apresentação da segunda temporada de Cyberpunk: Edgerunners e a uma promoção na Steam. A conta também tem um lado pago: a expansão Phantom Liberty vendeu 15 milhões de cópias, segundo o mesmo balanço.Continua após a publicidadeQuem paga a contaDar de graça não significa abrir mão de lucro. No primeiro semestre de 2026, a CD Projekt teve receita de 435 milhões de zlotys, 23% a mais que no ano anterior, e lucro líquido de 249 milhões, alta de 37%. Há um detalhe que pesa: praticamente toda a alta veio do licenciamento de propriedade intelectual, que saltou de 9,4 milhões para 94,8 milhões de zlotys, enquanto a receita própria de Cyberpunk caiu 4% e a de The Witcher subiu 10%, de acordo com a apresentação de resultados da empresa. The Witcher 3 já passa de 65 milhões de cópias vendidas. Os números não provam que a gratuidade causou o resultado, e nenhum dos estúdios disse isso, mas mostram que as duas coisas convivem. Na CD Projekt, o modelo é o que Nowakowski descreveu: o jogo vira presente e a expansão faz o caixa. Na Hello Games, o raciocínio é outro, e passa por manter todo mundo no mesmo jogo, sem fragmentar a comunidade.Continua após a publicidadeGanhando a confiança da comunidade gamerNa minha leitura, o que esses estúdios dão de graça é uma forma de ganhar a confiança da comunidade, e cada um aposta numa porta de entrada diferente.A CD Projekt usa o remaster para trazer uma geração nova para The Witcher 3 e cobra pela expansão. Quem gostar do jogo pode querer comprar tanto Songs of the Past, em 2027, quanto The Witcher 4, previsto para 2028.Com Cyberpunk 2077, o movimento me parece ainda mais evidente. A Atualização 2.5 também é a forma de a CD Projekt continuar se redimindo pelo lançamento de 2020, e chega junto com o anime que muita gente ama, inclusive quem nunca jogou. Isso dá a essas pessoas um bom motivo para darem uma chance a um dos melhores RPGs atuais, com a estética cyberpunk mais icônica já feita. Sem contar os fãs de carteirinha, que iniciam um novo save assim que terminam o anime.A Hello Games abriu mão de vender DLC e fez da gratuidade a identidade de No Man’s Sky.Não é caridade e ninguém precisa fingir que é. O jogador recebe conteúdo sem pagar, e o estúdio ganha alguém que continua por perto. Presente, nesse caso, também é estratégia.
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Eduarda Saturnino é colunista do nosso site e as opiniões do artigo não representam, necessariamente, a opinião do Olhar Digital.
Eduarda Saturnino
É técnica em audiovisual e community manager com 7 anos de experiência no universo gamer.
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