CIÊNCIA

 Quem é afinal mais socialista?

Na sexta-feira passada, o governo parecia ter demonstrado o que lhe convinha: o PSD era reformista e o Chega, que acabou por vetar o pacote laboral ao lado do PS, era socialista. Quem desejasse reformas, não podia votar Chega. Era um bom argumento. Infelizmente para o PSD, não sobreviveu ao fim-de-semana. Porque no congresso do partido, Luís Montenegro tirou da cartola a sua grande ideia para Portugal. Era esta: endividar mais o Estado para que os governos possam voltar a brincar às empresas. O Livre entusiasmou-se, o PS disse logo que a ideia era dele. Quem é que, afinal, é mais socialista?
Engana-se quem pense que isto tem a ver com ideologias. Nada disso: tem apenas a ver com cálculos políticos. Não, não é porque sejam socialistas ou de esquerda que Ventura vota com o PCP no pacote laboral, ou que Montenegro tem acessos de neo-gonçalvismo ou vota com o PS na PSU. É porque lhes parece politicamente vantajoso. Como? A substância das propostas é irrelevante, e por isso quase ninguém consegue explicar em que consistem. O que importa neste jogo é o modo como as propostas possam ser utilizadas para deixar o adversário em má posição.O governo, aliás, nunca mostrou muito empenho em fazer aprovar a reforma laboral. A reforma laboral ou a PSU (tirando o pormenor dos 620 milhões de euros europeus) foram sobretudo um meio de provocar e comprometer as oposições. Basta, aliás, reparar como cada proposta está cheia de alçapões que vão dar a todos os lados do espectro político. Na quarta-feira, depois de aprovada a PSU, as dúvidas criadas pelos líderes parlamentares do PSD e do PS sobre o que foi afinal votado deu ideia da confusão em que caímos. “É uma questão de retórica”, concluiu Hugo Soares.Tudo é retórica. Admito que haja, perdido num gabinete ministerial, algum reformista. Até nas cidades condenadas do Antigo Testamento costumava haver um justo. Será necessariamente um pouco ingénuo. Porque se o governo quisesse mesmo fazer reformas, o seu caminho seria outro. Primeiro, explicitaria a sua visão para o país; depois, publicaria um programa com uma dúzia de reformas articuladas entre si; a seguir, estimaria o resultado que esperava dessas mudanças, de modo que a sua relevância se tornasse clara para todos os cidadãos; e finalmente, desafiaria os partidos parlamentares a viabilizar as reformas, anunciando que em alternativa tentaria obter um mandato popular, em eleições antecipadas, para realizar esse programa.
Mas o governo não quer ir para eleições assim. Não acredita em reformas. Acha que o povo as teme. No fundo, é o próprio governo quem mais receia as reformas. Percebe-se porquê: na medida em que diminuíssem o peso e a influência do Estado, as reformas poderiam tirar poder aos políticos para desempenharem o proveitoso papel de mediadores e de facilitadores. Este governo não está disposto a tamanho sacrifício.As estratégias do PSD e do Chega são fundamentalmente iguais: ambas consistem em colar o outro ao PS. O PSD quer apresentar-se em novas eleições como um centro moderado, entre o radicalismo do Chega e o radicalismo do PS. Foi a ideia de Macron em França, em 2017. Sabemos o resultado: uma governação paralisada. Mas talvez as nossas pequenas imitações de Macron pensem que aqui será diferente.O Chega espera aparecer como a única opção de mudança, entre o situacionismo do PSD e o situacionismo do PS. Talvez isso seja suficiente para ficar à frente do PSD em novas eleições. Mas o país precisa de um governo reformista, não precisa de um longo processo de substituição do maior partido à direita. Também sabemos o resultado em França: os partidos da direita não dirigem um governo há 14 anos. Podemos esperar tanto tempo?

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