Do Conhecimento ao Valor: inovação
Moderei recentemente um painel de discussão sobre o ecossistema de inovação e empreendedorismo em Portugal, com foco particular na relação entre a universidade enquanto espaço de produção de conhecimento e o mundo empresarial. A conversa foi rica, os participantes trouxeram perspetivas diversas e o nível de energia na sala era genuinamente animador. Mas ficou também evidente algo que quem trabalha neste espaço já sente há algum tempo: temos os ingredientes, mas o processo de transformação ainda não está a funcionar de forma consistente.
Portugal produz investigação de qualidade. As nossas universidades formam talento reconhecido internacionalmente. O país tem hoje um conjunto de startups e scale-ups que provam que é possível construir empresas competitivas a partir daqui. E ainda assim, a distância entre o conhecimento gerado nos laboratórios e a aplicação económica desse conhecimento continua a ser maior do que devia.A minha visão é de que se trata de um problema de design do ecossistema e não de capacidade dos seus atores e há três fatores que me parecem decisivos para fechar esta lacuna.O primeiro e mais estrutural é o fortalecimento real dos Gabinetes de Transferência de Tecnologia, conhecidos internacionalmente como TTOs (Technology Transfer Offices, ou ainda Knowledge Transfer Offices). Em Portugal, estes gabinetes existem formalmente em muitas universidades, mas a sua capacidade operacional, os seus recursos e o seu estatuto institucional variam enormemente, e raramente atingem a massa crítica necessária para serem verdadeiramente eficazes.
A transferência de tecnologia exige pessoas com um perfil muito específico: capazes de ler um artigo científico, de perceber o seu potencial comercial, de estruturar uma conversa com um empresário, de negociar um contrato de licenciamento e de apoiar a criação de uma spin-off. É um trabalho de mediação entre dois mundos com linguagens, incentivos e horizontes temporais muito diferentes, e que por isso raramente se resolve apenas com boa vontade ou com estruturas subfinanciadas.Nos últimos dois anos tive oportunidade de visitar universidades no Reino Unido e na Irlanda, e também de conversar com profissionais desta área na conferência R&D Management, realizada recentemente em Manchester. O que ficou mais claro dessas conversas foi, paradoxalmente, animador: mesmo em ecossistemas onde a transferência de tecnologia é uma prática consolidada há décadas, continua a haver investimento ativo na melhoria dos modelos de colaboração entre as partes envolvidas (stakeholders). Há fundos dedicados ao desenvolvimento destas capacidades, há projetos em curso para aproximar ainda mais investigadores, empresas e investidores, e há uma consciência clara de que o trabalho nunca está terminado. Não são mercados a descansar numa vantagem adquirida. São mercados a reinvestir continuamente nela. Para Portugal, que ainda está a construir esta arquitetura, a mensagem é dupla: o caminho é longo, mas está bem sinalizado por quem já o percorreu.O modelo do MIT Technology Licensing Office é frequentemente citado como referência, e com razão. A missão declarada do TLO é mover inovações e descobertas do laboratório para o mercado, em benefício público e em parceria próxima com inventores de toda a comunidade do MIT (MIT TLO, 2025). Mais do que gerir patentes, o que o distingue é a ambição estratégica de construir uma ponte contínua entre investigação e impacto económico. Em Portugal, precisamos de TTOs com esse mesmo nível de ambição e com os recursos institucionais para a concretizar.O segundo fator é mais difícil de resolver por decreto, mas é igualmente determinante: a cultura institucional das universidades portuguesas ainda não recompensa adequadamente o envolvimento com o tecido económico.
A carreira académica é avaliada, em larga medida, pelo número de publicações em revistas científicas indexadas. Patentes, spin-offs, contratos com empresas e projetos de co-criação com a indústria raramente têm o mesmo peso nos processos de progressão. O resultado é previsível: um investigador racional escolhe o caminho que a instituição valoriza. E esse caminho, até hoje, passa maioritariamente pela publicação, não pela aplicação.Investigação recente sobre colaboração universidade-indústria em Portugal e Espanha identificou este problema com clareza: a ausência de uma cultura empreendedora é um dos principais obstáculos à transformação das universidades em agentes ativos do desenvolvimento económico (Audretsch, citado em Natário e Oliveira, 2025). O objetivo não é substituir a investigação fundamental pelo pragmatismo imediato. A investigação fundamental tem valor próprio e é a base de tudo o resto. O que está em causa é criar condições para que os investigadores que queiram dar o passo em direção à aplicação encontrem incentivos reais para o fazer, e não apenas boa vontade institucional sem consequências práticas na progressão da carreira.O terceiro fator é o que menos aparece nas conversas sobre inovação, talvez porque implica um desafio maior: a iniciativa do lado empresarial. O ecossistema de inovação só funciona se houver procura ativa por parte das empresas. E essa procura, em Portugal, ainda é mais tímida do que seria desejável.Há um conjunto de empresas portuguesas, sobretudo as de maior dimensão e as mais expostas à concorrência internacional, que já percebeu que a proximidade com a investigação universitária é uma vantagem competitiva. Mas são ainda exceção. A maioria das empresas, especialmente as PMEs, mantém uma relação episódica com o sistema científico: recorrem às universidades quando têm um problema específico e imediato, mas raramente investem na construção de uma relação de longo prazo.
O modelo da Fraunhofer-Gesellschaft, na Alemanha, constitui um exemplo relevante. A sua missão primária é realizar investigação aplicada por contrato para a indústria, em particular para as PMEs, traduzindo investigação básica em produtos comerciais e processos industriais (National Academies, 2024). A eficácia do modelo assenta precisamente no compromisso da indústria: parceira ativa, com problemas reais que precisa de resolver e com vontade de co-financiar a procura de soluções. Sem esse envolvimento do lado empresarial, os melhores TTOs e as melhores universidades continuam a falar para uma audiência que não está na sala.Isto implica uma evolução na mentalidade no mundo empresarial português: deixar de ver a universidade como um fornecedor de mão-de-obra qualificada e começar a vê-la como um parceiro estratégico na criação de vantagem competitiva. Implica também a criação de políticas públicas, centrais ou municipais, que incentivem este envolvimento, nomeadamente através de estruturas de apoio ao acesso a financiamento que facilitem a participação das empresas em projetos de I&D colaborativo, aproximando investigadores e gestores de forma estruturada e continuada. No Reino Unido e na Irlanda, este papel é assumido de forma explícita: existem mecanismos públicos dedicados a facilitar o acesso das empresas a esse financiamento, e os próprios TTOs beneficiam de apoio institucional para desenvolver os seus modelos de atuação. A experiência destes países mostra que o mercado, por si só, não produz esta aproximação de forma espontânea e que o Estado tem um papel ativo a desempenhar na criação das condições para que ela aconteça.Portugal está num momento de oportunidade genuína. A presença de centros tecnológicos de empresas globais, a consolidação de um conjunto de startups com ambição internacional e o crescimento do investimento em I&D nas últimas décadas criaram uma base que não existia há vinte anos. O talento está cá. A investigação está a ser feita. O próximo passo é construir a arquitetura institucional que transforma esse potencial em valor económico durável.
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