TECNOLOGIA

El Niño se intensifica e aumenta riscos para várias regiões do Brasil

O El Niño 2026-2027 já está estabelecido e apresenta sinais de intensificação, aumentando os riscos de impactos climáticos em diferentes regiões do Brasil. O alerta foi feito pelos pesquisadores Regina Célia dos Santos Alvalá, diretora do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Riscos de Desastres Naturais (Cemaden), José Antônio Marengo, coordenador geral de pesquisa e desenvolvimento do órgão, e Marcelo Seluchi, doutor em Ciências Meteorológicas pela Universidad de Buenos Aires, em artigo publicado no The Conversation nesta segunda-feira (7).Continua após a publicidadeSegundo os autores, informações de agosto apontam para um cenário mais preocupante do que o previsto no início do ano. A Organização Meteorológica Mundial indica que o fenômeno já está oficialmente estabelecido e em fase de intensificação, influenciando os padrões de temperatura e precipitação na América do Sul e em outras partes do mundo.Chuvas e secas já afetam diferentes regiõesO aquecimento do Oceano Pacífico equatorial central e leste vem acompanhado por mudanças na circulação atmosférica. Para Alvalá, Marengo e Seluchi, isso indica que o fenômeno vai além de uma alteração localizada no oceano. Como descrevem os pesquisadores, “não se trata apenas de uma anomalia oceânica”, já que as anomalias de temperatura no Pacífico estão associadas aos ventos tanto na superfície quanto em níveis mais altos da atmosfera.No Brasil, os primeiros efeitos já aparecem na distribuição das chuvas. “Já se registram chuvas superiores à normalidade na Região Sul do Brasil”, escrevem os autores, em razão da maior presença de sistemas frontais. Ao mesmo tempo, o noroeste da Amazônia registra precipitações abaixo do esperado.A situação também chama atenção pelo nível de intensidade esperado. De acordo com os pesquisadores, a NOAA elevou para mais de 90% a probabilidade de um El Niño “muito forte” entre outubro e dezembro de 2026. O Cemaden já havia apontado, desde julho, que o fenômeno deveria se intensificar no segundo semestre, com elevada probabilidade de intensidade muito forte durante a primavera e o início do verão.Riscos do El Niño vão além da meteorologiaSegundo os autores, os possíveis efeitos não ficam restritos às condições do tempo. “O risco não é apenas meteorológico”, afirmam, ao destacar que o fenômeno começa a afetar simultaneamente setores estratégicos como agricultura, geração de energia, rios, logística, incêndios de vegetação, saúde e segurança alimentar.O quadro varia conforme a região. No Sul, os pesquisadores apontam maior risco de chuvas extremas, inundações, enchentes e deslizamentos de terra. Já o Norte e o Nordeste podem enfrentar agravamento da seca e maior risco de incêndios de vegetação, enquanto o Centro-Oeste fica mais exposto ao calor e à baixa umidade do ar.

Um estudo conduzido no Cemaden e citado no artigo indica ainda que o calor deve atingir todas as regiões brasileiras. Os autores afirmam que o fenômeno de 2026-2027 pode superar, nesse aspecto, os eventos de El Niño de 2015-2016 e 2023-2024, que tiveram sete e nove ondas de calor, respectivamente.Preparação para o El Niño envolve saúde, energia e agriculturaDiante desse cenário, o governo federal estruturou um planejamento baseado em informações técnicas do Cemaden, Inmet, ANA, SGB, Defesa Civil Nacional e Inpe. As medidas envolvem a identificação de áreas mais expostas a riscos e a definição de ações de preparação e resposta em articulação com estados e municípios.O planejamento prevê R$ 1,335 bilhão para ações de preparação e resposta a possíveis impactos de eventos extremos, incluindo abastecimento de alimentos, segurança alimentar, saúde, monitoramento hidrológico, fiscalização ambiental e prevenção e combate a incêndios florestais. Os pesquisadores ressaltam que esse trabalho também exige a ampliação das redes de monitoramento dos riscos de queimadas.Continua após a publicidadeNa saúde, o SUS deverá priorizar recursos e kits emergenciais de assistência farmacêutica e hospitalar, além da organização dos serviços. Na agricultura, os pesquisadores destacam a necessidade de atenção dos produtores de soja, já que os riscos variam entre as diferentes regiões produtoras.Para a Região Sul, a Embrapa elaborou uma Nota Técnica com ações para reduzir os efeitos do El Niño na agricultura. Os impactos, entretanto, também podem atingir outras etapas do setor. “Os efeitos do El Niño não se restringem ao campo”, escrevem os autores, citando também armazenamento, transporte e comercialização entre as áreas que podem ser afetadas.No setor elétrico, a combinação entre menor disponibilidade de geração na Região Norte e maior demanda causada pelas temperaturas elevadas levou o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico a decidir pela adição de 1,8 gigawatt ao Sistema Interligado Nacional a partir de 1º de setembro.Continua após a publicidadeSociedade também precisa participarO impacto sobre o abastecimento de água também entra no planejamento. Os pesquisadores apontam a possibilidade de aumento do consumo nas regiões Sudeste e Centro-Oeste por causa das secas e das temperaturas mais altas. Recursos também foram previstos para formação de estoques públicos e aquisição de alimentos básicos, como milho e arroz.Para os autores, a resposta ao fenômeno precisa envolver diferentes setores e não pode ficar limitada às instituições públicas. “As ações de prevenção, preparação e resposta aos possíveis impactos climáticos do El Niño 2026-2027 devem contemplar todas as esferas de governo, mas não se restringem somente a elas. Precisam alcançar também a sociedade”, afirmam Alvalá, Marengo e Seluchi.O Cemaden participa dos diálogos entre governo federal e sociedade civil e tem priorizado a divulgação do panorama técnico-científico mais atualizado sobre o fenômeno e seus efeitos regionalizados. A proposta é apoiar medidas de preparação e ampliar a discussão sobre a convivência com os impactos do El Niño e das mudanças climáticas.Continua após a publicidadeNo encerramento do artigo, os pesquisadores reforçam a necessidade de planejamento diante do cenário previsto. “Tornou-se fundamental estabelecer planos de preparação e respostas” para reduzir prejuízos econômicos, sociais, ambientais e de infraestrutura, além de adotar estratégias de comunicação baseadas em informações científicas validadas e atualizadas.

Ana Luiza Figueiredo

Ana Figueiredo é repórter de tecnologia do Olhar Digital. É formada em jornalismo pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU).

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