CIÊNCIA

Um raro acordo de paz escrito em língua lusitana e latim 


Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
O homem e a história. Para quem a quiser conhecer, é só visitar o Centro de Interpretação e Informação de Montemuro e Paiva, em Castro Daire, distrito de Viseu, onde se tem precisamente uma sala dedicada a explicar as origens de Castro Daire, como é que tudo começou, quem foram os primeiros homens. E para me dar esses detalhes, tenho comigo Telmo Ferreira, técnico deste centro. Telmo, muito bom dia.
Bom dia.
Como é que a história humana e não só, também a pré-histórica, começou aqui em Castro Daire?
Aqui na nossa sala do Homem da História, nós começamos sempre com o período Neolítico. Sabemos que houve ocupação do território já neste período, porque temos algumas antas e alguns dólmenes que eram espécies de monumentos funerários que existiam neste período. Como conseguimos encontrá-los um bocadinho espalhados por todo o território de Castro Daire, nós temos aqui um testemunho da passagem de povos durante este período Neolítico. Eram povos que já praticavam a caça, também algumas atividades relacionadas com a agricultura. No Neolítico é quando remontamos ao período da pedra polida, em que também já temos a cerâmica e também os moinhos.
Esta peça em xisto que aqui está também faz parte dessa altura?
Não, aqui já avançamos do Neolítico para a Idade do Ferro, já entramos na Idade dos Metais. Como podemos ver aqui, nesta pedrinha de xisto, era um molde que funcionava para fazer joias em ouro e em prata que simbolizavam poder hierárquico, como, por exemplo, os líderes das tribos lusitanas, que habitavam também aqui no período da Idade do Ferro. Os lusitanos, como é sabido, foram um povo pré-romano. Eles habitaram este território antes das invasões romanas, que depois devido ao número e à capacidade que os romanos tinham também, como era a sua arte da guerra, e eles faziam-se valer dos números e também de algumas vantagens que tinham relativamente à arte e a armas que já possuíam. Eles conseguiram então invadir o território, derrotar os lusitanos e chegaram então também os romanos até Castro Daire.
Essa passagem que também está aqui documentada no centro.
Exatamente. E aqui já podemos ver uma réplica de uma pedra escrita, que nós designamos de pedra escrita de Lamas de Meledo. Aqui temos a réplica, a original está na aldeia de Lamas, que pertence à freguesia de Meledo, uma das 16 freguesias do nosso concelho. Nós aqui temos a réplica que está gravada, como eu já referi, e já temos o latim na pedra, ou seja, já tínhamos os romanos no nosso território. Quando eles chegaram a Castro Daire, também havia líderes de várias tribos romanas, mas que ainda tinham um bocadinho a influência do período da Idade do Ferro, do período em que os lusitanos habitavam este território. O que nos diz esta pedra, vendo aqui a sua transcrição, é que dois líderes de duas tribos, Rufino e Tiros, que eram dois líderes de tribos romanas, ofereceram duas divindades diferentes e fizeram o sacrifício do porco e de uma ovelha, pedindo paz, proteção e harmonia. Ou seja, nós aqui temos encerrado um acordo de paz e harmonia entre dois povos, entre duas tribos.
Tudo documentado numa pedra.
Exatamente, tudo documentado numa pedra. Embora nós aqui tenhamos o latim, porque os romanos, quando chegaram a este território e em todos os territórios onde eles chegaram, os romanos eram um povo muito empreendedor. Não construíam só estradas, ou pontes, ou edifícios, mas eles também trouxeram com eles o latim, que foi muito importante, uma nova língua que serviu para comunicar e para abrir portas de comércio entre toda a Europa. Mas aqui nós ainda temos palavras da linguagem lusitana e esta réplica da pedra que nós vemos aqui, a pedra que está situada em Lamas, está classificada como imóvel de interesse público, porque é muito raro nós encontrarmos uma pedra ou uma inscrição numa pedra que tenha as duas línguas, tanto a lusitana como o latim. E nós vemos aqui, por exemplo, a palavra “lamaticon”, em latim ovelha é “ovis”, e aqui ainda está “lamaticon”, linguagem lusitana.
Portanto, quer dizer ovelha no nosso português de hoje. Estava a dizer que não só trouxeram uma língua nova, mas que também modernizaram o território e que trouxeram mudanças de infraestruturas, alteraram completamente o território, deram uma nova vida. Concretamente, como é que nós podemos perceber neste centro o impacto nas infraestruturas que os romanos tiveram quando chegaram a Portugal, que é assim que chamamos hoje?
Sim, podemos muito claramente. Vamos passar aqui para esta parte e podemos falar concretamente sobre isso. Nesse tempo, no tempo em que os romanos estavam no território, Lamego e Viseu eram dois centros de comércio muito importantes. E os romanos encontraram aqui em Castro Daire uma dificuldade muito grande, que era o rio Paiva, que fazia com que a ligação não fosse muito fácil. O que é que eles construíram? Construíram uma ponte romana, que é a que nós agora, nos dias de hoje, e já há algum tempo também, designamos de Ponte Pedrinha. Serviu para tornar a ligação mais fácil entre dois polos de comércio, que eram Lamego e Viseu. Essa Ponte Pedrinha, construída pelos romanos, foi requalificada no final do século XIX. Nessa requalificação, encontraram estas duas estruturas de pedra, que nós designamos de aras votivas. Aqui foi feito também um sacrifício de um animal, é um quadrúpede, não sabemos, neste caso, se era uma ovelha, se era um porco, que tipo de animal era. Sabemos que tínhamos um animal com quatro patas. E esse sacrifício foi feito a esta divindade, ao deus Ares. Onde nós temos a nossa Igreja Matriz, antigamente existia um castro, um castro da Idade do Ferro, tinha uma grande muralha à volta. E esse castro e esta divindade poderão estar na origem também da nossa toponímia, na origem do nome Castro Daire. Mas voltando à pergunta, a Ponte Pedrinha é um exemplo de uma construção da época dos romanos que permitiu e facilitou a vida das pessoas e juntou dois centros de comércio, Lamego e Viseu.
Que duraram séculos, ainda hoje são utilizados no nosso território. Essa história está explicada, está presente no Centro de Interpretação e Informação de Montemor-o-Novo e Paiva. Telmo Ferreira, muito obrigada.
Obrigado também. Um bom dia.

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