CIÊNCIA

Vai-se pagar portagem para navegar no Estreito de Ormuz?


Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Gabinete de Guerra da Rádio Observador, segunda edição do dia. Hoje mais cedo, o nosso convidado é o historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, boa tarde, bem-vindo. Vamos começar pelo comunicado conjunto divulgado pelo Conselho de Cooperação do Golfo e pelos Estados Unidos. Integram este conselho a Arábia Saudita, o Bahrein, o Qatar, os Emirados Árabes Unidos, o Kuwait e Omã. Este comunicado conjunto defende que a Faixa de Gaza deve ficar sem grupos armados. É também manifestado o apoio ao plano de Donald Trump de transformar Gaza numa região de paz e de prosperidade. Já vamos à reação do Irão, que chega pela voz do ministro dos Negócios Estrangeiros, mas começo por perguntar, Bruno, se é de alguma forma surpreendente que este comunicado seja conhecido, que esta posição seja assumida de forma conjunta nesta altura em que ainda está, por exemplo, periclitante o avanço das negociações entre os Estados Unidos e o Irão.
Boa tarde a todos. Eu acho que não neste sentido. Ou seja, esta visita de Marco Rubio e este comunicado, basicamente, visam responder a uma questão que estava em cima da mesa, que é: esta negociação foi feita essencialmente pelos Estados Unidos com o Irão e depois com o envolvimento como mediadores do Paquistão e dois países desta região, Omã e o Qatar, que tipicamente são os Estados que têm historicamente procurado sempre manter melhores relações com o Irão, portanto, não alinhar completamente nem no bloco pró-iraniano, nem no bloco anti-iraniano, que tem sido uma das grandes divisões e fontes de conflito também no Médio Oriente nas últimas décadas. Mas outros Estados, sobretudo os Estados mais alinhados com os Estados Unidos e até também por essa via, por pressão americana, por incentivo americano, por exemplo, procuraram também normalizar relações com Israel, Estados como Bahrein ou como os Emirados, realmente manifestaram preocupação com esta questão. Mas será que os Estados Unidos estão a preparar-se para fazer uma jogada tipo Venezuela? Agora vão apostar em boas relações com o Irão e com o petróleo iraniano e o que é que vai acontecer a estes Estados do Golfo, que são Estados com populações muito pequenas, com enormes populações migrantes, mas com populações nativas muito pequenas, muito ricos e, portanto, também tendencialmente alvos bastante apetecíveis. Obviamente, vimos aquilo que aconteceu em 91 com o Kuwait e o Iraque. E, portanto, esta viagem de Rubio, este comunicado, no fundo, visa sobretudo passar a mensagem de que o Irão não pode dividir para reinar, de que não vai dividir os Estados Unidos dos seus aliados e não vai dividir os países do Golfo entre si, embora, na verdade, vimos aí algumas tensões, por exemplo, aquela questão também dos Emirados para mostrarem a sua insatisfação com não terem tido suficiente apoio da Arábia Saudita, por exemplo, terem saído da OPEP. Portanto, acho que era de esperar algo deste tipo. A reação iraniana mostra que realmente este processo está longe de estar terminado. Aparentemente, o Irão estava convencido que tinha conseguido aqui algumas vitórias no sentido desta divisão deste bloco, de uma posição dos Estados Unidos de menos choque com o Irão e este comunicado aparentemente desfaz um pouco isso.
Já agora, deixe-me só dar conta da reação do ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão. Considera este comunicado conjunto intervencionista, irresponsável e uma provocação.
O Irão está chateado porque aquilo que estava à espera não aconteceu, aparentemente. Por exemplo, o Irão, uma das coisas que tem insistido é as bases americanas na região. Os Estados Unidos têm entre 12 e 19, enfim, dependendo se consideramos grandes bases ou qualquer tipo de presença militar dos Estados Unidos, mas cerca de 19, se quisermos, locais onde há uma presença militar relevante americana por todo o Médio Oriente. E uma das questões que o Irão tinha insistido é: isto é uma das causas de insegurança e, portanto, os Estados Unidos devem sair. Uma das coisas que este comunicado vem esclarecer é: os Estados Unidos não querem sair. Há também especulações, ao mesmo tempo, diga-se, por exemplo, de que os Estados Unidos poderão transferir pelo menos parte da sua presença naval da zona do Golfo, onde está muito vulnerável aos ataques iranianos, por exemplo, para Israel. O facto deste comunicado dizer que não vai mudar basicamente nada e que tudo continua como dantes, não quer dizer que seja mesmo assim, mas pelo menos há aqui suficiente continuidade para isso ser visto como, da parte do Irão, um irritante, a ideia de uma provocação. Agora, isto volta também a sublinhar esta questão, que é um cessar-fogo muito frágil, é uma tentativa de entendimento com enormes desconfianças de parte a parte e portanto temos de manter aqui grande cuidado sobre presumir que a questão está resolvida e que o conflito está encerrado.
Sobre o Irão, das últimas horas, as divisões em torno da gestão da navegação no Estreito de Ormuz.
Sim, essa é a questão central que está em cima da mesa e que é uma questão nova trazida por este conflito. O Irão mostrou, provou que com meios assimétricos, meios não convencionais, sem ter uma marinha convencional, aí Donald Trump tem razão, basicamente a marinha convencional iraniana está toda no fundo, mas isso não é preciso, porque com minas, com drones, com mísseis, o Irão consegue criar suficiente risco, suficiente ameaça no Estreito para realmente impedir a navegação segura, fazer disparar o preço dos seguros, evitar que muitas companhias de navegação responsáveis, que não querem perder navios e tripulação, não queiram arriscar. Esse é um dos grandes problemas. E realmente, o Irão continua a insistir que as coisas vão mudar. O preço para voltar a haver navegação no Estreito será uma navegação condicionada e taxada pelo Irão. Agora a ideia é que vai ser preciso pagar serviços, seja seguros, enfim, uma fórmula para o Irão cobrar a passagem segura. Isso à partida seria um precedente terrível E seria uma derrota estratégica dos países do Golfo, que obviamente não têm nada a ganhar em ter as suas exportações, por exemplo, petrolíferas a serem taxadas pelo Irão, que ainda por cima é um país que de vez em quando os ameaça. E seria uma derrota estratégica também para os Estados Unidos, que desde a sua independência, tem como um dos seus princípios fundamentais na ação externa, a defesa da liberdade de navegação.
Sendo que os Estados Unidos não aceitam esta condição que o Irão quer impor.
Sim, os Estados Unidos, e este comunicado volta a sublinhar isso, os países do Golfo, inclusive o próprio Omã, que já agora tem metade das águas territoriais do estreito, embora como é um estreito, são águas internacionais, portanto, para certas questões, estes países têm alguma jurisdição, mas não podem impedir a navegação pacífica de navios civis. Isso é realmente bastante importante, mas aparentemente é mais um fator de tensão, de divisão, mais uma das razões pelas quais temos que ter grande cuidado sobre dar isto como encerrado, sobretudo nesse ponto que é crucial para a economia global, como temos visto no preço dos combustíveis na bomba.
Temos ainda aqui dois ou três minutos. Gostava que voltássemos agora o nosso olhar para o conflito no leste da Europa. Hoje ficámos a saber que a União Europeia vai aceder ao pedido da Ucrânia para impedir homens ucranianos em idade militar de entrarem em países membros para viver e trabalhar como se fossem refugiados. É uma dificuldade, é um sintoma das dificuldades de recrutamento por parte das Forças Armadas ucranianas, este pedido de Kiev à União Europeia?
Sim, não há dúvida que sim. Este é um conflito de atrição, neste momento, de desgaste, com muitas baixas e portanto é compreensível que haja jovens ucranianos que hesitem, de facto, de incorrer esses riscos e prefiram esta opção de vir viver para uma Europa mais segura, mas realmente é um problema para a Ucrânia. É um problema também enorme para a Rússia. A Rússia, neste momento, já não consegue, mesmo com enormes incentivos financeiros, recrutar soldados suficientes para compensar as baixas que está a sofrer cada mês, mas também é um problema enorme para a Ucrânia e realmente isto reflete essa questão.
É um problema que, pelo menos para já, não fará saltar Vladimir Putin, essencialmente Vladimir Putin e Vladimir Zelensky, para a mesa de negociações.
Não vemos nenhuns sinais disso. A Ucrânia tem conseguido recuperar um pouco a iniciativa e com estes ataques com drones cada vez de mais longo alcance, com mais cargas explosivas, estão a conseguir produzir um efeito estratégico muito importante. Putin vai-se queixar disso, dizer os ucranianos estão a tentar desestabilizar a Rússia, o que é significativo do que lhe está na cabeça. Soubemos hoje também que, por exemplo, tiveram de impor o estado de emergência na Crimeia, que está com apagões, com racionamento de combustível, etc. Portanto, há realmente aqui um efeito estratégico importante destas ações ucranianas, mas infelizmente, isso não quer dizer que o conflito esteja resolvido a favor da Ucrânia ou que os dois lados tenham chegado à conclusão que é melhor tentar chegar a um compromisso político do que continuar o conflito, porque isto também acontece muitas vezes nestes conflitos prolongados. Os custos, as baixas dos dois lados são de tal ordem, que depois é muito difícil aos líderes políticos assumirem o custo político interno, dizer: “Vamos ter que chegar a um compromisso, apesar de todos estes enormes sacrifícios”.
Uma dificuldade para os dois lados desta barricada. Bruno Cardoso Reis, historiador que nos ajudou a interpretar e analisar alguns dos factos mais recentes relacionados com o conflito no Médio Oriente, também com o conflito no leste da Europa, como é habitual à sexta-feira, Gabinete de Guerra em formato mais reduzido.

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