Facto, comentário, ficção
A observação da vida dos jornalistas dá a impressão de que fazem coisas diferentes ao longo da vida. Em pequenos, os jornalistas são ensinados a reportar factos; à medida que crescem, embora cresçam depressa, passam a ser procurados para comentar factos reportados; e é raro a um jornalista chegar à idade madura sem ter escrito um livro de ficções, normalmente um livro de viagens ao estrangeiro ou um romance. Factos, comentários e ficções são consensualmente coisas diferentes.
Qual será, no entanto, a diferença? Uma possibilidade é a de que sejam diferentes como variedades de bebidas à base de café são diferentes entre si. Se os factos fossem como um café, os comentários seriam como um café com um pouco de leite, e as ficções seriam como leite com um pouco de café. Em todos existiria uma mesma substância: concentrada, no caso dos factos propriamente ditos, colorida, no caso dos comentários, e usada para colorir, no caso das ficções.Esta noção é atraente mas não é exacta. Nunca sabemos bem se uma ficção foi colorida com café ou com outra coisa castanha; e se num comentário os factos são coloridos com leite ou com tinta branca. A diferença entre factos, comentários e ficções não é como a graduação de uma côr, ou como a diluição de uma substância. É mais parecida com a diferença entre três tipos de atitudes que podemos ter em relação àquilo que contamos.Quando um facto ocorre não precisamos quase nunca de estar por perto para que ocorra. E, embora o que ocorre ocorra realmente, também sabemos que não adianta perguntar a um facto se realmente ocorreu. Chamamos factos, pelo contrário, a descrições de coisas que aconteceram realmente. A atitude de quem descreve factos é uma atitude muito comum: a atitude de quem descreve estados de coisas e ocorrências e sabe muito bem que eles aconteceram independentemente da sua descrição.
O comentário depende de uma atitude diferente: a de acreditar que aquilo que se passou é determinado pelo próprio comentário. Por essa razão os comentadores dependem de factos apenas na medida em que são os seus comentários que estabelecem esses factos. O comentador orgulha-se justificadamente de factos que ninguém acharia que tivessem acontecido se não fosse o seu comentário. O comentário consiste quase sempre em estabelecer os factos que comenta.Pelo contrário, na ficção, estado avançado do comentário, a relação com aquilo que não depende dos seus autores, ou seja com os factos, é quase inexistente. Até uma criança consegue escrever ficções sobre acontecimentos que não se passaram; no entanto, os jornalistas, como foram desde pequenos habituados a reportar factos, tendem a dar um aspecto de jornalismo aos seus romances e livros de viagens. A ficção é assim o apogeu de uma vida de jornalista: um comentário extraordinariamente perfeito, um tipo de jornalismo em que por fim tudo depende do jornalista.
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