PSU-do política
A política tem sempre a sua dose de encenação, farsa e pura e simples mentira. É um triste reflexo das fraquezas da natureza humana. Não vale a pena pensar que algum dia existiu política que não viesse acompanhada desses ingredientes. Mas há, e tem de haver, limites. Neste momento, aqui na desditosa pátria, os limites não existem. Os últimos dias foram uma lamentável demonstração do despudor.
Há uns dias, José Luís Carneiro, acompanhado de um coro infindável de ex-ministros de António Costa, denunciavam o “extremismo” e a “desumanidade” do Governo. Falavam da proposta da Prestação Social Única. Mais tarde, no dia em que Governo e PS chegaram a acordo, imediatamente os socialistas puseram a correr na comunicação social que a “desumanidade” tinha sido heroicamente vencida. Traduzindo nos termos da proposta, o “trabalho socialmente necessário”, que estava previsto para um grupo insignificante de pessoas no território nacional, deixara de ser “obrigatório”.As semanas anteriores tinham sido marcadas pela denúncia vigorosa do que estava previsto na proposta do Governo para a PSU. Como contrapartida do benefício da prestação, os beneficiários, dependendo da sua idade e condição, tinham ou de ir para a escola cumprir a escolaridade obrigatória, ou frequentar formação profissional, ou responder às propostas de emprego vindas do IEFP. Evidentemente isto não incluía aqueles que já estivessem em idade de reforma. Como quarta opção previa-se, então, o “trabalho socialmente necessário” num regime de 15 horas por dia. Uma vez mais, só qualificariam para este tipo de contrapartida as pessoas que tivessem condições físicas e mentais para o fazer. Mais, ninguém se atreveu a mencionar uma outra condição: a de que as entidades do sector social, forças armadas ou câmaras municipais tivessem a capacidade de coordenar e gerir pessoas que viessem participar numa actividade desse tipo – coisa que evidentemente não existe. Daqui resulta que o universo de beneficiários a ser chamado para essas actividades seria muito próximo de zero.Acresce que a figura do “trabalho socialmente necessário”, ou equivalente a ela, estava previsto no regime de prestações não-contributivas ao modo do “rendimento mínimo garantido” desde os anos 90. Nada disto era novo. Mas tudo isto era “desumano” por ser nada mais do que o regresso ao “trabalho forçado” (palavra de honra!), como disseram socialistas de alta reputação e duvidosa valia.
Poucas horas depois do anúncio da grande vitória da humanidade sobre a desumanidade, lá se percebeu que afinal a proposta do “trabalho socialmente necessário” não tinha caído. Foi penoso ver José Luís Carneiro e Eurico Brilhante Dias em piruetas sucessivas na vã tentativa de se justificarem. Sabemos bem, e o Governo não se iluda, que o PS aceitou participar da desumanidade que o PPD inflige ao País e ao mundo porque queria resolver este assunto da PSU o mais rapidamente possível. Por negligência do governo Costa, o tema, que tinha ficado amarrado na lista de “condicionalidades” do PRR, vegetara nas gavetas dos Ministros. Mas agora chegava o terrível momento em que o País ficaria sem o seu precioso dinheirinho europeu.Ao que parece, há coisas piores do que a desumanidade. Para o PS é ser posto a explicar a sua responsabilidade na suspensão dos subsídios europeus. Todo o Inferno menos isso. Para que o dinheiro europeu possa continuar a correr estamos dispostos a tudo. Hoje foi assim, e Hugo Soares até conseguiu saudar a “dignidade” do PS sem se rir. Como se tudo isto não nos bastasse, fomos torturados com a demagogia patética e oportunista do Chega, que nas suas doses habituais já é insuportável, mas que nas últimas horas foi estonteante, concluindo-se pitorescamente pelo anúncio de um pedido de fiscalização preventiva da lei.Amanhã é outro dia. Amanhã, o Governo andará a pedinchar à oposição o apoio que lhe garanta mais uns meses de sobrevivência porque mais nada importa, nem sequer “governar para as pessoas”, como teimam em nos convencer. Com a inevitável consequência de um mesmo teatrinho de terceira categoria protagonizado por Ministros e oposição agora versando outro tema qualquer. O PS persistirá nos seus saltos mortais de mentiras e despudor, acompanhado pelo Chega do outro lado com mentiras iguais ou alternativas, sempre com juras de amor ao povo, e ambos no desprezo total pelo que se passa no País. Se pensarmos que estamos em vésperas de preparação do Orçamento do Estado para 2027, haverá farsa com fartura. Quase tanta como a do dinheiro do PRR.
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