Foi o eleitorado que travou Ventura?
Há uma semana, ficámos todos surpreendidos com o aparente volte-face do partido Chega na aprovação do pacote laboral proposto pelo Governo. Quem assistiu em direto à votação percebeu que o próprio PSD e alguns deputados do Chega ficaram desconcertados com a decisão de André Ventura.
A votação confirmou a suspeita que muitos de nós tínhamos sobre a (não) existência de uma maioria de direita económica e reformista no atual parlamento, e revelou também a existência de um sistema partidário tripolar. O panorama atual não é uma simples continuação do sistema partidário de sempre por outros meios, e não basta saber qual dos dois lados (esquerda ou direita) tem maioria para saber que leis são aprovadas ou chumbadas. Neste sistema, o PSD pode aprovar legislação sobre imigração, segurança ou nacionalidade com o Chega, mas não conta com este partido para as medidas que impliquem reformas económicas mais liberais ou risco político.Há duas grandes visões sobre como se desenrola a política no período entre eleições. Uma das visões sugere que, durante o seu mandato, os políticos eleitos seguem a opinião da maioria do seu eleitorado. Alguns defendem mesmo que deve ser assim e que essa é a essência da democracia representativa: representar as preferências daqueles que neles votaram. Claro que a versão mais radical desta visão tem também muitos opositores: os políticos eleitos não devem apenas seguir os seus eleitores. Devem ponderar a popularidade das medidas à luz de um dever de consciência e responsabilidade, tomando as decisões que acham ser melhores para o país. Outros argumentam ainda que, acima de tudo, os políticos querem ter bons resultados na próxima eleição, o que implica não desiludir os seus eleitores e calcular aquilo que eles querem. A expectativa mais natural, portanto, é que procurem satisfazer as preferências do seu eleitorado.A outra visão enfatiza a capacidade mobilizadora dos líderes e a sua influência sobre o eleitorado que neles votou. Segundo esta perspetiva, os representantes eleitos têm bastante liberdade para agir como quiserem, independentemente das suas promessas ou discurso pré-eleitoral e independentemente da opinião pública dominante no seu eleitorado. E, no final das contas, esse comportamento mais liberto dos desejos do seu eleitorado pode até nem ter grandes consequências eleitorais. O apego dos eleitores à figura política ou à sua própria identidade política é tão grande que são os apoiantes que mudam de opinião consoante as decisões e tomadas de posição do líder (especialmente se estas não causarem danos palpáveis).
Não é uma teoria totalmente extravagante: há muitos exemplos na história e no mundo atual que nos dão casos evidentes. Por exemplo, no início de junho de 2025, 53% dos norte-americanos apoiantes do Partido Republicano eram contra o envolvimento dos EUA num conflito entre Israel e o Irão. Vinte e quatro horas depois do ataque norte-americano, a 21 de junho, 69% dos apoiantes republicanos aprovavam o ataque. Em fevereiro de 2026, a empresa de sondagens YouGov tinha em curso uma sondagem sobre se os inquiridos apoiavam um ataque para derrubar o ayatollah. Entre aqueles que responderam entre 20 e 23 de fevereiro (antes do ataque), apenas 39% dos inquiridos republicanos apoiavam a ação militar. Depois do ataque, entre 27 de fevereiro e 2 de março, 50% já apoiavam.Penso que muita gente esperou que algo de semelhante ocorresse entre Ventura e os seus eleitores no que toca à reforma laboral e a outras medidas económicas. Mesmo que o seu eleitorado estivesse dividido em matérias económicas, o apego a Ventura e à identidade política que este construiu faria os eleitores que se opunham mudar de opinião. Desta forma, a margem para Ventura abraçar medidas reformistas e mais liberais do que o seu eleitorado seria larga.No entanto, não foi esse o cenário que o próprio André Ventura calculou como sendo o mais provável nesta ocasião. A capacidade de os líderes moldarem o eleitorado não é irrestrita, pelo que o cálculo – saber quando persuadir o eleitorado e quando apenas refletir as suas tendências – é o segredo do ofício. André Ventura sabe a distribuição geográfica do seu eleitorado, bem como as suas características sociológicas. Terá dados sobre a estrutura educacional e ocupacional dos seus apoiantes e sobre as suas opiniões em matéria de imigração, de corrupção, de pensões ou de intervenção do Estado na economia.Numa das sondagens divulgadas nas semanas anteriores à votação, perguntou-se aos eleitores se consideravam prioritário “proteger a estabilidade do emprego, os horários e os direitos dos trabalhadores” ou “dar mais flexibilidade às empresas para promover a produtividade e o emprego”. Para além disso, perguntou-se também o que achavam da proposta laboral e qual dos dois objetivos a proposta promovia. Entre os eleitores do Chega, 57% declararam que a prioridade devia ser a estabilidade do emprego, mas que as alterações à legislação visavam dar mais flexibilidade às empresas. Isto é, 57% dos apoiantes do Chega eram de opinião que a legislação tinha as prioridades erradas. Pelo contrário, apenas 27% dos eleitores do PSD tinham essa mesma visão, e o eleitorado do Chega nesta matéria era mais parecido com o do PS (53%) do que com o do PSD. Note-se ainda que esta reforma laboral esteve em discussão durante quase um ano, período ao longo do qual Ventura poderia ter tentado convencer o seu eleitorado de que esta reforma era o melhor caminho para o país. Não o fez. Provavelmente porque sabe que o Governo é impopular entre os apoiantes do Chega: em março, 87% consideravam que o Governo estava a fazer um mau trabalho; já entre o eleitorado do PSD, apenas 18% disseram o mesmo.
Talvez o próprio Ventura, como cidadão individual, antigo militante do PSD e simpatizante de Pedro Passos Coelho, não tivesse nenhum problema em apoiar a reforma. Mas, independentemente das suas preferências pessoais, ficou aqui mais uma prova de que o eleitorado constrange os líderes de forma significativa.André Ventura não é meramente errático no que toca a políticas económicas: até hoje, sempre que uma proposta legislativa envolve trade-offs – e não apenas aumentar o rendimento de todos ou descer os impostos de forma popular – Ventura não alinha com o lado liberal, mas sim com o lado protecionista. Isso não é um mero acaso: é perfeitamente explicável pela estrutura e sociologia do seu eleitorado, pelas opiniões declaradas desse eleitorado e pelo desejo político de ter bons resultados eleitorais.Claro que os eleitorados de partidos grandes, como o Chega ou o PSD, são heterogéneos. Haverá certamente eleitores do Chega que se desiludiram com esta decisão. Vários eleitores do Chega são de direita não apenas em matérias sociais ou culturais, mas também económicas. Na verdade, essa heterogeneidade económica do eleitorado do Chega é expectável e decorre do facto de esse não ser o seu principal foco de atração política. A maioria das pessoas que apoia o Chega não o faz por causa das suas políticas económicas, mas sim por causa de outras coisas a que normalmente chamamos a “segunda dimensão” da política (o eixo cultural): os conflitos sociais e políticos em torno da imigração e da segurança, da diversidade e da preservação cultural, do cosmopolitismo e do nacionalismo. Para além dessa dimensão, há ainda o eleitorado cuja principal motivação é o descontentamento geral com o sistema ou com a corrupção.O Chega teve sucesso eleitoral porque uniu pessoas vindas de campos políticos distintos, mas que concordam nestes assuntos não económicos. É natural, portanto, que no eixo económico o eleitorado seja heterogéneo: uns serão mais liberais e outros mais protecionistas. Ainda assim, e apesar dessa heterogeneidade, a maioria dos eleitores do partido tende para um dos lados, e as ações de Ventura – que, mais do que ninguém, tem incentivos para aferir com precisão os desejos dos seus apoiantes – revelam que esse lado é, por agora, o protecionista.
É possível que, no futuro, com a mudança política em curso e a consolidação de uma base eleitoral fiel ao partido, a ideologia dos apoiantes do Chega em matéria económica se vá progressivamente alterando. É também possível que a base sociológica e eleitoral do Chega se altere e haja um afluxo de eleitores liberais vindos do PSD ou da IL que faça alterar a opinião do eleitor médio do partido. Mas, por enquanto, tal alteração ainda não ocorreu. Sem essa convergência, é improvável que os vários partidos de direita consigam firmar entre si um pacto económico, social e cultural abrangente e coerente.
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