Não há jogos grátis
Tenho assistido a jogos deste Mundial através da LiveModeTV, o canal que transmite no YouTube. Mesmo habituados ao futebol-espetáculo da televisão, a experiência causa uma certa impressão de novidade. Quatro locutores e comentadores fazem-se notar pelo entusiasmo (e também alguma gritaria), puxam por adesões (aquilo a que no jargão se chama de “engagement”) e convertem a transmissão num formato comercial permanente.
A LiveModeTV chegou a Portugal depois de testar, no Brasil, um modelo digital de transmissão desportiva com forte participação de “criadores” de conteúdos. No Brasil a CazeTV tem sido um sucesso estrondoso. À primeira vista, a LiveModeTV parece mais um canal que transmite gratuitamente um pacote de jogos – e, de facto, não exige qualquer subscrição, registo ou pagamento prévio. Mas este não é apenas um produto de televisão a passar para as plataformas de vídeo. Embora ofereça um jogo por dia, a sequência do canal vive também do que acontece antes, durante e depois do jogo: comentários em direto dos espetadores, conversas paralelas, linguagem colorida (a que não falta a brejeirice do costume), apelos à interação e presença das marcas e produtos.O elemento principal das transmissões da LiveModeTV é, por isso, a criação de um ambiente que não é apenas desportivo, mas comercial. Qualquer pessoa com YouTube pode ver livremente os jogos mas entra num formato que altera o que é uma transmissão desportiva. Os apelos à subscrição, as contagens de visualizações, os incentivos ao chat, os patrocínios verbalizados pelos comentadores, a colocação de produto e a presença de influenciadores fazem parte de um ambiente em que o futebol se cruza com a linguagem das plataformas digitais. O futebol serve para captar a atenção e a plataforma transforma essa atenção num valor económico partilhável.A FIFA já tinha experimentado um modelo com algumas semelhanças no Mundial de Clubes de 2025. A DAZN adquiriu os direitos globais de transmissão e disponibilizou gratuitamente todos os jogos na sua plataforma, ao mesmo tempo que sublicenciou jogos a mais de 100 operadores locais. Nesse caso, tudo se passava dentro de uma proposta centralizada: a DAZN decidia como conjugava app, site, transmissões gratuitas e sublicenciamentos de direitos.
O que acontece agora em Portugal é diferente. A Sport TV mantém a transmissão integral de todos os jogos, a maioria em exclusivo, enquanto a LiveModeTV ocupa outra camada no YouTube com 34 jogos, incluindo todos os de Portugal. Já não estamos apenas perante um operador que vai distribuindo internamente os seus direitos por canais diferentes. Estamos perante experiências concorrentes de visualização dos mesmos acontecimentos desportivos dentro do mesmo território, com modelos de negócio próprios e separados.A ideia clássica de transmissão de um “acontecimento desportivo” assentava num objeto relativamente estável: um evento televisionado, com publicidade inserida em intervalos identificáveis ou em formatos típicos. O modelo da LiveModeTV rompe com essa separação: os apelos comerciais, a relação com a plataforma e a linguagem dos intervenientes acompanham todo o jogo. É um modelo perfeitamente coerente do ponto de vista do produto digital, mas que não deixa de colocar questões novas que merecem atenção.O Mundial é, em Portugal e no resto do mundo, um dos poucos eventos capazes de reunir audiências massivas e transversais. Do lado das audiências, a proposta da LiveModeTV consiste em facilitar o acesso livre a jogos que de outro modo exigiriam subscrição paga. Do lado dos “produtores” e distribuidores do jogo, a questão é a seguinte: se um modelo gratuito, financiado por publicidade digital e operado através de plataformas globais, captar melhor as audiências do que a televisão paga, a FIFA pode ter motivos para repetir e aprofundar esta fragmentação em eventos futuros. O valor dos pacotes televisivos tradicionais dependerá cada vez menos da exclusividade formal e cada vez mais da capacidade de transformar jogos em ambientes digitais de atenção contínua, promovidos pela tecnologia.Seja como for, a forma como vemos os jogos de futebol está a mudar e a LiveModeTV é um dos agentes visíveis dessa mudança. O processo ditará o aparecimento de novas audiências, formatos e, provavelmente, equilíbrios económicos. Não haverá jogos grátis.
Receba um alerta sempre que Pedro Lomba publique um novo artigo.
Seguir










