CIÊNCIA

Jude, Kane e a noite em que um Puma deu luta a Três Leões

Tinham deixado a ideia de que o futebol poderia mesmo voltar a casa, antes de soluçarem diante do Gana, de Carlos Queiroz. Inglaterra entrava para o último jogo do grupo L já apurado, mas queria mais. Os comandados de Thomas Tuchel tinham o Panamá entre si e o primeiro lugar. E que melhor adversário para apontar a esse objetivo do que os panamenhos, que ainda não tinham somado qualquer ponto na fase de grupos? Esse, no entanto, poderia ser um fator que ajudava os underdogs: não tinham nada a perder. Mas os Três Leões também não, uma vez que já estavam garantidamente na fase a eliminar do Mundial-2026. Perspetivava-se, por isso, uma partida descomplexada e atrativa.
Thomas Tuchel não escondia a preocupação com o adversário. “É um jogo difícil, difícil de desmontar. Não concedem muitas oportunidades”, disse na conferência de imprensa de véspera, recordando que o Gana tinha esperado até ao período de compensação para vencer o Panamá por 1-0. Do outro lado, Christiansen chegou com sabor agridoce: o Panamá estava matematicamente eliminado antes de jogar. “É uma pena, porque desta forma saímos antes deste jogo. E isso retira-nos a emoção”, admitiu. Ainda assim, quis terminar em alta – no treino de véspera, Waterman e Puma Rodríguez, ex-Famalicão, tinham entrado em confronto físico, e o técnico hispano-dinamarquês recusou ver nisso um problema: “Significa que a equipa está viva, que quer lutar. É uma boa forma de terminar um Mundial, se correr bem”.No MetLife Stadium, a partida começava de acordo com as projeções. A Inglaterra dominava o Panamá, mas, como Tuchel tinha alertado, não havia grandes oportunidades. Os centro-americanos mostravam conforto em dar a iniciativa aos ingleses, que, nos primeiros 20 minutos, não deram grandes desconfortos aos adversários. O domínio europeu era consentido, com os panamenhos a apostar na saída rápida em transição defesa-ataque. O fôlego na resposta em contra-ataque era curto. Los Canaleros traziam poucas unidades para a frente, talvez no receio de serem apanhados em contrapé, priorizando sempre a proteção à sua baliza. Por isso, os britânicos também nunca conseguiram ter muitos momentos de perigo junto da baliza de Mosquera.Depois da pausa para hidratação, o jogo trouxe, desde logo, uma oportunidade. Era o Panamá que se chegava à frente, com Puma Rodríguez a visar Jordan Pickford. Esse remate aos 25′ saiu forte, mas o guardião do Everton mostrou-se seguro. Não foi por pouco que a bola não entrou. Foi um dos poucos momentos de relativo interesse em Nova Jérsia, na primeira parte. O contexto da partida sugeria a libertação total dos dois conjuntos e, por conseguinte, mais oportunidades do que as que se viram nos primeiros 45 minutos do duelo. As equipas seguiram para os balneários sem grande história para contar, além daquele remate de Puma, mais tarde de um cabeceamento de Rashford fora do alvo, aos 37′ e um livre direto que também o falhou aos 46′. Com o golo da Croácia diante do Gana, o segundo lugar dos ingleses no grupo L condizia com o seu jogo em Nova Jérsia.

Panama 0-0 England (Half-Time)
England have had a lot of the ball in New Jersey, but so far not done much with it at all.
Croatia lead Ghana 1-0 in the other match in Group L, meaning England sit in second place with 45 minutes of action left. pic.twitter.com/I7om7J5KhO
— Opta Analyst (@OptaAnalyst) June 27, 2026A segunda parte trazia a esperança de que os primeiros 45 minutos foram apenas uma sombra do que viria a acontecer no segundo tempo e de que as palavras de Tuchel se aplicavam apenas à primeira metade da partida. Mas o espaço para oportunidades flagrantes continuava tão curto que a grande oportunidade do jogo surgiu num lance em que o Panamá quase marcou um autogolo: José Cordoba aliviou contra um colega de equipa, depois de (mais) um cruzamento da seleção inglesa, e a bola acabou por sair pouco por cima da trave da baliza panamenha. Na resposta, Puma Rodríguez, o mais ameaçador dos centro-americanos, deixou o aviso de que, se a Inglaterra não marcasse, corria sérios riscos não de empatar, mas de perder. O ex-Famalicão arrancou em condução pela esquerda e atirou em arco à baliza de Pickford. A bola não arqueou o suficiente para entrar, mas o suficiente para assustar a seleção dos Três Leões.Pouco a pouco, o jogo ganhava o ritmo que nunca tinha tido. Havia mais esclarecimento, mais espaço e melhores oportunidades, como a de Harry Kane aos 57′. Depois de um passe em desmarcação, o avançado do Bayern Munique não perdeu muito tempo e não quis galgar mais metros. Atirou forte para uma defesa vistosa de Mosquera. A melhoria no jogo não demorou muito a refletir-se no resultado, embora através de um golo de bola parada. Aos 62′, um canto batido por Bukayo Saka encontrou Jude Bellingham, que, no meio de uma confusão na grande área, precisou apenas da ponta do seu pé esquerdo para adiantar os ingleses. O jogo conhecia, por fim, os golos – no plural, porque cerca de cinco minutos depois, surgiu o segundo. Harry Kane aproveitou uma jogada de Bellingham pela esquerda, para responder com sucesso de cabeça a um cruzamento do médio do Real. Foi para a história: Kane tornou-se o melhor marcador de Inglaterra em Mundiais, com 11 golos apontados, mais um do que Gary Lineker.
Foram cerca de 20 minutos mais intensos e com espaço – mais do que suficiente para a Inglaterra fazer o que precisava. Ainda viu a bola entrar na sua baliza na reta final, mas o lance seria invalidado imediatamente a seguir. A partida não foi a mais atrativa durante os 90 minutos, mas a segunda parte trouxe o entretenimento que o contexto do jogo sugeria.

Marcou o primeiro e assistiu para o segundo. Jude Bellingham continua a revelar a sua capacidade camaleónica em campo, principalmente no que toca ao capítulo ofensivo. Fez de ponta de lança aos 62′ e ficou diretamente ligado ao momento histórico de Harry Kane – que se tornou o melhor marcador da Inglaterra em Mundiais –, depois de um cruzamento bem tirado aos 67′.

Harry Kane confirmou uma história que há muito se adivinhava. Gary Lineker já tinha dito que o seu sucessor, no recorde de golos marcados na prova, era o melhor avançado da história de Inglaterra. Agora são mesmo os números – o que fica sempre para a história – que o sugerem.

Com este resultado, a Inglaterra segue para a próxima fase em primeiro lugar do grupo L, com sete pontos, mais um do que a Croácia, que passa em segundo depois de vencer também na última jornada. O Gana, que também se apurou, termina no terceiro posto, com quatro pontos.

Inglaterra ganhou, sim. O jogo melhorou, também. Mas o contexto que o jogo transportava sugeria 90 minutos mais atrativos e não dos 45 minutos mais cinzentos desde que a fase final da prova arrancou. Não só isso, mas como o começo fulgurante de Inglaterra neste Mundial, diante da Croácia. O Gana travou os ingleses, que tiveram, em alguns momentos, a sensação de déjà vu frente aos panamenhos, mas a falta de soluções de Inglaterra diante de blocos mais baixos pode trazer alguns dissabores a Tuchel para o que se segue na competição.

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