CIÊNCIA

Rock in Rio: entre a "Classe de 79" e a aula de Cyndi Lauper


Quando temos o vocalista em palco, temos um frontman por excelência à nossa frente, pela presença, pelo humor sardónico, por tudo aquilo que diz: ou tem graça, ou tem significância ou faz-nos sentir mal por não entendermos a graça e/ou significância do que disse. É um tipo de carisma especial, mas que de pouco lhe valeria se não o aplicasse em bombons de composição musical como Vídeo Maria, Sub-16 ou Efectivamente.
Além de contarem com um som bastante melhor, os GNR apresentaram-se também — tal como nos concertos dos 45 anos em 2025 — com a sua versão modernizada. Além dos elementos de longa data — onde se destaca o alquimista que é Tóli César Machado —, a banda conta com Ben Monteiro (principalmente conhecido como metade da dupla D’Alva) nos teclados e guitarra, injetando algum sangue novo com atitude punk. Cada vez mais enturmado, Ben tanto foi alvo de troça — disseram-lhe que não tinha rapado os sovacos — como carinho da banda. “Queria dar um presente especial ao nosso mais novo, o nosso tubarão azul”, afirmou Reininho, referindo-se ao facto de o músico ter ascendência cabo-verdiana, dando-lhe um chapéu alusivo a esse país.Também eles em regime de “greatest hits”, há todavia que destacar o impacto que Pronúncia do Norte continua a ter, mesmo sem a voz de Isabel Silvestre presente, vendo-se pessoas em lágrimas a passar nos ecrãs. Ou a sequência rockada de Morte ao Sol, que contou com o público continuar a cantarolar o refrão espontaneamente após o fim da canção. Ou a forma como pegaram em Quero que vá tudo pro inferno de Roberto Carlos e tornaram-no também um tema seu, que causa sempre delírio quando é tocado. O apogeu foi atingido, sem surpresas, com Sangue Oculto. “Até daqui a 20 anos”, brincou Reininho, antes dos GNR terminarem com aquela que é das mais canónicas canções da cultura nacional, Dunas, que vale sempre a pena ouvir tocada pelos autores e não por quem está a aprender a tocar guitarra.Seria difícil ultrapassar o que os GNR fizeram, mas na verdade apenas uma banda conseguiria fazê-lo, os Xutos & Pontapés, que conseguiram, ao longo de um vastíssimo percurso, transformar as canções que gravaram em património nacional, como muito poucos além deles souberam concretizar. Pense-se em como toda a gente sabe a letra de pelo menos uma das suas canções, ou como a sua versão de A Minha Casinha tornou-se num hino não-oficial em 2016, pela seleção nacional de futebol estar a jogar num país com tanta emigração portuguesa. Ou como foram a primeira banda rock portuguesa a receber condecorações da Presidência da República. Ou até mesmo como a morte de Zé Pedro foi encarada como uma tragédia nacional, com um funeral que, não sendo de Estado, foi tratado como tal. O conceito de uma psique nacional é tão confuso quanto nebuloso, mas se de facto existir, então é a banda lisboeta que tem ligação direta a essa forma de estar portuguesa; cada concerto que dão é uma catarse descomplicada e multigeracional.Xutos e Pontapés: “O Zé Pedro era até ao fim. Ficava zangado, deixava de nos falar, dizia: mas eu sou algum inválido?!”
Ao caminhar para o palco, já se ouviam pessoas a berrar as letras de mais do que uma das suas canções com toda a convicção, e foi difícil lá chegar porque ocorreu uma verdadeira enchente. Mesmo que assumamos que os Xutos & Pontapés, nos últimos 20 anos, decaíram bastante no que toca à qualidade do material lançado, foram tantos os hinos concebidos até então que qualquer espetáculo com menos de duas horas vai deixar temas incontornáveis de fora. Foi esse o caso, não tendo havido Chuva Dissolvente, Para Sempre, Homem do Leme ou Ai Se Ele Cai esta noite. Ao invés, tendo esta atuação feito parte da digressão de celebração de Direito ao Deserto — o sexto álbum, de 1993 — tivemos direito a agradáveis surpresas, como a faixa título, de ritmo quase funk e letra ácida, ou a blueszada de Deitar a Perder, sacada de XIII, com João Cabeleira a fazer o que melhor sabe, meter a guitarra a chorar.

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