Rossi, a "Vergonha de Gijón" e um apito das bancadas
▲Paolo Rossi terminou a prova com seis golos, tornando-se no melhor marcador da edição de 1982 do Campeonato do Mundo
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Foi o Mundial da contradição. Espanha recebeu em 1982 uma das mais ricas gerações de talentos da história do futebol – Zico, Sócrates, Platini, Maradona, Rummenigge, Matthaus – e viu a Itália, que não tinha vencido um único jogo na primeira fase de grupos, sagrar-se campeã do mundo pela terceira vez. O torneio foi também o primeiro com 24 seleções, e o último a usar duas fases de grupos antes das meias-finais.
A primeira fase trouxe surpresas imediatas. A Argélia, estreante, bateu a Alemanha Ocidental por 2-1 — a primeira vitória de uma seleção africana sobre uma europeia num Mundial. A Hungria goleou El Salvador por 10-1 – a maior vitória de sempre na fase final de um Mundial. A Irlanda do Norte eliminou os anfitriões espanhóis do primeiro lugar do grupo. E a Itália passou à segunda fase sem vencer um jogo, graças apenas a um golo a mais do que Camarões – que também não perdeu nenhum encontro. O técnico Enzo Bearzot proibiu os seus jogadores de darem entrevistas e de lerem jornais, instituindo um Silenzio Stampa – uma espécie de silêncio mediático total, um blackout – para isolar o grupo das críticas da imprensa italiana, o que se tornaria prática corrente nos anos seguintes.
???? The final score was 10-1?#OTD in 1982, Hungary set the record for the highest score in a #FIFAWorldCup match! ????????⚽️ pic.twitter.com/6uisTOaRRM
— FIFA World Cup (@FIFAWorldCup) June 15, 2024A segunda fase começou com o momento mais polémico da competição. No Estádio El Molinón, em Gijón, a Alemanha Ocidental e a Áustria entraram em campo a 25 de junho sabendo exatamente o que precisavam: uma vitória alemã por margem mínima classificava ambas e eliminava a Argélia. Hrubesch marcou ao minuto 10 – e durante os 80 minutos seguintes as duas seleções limitaram-se a circular a bola sem qualquer intenção de ataque. Mas foi nessa mesma segunda fase que se jogou o encontro mais marcante do torneio: no Sarriá, em Barcelona, o Brasil de Zico e Sócrates entrou a precisar apenas de um empate frente à Itália para chegar às meias-finais, com o favoritismo todo do seu lado. Paolo Rossi fez os três golos da vitória dos italianos diante do Brasil por 3-2.
???????? Paolo Rossi had his shooting boots on this day in 1982! ⚽️⚽️⚽️#FIFAWorldCup | #OTD pic.twitter.com/rttRfsJBPa
— FIFA World Cup (@FIFAWorldCup) July 5, 2024Nas meias-finais, a Itália bateu a Polónia com mais dois golos de Rossi. Do outro lado, a Alemanha Ocidental eliminou a França numa meia-final que ficou para a história por razões que foram além do futebol. Aos 57 minutos, o guarda-redes alemão Harald Schumacher saiu em velocidade da baliza e embateu violentamente com o francês Patrick Battiston, que ficou inconsciente no relvado com dois dentes partidos e uma lesão cervical. O árbitro não assinalou falta, não expulsou Schumacher – não mostrou sequer um cartão amarelo – e o jogo continuou. A França acabou por ser eliminada nas grandes penalidades por 5-4, num encontro que terminou 3-3 após prolongamento e que ficou marcado como o primeiro da história dos Mundiais a ser decidido desta forma. Na final do Bernabéu, a 11 de julho, a Itália venceu por 3-1 com golos de Rossi, Tardelli e Altobelli, confirmando uma das redenções mais improváveis da história dos Mundiais.
A Argélia estreou-se num Mundial em 1982 com uma vitória sobre a Alemanha Ocidental por 2-1 – a primeira de uma seleção africana sobre uma europeia na história da competição. Terminou a primeira fase com quatro pontos, convicta de que estava apurada. Não estava. No jogo seguinte entre a Alemanha e a Áustria, os dois países de língua alemã entraram em campo sabendo exatamente o que precisavam: uma vitória alemã por margem mínima classificava ambas e eliminava os argelinos. Hrubesch marcou ao minuto 10 – e nos 80 minutos seguintes, as duas seleções limitaram-se a circular a bola sem qualquer intenção de ataque. As bancadas vaiaram, adeptos argelinos mostraram dinheiro em protesto, um adepto alemão queimou a própria bandeira. O episódio ficou conhecido como a “Vergonha de Gijón” – e levou a FIFA a introduzir, a partir de 1986, os jogos simultâneos na última jornada da fase de grupos, uma regra que se mantém até hoje.
Paolo Rossi chegou ao Mundial de 1982 acabado de cumprir uma suspensão de dois anos por envolvimento num escândalo de apostas – o caso Totonero, em que vários jogadores italianos foram acusados de manipular resultados para beneficiar redes de apostas ilegais – e sem ter jogado futebol de alto nível desde então. Passou a primeira fase sem marcar um golo. Depois, fez um hat-trick ao Brasil no jogo que ficou para a história, bisou na meia-final com a Polónia e marcou o primeiro golo na final frente à Alemanha Ocidental. Terminou como melhor marcador e melhor jogador do torneio. “O meu primeiro golo nesse jogo, de cabeça, foi o momento fundamental de toda a minha carreira”, diria mais tarde, numa entrevista ao Maisfutebol. Abriu-lhe “a porta do céu”, acrescentou.
A 21 de junho de 1982, em Valladolid, França e Kuwait disputavam um jogo da fase de grupos que parecia não ter história. A França vencia por 3-1 quando Alain Giresse marcou o quarto golo — ou assim pareceu. Os jogadores do Kuwait pararam de jogar alegando ter ouvido um apito vindo das bancadas. O que se seguiu não tem paralelo na história dos Mundiais: Sheikh Fahad Al-Ahmad Al-Jaber Al-Sabah, irmão do Emir do Kuwait e presidente da federação, desceu das bancadas, entrou no relvado e confrontou o árbitro soviético Miroslav Stupar, ameaçando retirar a equipa do jogo se o golo não fosse anulado. O árbitro cedeu. O golo foi anulado. A França acabou por marcar de novo e vencer por 4-1, mas o precedente estava aberto: Stupar foi banido de árbitrar jogos internacionais pela FIFA. O Kuwait nunca mais regressou a um Campeonato do Mundo.
The Day a Sheikh Overruled a Referee. ????????????
During France vs. Kuwait (WC 1982), one of the most bizarre moments in football history took place:
???? The Whistle: Kuwaiti players stopped mid-play after hearing a whistle from the stands. ???? The Goal: France capitalized and scored.… pic.twitter.com/gpWp1OpcKP
— MD Sabzar Hossain | ETHGas ⛽ (@MdSabzar93213) May 19, 2026
13 de junho (fase de grupos): Argentina-Bélgica, 0-1; Itália-Polónia, 0-0; Peru-Camarões, 0-0 e Hungria-El Salvador, 10-1
14 de junho (fase de grupos): Alemanha Ocidental-Argélia, 1-2; Chile-Áustria, 0-1 e Espanha-Honduras, 1-1
15 de junho (fase de grupos): Brasil-União Soviética, 2-1 e Escócia-Nova Zelândia, 5-2
16 de junho (fase de grupos): França-Inglaterra, 1-3 e Checoslováquia-Kuwait, 1-1
17 de junho (fase de grupos): Itália-Peru, 1-1; Polónia-Camarões, 0-0; Jugoslávia-Irlanda do Norte, 0-0 e Argentina-Hungria, 4-1
18 de junho (fase de grupos): Alemanha Ocidental-Chile, 4-1 e Áustria-Argélia, 2-0
19 de junho (fase de grupos): Brasil-Escócia, 4-1 e União Soviética-Nova Zelândia, 3-0
20 de junho (fase de grupos): França-Checoslováquia, 1-1; Inglaterra-Kuwait, 1-0 e Espanha-Jugoslávia, 2-1
21 de junho (fase de grupos): Honduras-Irlanda do Norte, 1-1 e Argentina-El Salvador, 2-0
22 de junho (fase de grupos): Itália-Camarões, 1-1; Polónia-Peru, 5-1 e Bélgica-El Salvador, 1-0
23 de junho (fase de grupos): Brasil-Nova Zelândia, 4-0 e União Soviética-Escócia, 2-2
24 de junho (fase de grupos): França-Kuwait, 4-1 e Inglaterra-Checoslováquia, 2-0
25 de junho (fase de grupos): Alemanha Ocidental-Áustria, 1-0; Espanha-Irlanda do Norte, 0-1; Argélia-Chile, 3-2 e Honduras-Jugoslávia, 0-1
28 de junho (segunda fase de grupos): Polónia-Bélgica, 3-0; Alemanha Ocidental-Inglaterra, 0-0 e Itália-Argentina, 2-1
29 de junho (segunda fase de grupos): França-Áustria, 1-0 e Alemanha Ocidental-Espanha, 2-1
1 de julho (segunda fase de grupos): Polónia-União Soviética, 0-0 e França-Irlanda do Norte, 4-1
2 de julho (segunda fase de grupos): Itália-Brasil, 3-2 e Inglaterra-Espanha, 0-0
4 de julho (meias-finais): Itália-Polónia, 2-0
8 de julho (meias-finais): Alemanha Ocidental-França, 3-3 a.p. (5-4 g.p.)
10 de julho (3.º e 4.º lugar): Polónia-França, 3-2
11 de julho (final): Itália-Alemanha Ocidental, 3-1









