CIÊNCIA

Em Seattle valeram o orgulho egípcio e o ainda sonho do Irão

O Egito-Irão começou muito antes de Szymon Marciniak apitar para o início do jogo. No mesmo dia em que Seattle celebrava a sua Pride Parade (Marcha do Orgulho Gay), dois países com legislação que criminaliza a homossexualidade jogavam futebol nas suas ruas. A cidade tinha designado aquele jogo como “Pride Match” muito antes de saber quem ia jogar. O sorteio tratou do resto e os resultados determinavam que o Egito entrava em campo já apurado, independentemente do resultado. Os africanos acabariam por ser ultrapassados pela Bélgica e passariam a jogar por orgulho, tendo em conta que ficariam sempre como uma das melhores seleções a terminar em terceiro lugar na fase de grupos.
Dentro do relvado, o jogo tratou de criar uma tensão própria que fazia esquecer toda a polémica fora do Lumen Field. O Egito adiantou-se logo aos 5′, num golo que nasceu da confusão dentro da área iraniana — o tipo de lance que se resolve mais pelo caos do que pela qualidade. O Irão respondeu com um penálti aos 10′, mas o capitão Mehdi Taremi, que trouxe para si a responsabilidade de empatar o jogo, atirou para a defesa de Mostafa Shobeir. Quatro minutos depois, Ramin Rezaeian empatou e repôs a igualdade, num lance de insistência. A partir daí, o jogo foi esfriando à medida que o intervalo se aproximava — como se ambas as equipas precisassem de respirar antes de decidirem o que queriam ser naquela noite.A segunda parte começou com o Egito a tentar resolver o assunto de imediato. Logo aos 47′, Salah encontrou Trezeguet na pequena área, mas Hardani — o guarda-redes que tinha entrado ao intervalo em substituição de Beiranvand — respondeu com uma defesa providencial. A ameaça do Egito era real, mas o ritmo da partida não acompanhava a urgência dos resultados paralelos: a Bélgica chegou ao segundo e depois ao terceiro golo em Vancouver, o que roubava ao Egito a liderança do grupo e mudava as contas da fase seguinte. Aos 57′, Hossam Hassan decidiu poupar Salah para o mata-mata — decisão que dizia tudo sobre o que estava verdadeiramente em jogo naquela noite.O Irão tentou aproveitar o espaço deixado pelas substituições egípcias, que sugeriam um recuo no terreno. Aos 75′, após uma má saída do guarda-redes Shobeir, os iranianos chegaram à área com perigo, mas sem conseguir rematar com eficácia. O jogo ia perdendo fio à medida que os erros de passe se multiplicavam de ambos os lados e a pausa técnica de hidratação aos 68′ pouco fez para relançar a intensidade. Marmoush, que tinha entrado ao intervalo, foi o elemento mais incisivo do Egito na segunda parte — aos 67′ infiltrou-se no meio de três defensores e chegou perto da área, mas o remate acabou saído pela linha de fundo. Aos 83′, Marwan Attia ainda tentou de fora da área, mas sem sucesso.
Para o fim, estava guardado o melhor. Um final dramático era o que se desenhava em Seattle. Aos 90+4′, surgiu um pontapé com a vontade de quem quer dar um golpe de teatro num palco onde a contracena procurou quase sempre mais ser a protagonista. O Egito queria terminar o grupo G em primeiro lugar, mas nunca conseguiu materializar o seu domínio no regresso à vantagem. Como o tempo, a crença do Irão cresceu. Cresceu ao ponto de Shojae Khalilzadeh fazer a bola entrar na baliza de Mostafa Shobeir e gelar toda a gente no Lumen Field, fora os que torciam pelo Irão, que saltaram de alegria com o apuramento direto. Quando a bola já se encontrava no centro do relvado e tudo parecia sorrir aos iranianos, a videoarbitragem detetou uma posição irregular no lance do golo. Voltou tudo ao cenário anterior e a festa iraniana tornava-se na festa do Egito.
???????? Egypt 1-1 Iran ????????
Egypt finish second in Group G, while Iran wait to see if they emerge as one of the top third-place finishers after having a stoppage-time goal pulled back that would have secured their spot. pic.twitter.com/uCOjivXIwJ
— Opta Analyst (@OptaAnalyst) June 27, 2026
Relançou o Irão na partida e, simultaneamente, na corrida à próxima fase, pela qual os persas ainda sonham. Ramin Rezaeian tinha marcado e assistido diante da Nova Zelândia. Depois de um início mais forte do Egito e atribulado para o Irão, que viu Taremi falhar uma grande penalidade, o veterano de 36 anos voltou a ser a esperança dos iranianos e aos 14′ restabeleceu uma igualdade que nunca mais se alterou. No final do jogo, estava em lágrimas. Aquelas de quem sonha com o apuramento com o receio de não o conseguir: ao arranque para os últimos jogos da terceira jornada da fase de grupos, o Irão é o sexto melhor terceiro classificado e terá de terminar nos oito melhores para conseguir passar à fase a eliminar, com algumas equipas ainda por jogar.

O VAR foi decisivo na partida. Se antes o golo do Irão seria validado, como foi na sequência do golo, agora a irregularidade detetada determinou que o Egito encontra a Austrália na próxima fase. Este emparelhamento só é possível porque a tecnologia tratou de esclarecer um lance irregular e, sendo a Austrália um adversário teoricamente mais acessível, a videoarbitragem terá dedo na campanha egípcia ou australiana. Uma destas seleções, que têm encontro marcado nos 16 avos, garante presença nas 16 melhores equipas da prova, contrariando o seu próprio ranking FIFA: a Austrália está no 27.º lugar e o Egito no 29.º.

Com os resultados finais do grupo G, a Nova Zelândia está fora do Mundial, depois de fazer apenas um ponto, enquanto o Irão ainda sonha com o apuramento, com três. A Bélgica passou em primeiro lugar, com cinco pontos, os mesmos que o Egito, que passou em segundo, mas com menor diferença entre golos marcados e sofridos.

Quem esperava que o jogo de cartaz da madrugada (Uruguai-Espanha) fosse o melhor enganou-se. As duas deram espetáculo dentro das quatro linhas e o Irão, uma vez mais, esteve numa partida em que o contexto polémico que antecipava o jogo ameaçava engolir o futebol que dali sairia. Isso não aconteceu.

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