CIÊNCIA

As nossas casas de luxo que atraem os milionários dos EUA

Casas ou apartamentos com pelo menos quatro quartos, áreas amplas e dentro de empreendimentos com serviços, como concierge, e amenities, como piscina e ginásio, incluídas. Ar condicionado é obrigatório, assim como máquina de lavar e secar roupa numa área separada da cozinha. De preferência pronto a habitar, com carpintarias de alta qualidade, boas pedras e eletrodomésticos de marcas de alto padrão — se tiver frigorífico e congelador side by side melhor. Não é uma exigência, mas elementos históricos como azulejos, tetos altos, que denunciam o “charme” português, valem pontos extra. Tudo isso com uma vista mar (ou rio) em localizações que vão de Lisboa ao Estoril ou Cascais — mas que podem estender-se até ao Algarve, a Comporta, o Porto ou a Madeira. Por um imóvel nestas condições, podem gastar até 20 mil euros por metro quadrado, em casas que começam nos 2 milhões e vão aos 30 milhões, com uma média a rondar os 6 milhões de euros.
Características e preços que o Observador viu ao vivo em várias casas que visitou para esta reportagem, listadas por preços que variam entre três e sete milhões de euros. De penthouses com vista mar às casas com piscina a poucos metros de campos de golfe, as propriedades milionárias à venda em Lisboa e arredores também têm vista para os estendais dos vizinhos, estão decoradas com móveis do IKEA ou dão para ruas em que é um desafio estacionar. O que denuncia que, até no mercado imobiliário de luxo, é preciso fazer concessões — ou então paga-se mais pelo imóvel dos sonhos.De acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), os compradores norte-americanos gastam em média 479 mil euros ao adquirir um imóvel, mais do que o dobro do que um comprador com domicílio fiscal em Portugal. Os dados da Portugal Sotheby’s International Realty revelam que desde 2021 os norte-americanos lideram o ranking de compradores de nacionalidade estrangeira no segmento de luxo. “Em 2025, os compradores internacionais representaram 44% das nossas transações e, dentro desse universo, os compradores norte-americanos estiveram entre as principais origens de procura, juntamente com o Reino Unido, o Brasil e vários mercados europeus”, explica Miguel Poisson, CEO da Sotheby’s em Portugal. “Este comprador chegou inicialmente muito associado a Lisboa, Cascais, Estoril e Algarve, mas hoje olha para Portugal de forma mais abrangente. Há interesse crescente por zonas como a Comporta, Melides, o Porto, a Madeira e outras geografias onde a exclusividade, a privacidade e a qualidade de vida têm um peso muito relevante na decisão.”
Vêm à procura de uma segurança que “o dinheiro não compra”, um custo de vida muito mais atrativo e uma recetividade que não se encontra em outros países europeus. Estes são os três maiores atrativos de Portugal de acordo com os profissionais do mercado imobiliário ouvidos pelo Observador, e que trabalham diretamente com clientes norte-americanos. “Temos muitos clientes que estão literalmente a fugir dos países onde vivem por razões de segurança“, refere Frederico Abecassis, CEO da Coldwell Banker Portugal, agência fundada há mais de 100 anos em São Francisco, na Califórnia. O mesmo aponta Hugo Santos Ferreira, CEO do braço português da Corcoran Atlantic, marca criada por Barbara Corcoran em Nova Iorque em 1970. “É um dos países mais seguros do mundo pelo Global Peace Index”, assinala, destacando ainda a estabilidade política. “Portugal já não é um plano B. Muitos consideram o país como plano A, mesmo para viver”.“A grande mudança é esta: durante muitos anos, Portugal foi visto, sobretudo, como um bom destino para férias ou investimento. Hoje, para muitos norte-americanos, Portugal é cada vez mais um destino para viver”, considera também Miguel Poisson, que compara o país a outros destinos imobiliários de luxo, como Miami, Nova Iorque, Londres, Paris ou Dubai. “Naturalmente, fatores políticos, fiscais, cambiais ou económicos podem acelerar ou adiar algumas decisões, mas o movimento de fundo parece-nos estrutural. O comprador norte-americano encontrou em Portugal uma proposta de vida que responde a várias das suas prioridades: segurança, qualidade, estabilidade, lifestyle e potencial de valorização a médio e longo prazo.”Mas quem são estes norte-americanos? Há um pouco de tudo. Frederico Abecassis identifica dois perfis principais, sendo o primeiro deles as famílias que vêm para viver, e usufruir das escolas internacionais, por exemplo; e um perfil mais sénior, em busca de uma reforma com melhor qualidade de vida. Mesmo assim, são sempre clientes que trabalham remotamente ou viajam frequentemente para os EUA. Já Hugo Santos Ferreira destaca ainda os jovens entre os 25 e os 30 anos, que podem trabalhar de forma remota; e ainda empresários com uma vida profissional ativa, entre os 65 e os 70 anos. Na Sotheby’s também se observam estes perfis: das famílias ou empresários com vidas profissionais flexíveis que escolhem Portugal para uma nova vida; aos compradores que escolhem uma segunda casa de férias e passam a vir com bastante frequência; e ainda os investidores, que são aconselhados por family offices e olham para o imobiliário de luxo como uma forma de preservar e diversificar ativos.A contribuir para este encantamento por Portugal, os especialistas apontam também a forma como os estrangeiros são recebidos em solo nacional. “80% dos portugueses falam inglês ou conseguem expressar-se em inglês”, diz o CEO da Coldwell Banker Portugal. “Nós fazemos um esforço muito grande para falar línguas estrangeiras, para receber bem os estrangeiros”, destaca o responsável pela Corcoran Atlantic.
Foi o que sentiu Erin Charlotte quando veio para Portugal pela primeira vez, numa viagem ao Porto para celebrar o aniversário. “Fui muito bem recebida, senti-me em casa. Acho que em outros países podemos ter uma barreira entre os norte-americanos e os europeus, o que faz sentido. Mas não foi o caso”, diz a norte-americana do Minnesota, que na altura estava a tirar um mestrado em Genebra, na Suíça. “Quando fui para Lisboa lembro-me de sentar-me para ver o pôr do sol no rio e pensei comigo mesma: ‘vou mudar-me para cá‘”.

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