Rushdie no Porto: de Oz ao homem que o tentou matar
▲No festival Babell, o autor de 79 anos falou sobre a infância, a escrita e o ataque que sofreu eu 2022
MANUEL FERNANDO ARAÚJO/LUSA
Já com vinte minutos de conversa, o público ainda entrava para as galerias mais altas do Coliseu, provocando algum ruído. Alheio a isso, Rushdie discorria sobre o seu método de trabalho, demonstrando um profundo respeito pelo ofício da escrita. A propósito de William Shakespeare, destacou a “velocidade a que escrevia peças que as pessoas dariam todos os dentes para conseguir escrever”. Saberia o dramaturgo inglês o tamanho do seu talento?, questionou Manguel. “Acho que não se pode ser tão bom e não saber”, considerou. “Quando estamos no nosso quarto secreto, sabemos quando somos bons e quando não somos tão bons”, acredita. Até porque “se não sabes quando é bom, não sabes quando é mau.”
Ainda assim, o autor que tem sido apontado repetidamente como um dos favoritos ao Prémio Nobel da Literatura, fez questão de notar que esse autoconhecimento não se acumula como uma fórmula. Aliás, ao escrever um livro, aprende-se “quase nada” que sirva de experiência para o próximo, dado que cada obra é um desafio inteiramente novo. “Quando escrevemos um livro, o que aprendemos é como escrever aquele livro. Depois de sair das nossas mãos, já não nos pertence.” Criticou a tentação de rever o passado, exemplificando com um poema famoso cujo autor alterou o verso “temos de nos amar uns aos outros ou morrer” para “temos de nos amar uns aos outros e morrer”, classificando a mudança como “um comentário muito banal”. O seu conselho é claro: “resistir à tentação” de visitar obras já publicadas.Numa discurso bem-humorado, descreveu a sua relação com os tradutores. “Os tradutores apanham repetições como ninguém”, notou, recordando um episódio em que um tradutor dinamarquês lhe escreveu, “muito educadamente”, a apontar como em duas páginas de romances distintos uma personagem “completamente diferente” dizia “exatamente a mesma coisa”. Perguntava-lhe qual era a intenção. “Tive de fingir que fiz de propósito”, gracejou, arrancando gargalhadas à plateia.Nesses largos minutos dedicados ao ofício da escrita, Rushdie partilhou também como lida com os bloqueios criativos: “Estamos sempre a errar, ficamos emperrados, as engrenagens param e não conseguimos ver para a frente. O que aprendi é que o erro não é ali, é em algo que aconteceu antes. Um passo em falso, algures, que uma página depois ou 50 páginas depois emperra a história. É preciso ir atrás e encontrar. Descobrindo, tudo flui de novo.” E assumiu o seu desapego comercial: “A ideia de que ia vender milhões de exemplares nunca me passou pela cabeça.”Foi já perto do final da sessão que surgiu, inevitavelmente, o tema Os Versos Satânicos. Não o livro em si, mas o esfaqueamento de que Rushdie foi alvo em agosto de 2022, durante um evento na Chautauqua Institution, em Nova Iorque. O ataque, perpetrado pelo libano-americano Hadi Matar, resgatou uma perseguição antiga: a fatwa decretada a 14 de fevereiro de 1989 pelo então líder supremo do Irão, o ayatollah Khomeini, depois de ter interpretado a obra como uma blasfémia contra o Alcorão e Maomé. Na altura, a sentença de morte ordenava aos muçulmanos de todo o mundo a execução do escritor e oferecia uma recompensa de cerca de três milhões de dólares a quem a cumprisse. Três décadas depois, a ameaça radical materializava-se no ataque que quase lhe tirou a vida e lhe deixou lesões profundas.










