Livre quer compensar "vontade distorcida" dos eleitores
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Começa agora o Explicador da Rádio Observador, esta manhã sobre o futuro do Livre, a poucos dias do congresso e depois de Rui Tavares anunciar a saída da liderança do partido. Para isso, é nossa convidada a porta-voz do Livre, Isabel Mendes Lopes.
Isabel Mendes Lopes, muito bom dia. Bem-vinda a este Explicador. Obrigado por ter aceitado o nosso convite. Rui Tavares diz que quer dedicar os próximos dois anos a preparar os próximos 10 ou 20 anos do partido. Isso significa que esta mudança na liderança do Livre é mais uma operação de cosmética do que propriamente uma mudança efetiva na liderança?
Muito bom dia. Não, o que acontece é que a liderança do Livre é uma liderança coletiva, como sempre foi. E eu percebo que por vezes seja difícil encaixar quando o tradicional é que os partidos sejam liderados apenas por uma pessoa e que o foco esteja muito nessa pessoa, mas a liderança do Livre tem sido sempre coletiva e é isso que irá continuar a ser. E, portanto, o Rui continua na liderança do Livre e, portanto, as notícias do abandono à liderança do Livre são pouco fidedignas nesse aspecto, porque o Rui continua na direção do partido se o Congresso do Livre assim o quiser, e é isso que está a ser discutido.
Então qual é o significado desta mudança? O que muda realmente na orientação do Livre, na liderança do Livre?
Na liderança do Livre, vamos ver. Vamos ter agora o congresso daqui a uma semana e meia, e o que está a ser discutido é exatamente qual é a equipa que deve continuar ou que deve estar à frente do Livre nos próximos dois anos. O que o Livre tem são dois porta-vozes que falam pelo partido. E é isso que o Rui Tavares e eu somos neste momento, durante este mandato que agora termina dos órgãos do Livre. E o que a equipa que nós integramos se propõe é que os novos porta-vozes sejam eu e o Jorge Pinto. Mas reforço esta questão da liderança coletiva.
Isabel Mendes Lopes, pedia-lhe que repetisse porque deixámos de a ouvir, estamos a ouvi-la com algumas interferências e esta parte final da sua intervenção não foi percetível.
O que eu estava a dizer é que o Livre se prepara agora para o seu congresso eletivo, para escolher a equipa que estará à frente do partido nos próximos dois anos. E que, como sempre, nos apresentamos de forma coletiva, uma equipa, para gerir o partido nos próximos dois anos, para garantir que o Livre se consolida, que ampliamos o Livre, que o Livre esteja cada vez mais incontornável e inclusive preparado para ser partido de governo. Isso faz-se com uma liderança coletiva, como tem sido sempre até aqui essa liderança coletiva.
Mas Isabel Mendes Lopes, esta saída de Rui Tavares potencial, vamos ver o que é que o Congresso diz dessa posição de coporta-voz, significa que terá menos protagonismo e Jorge Pinto, em contrapartida, terá mais protagonismo. Isso significa que o Livre quer, de facto, colocar um novo rosto ou novos rostos a representar o partido?
O Livre tem muitos rostos a representar o partido e a aposta é mesmo em termos cada vez mais pessoas que por esse país fora representam o Livre. E isso é algo que faz parte da nossa estratégia para nos tornarmos cada vez mais amplos enquanto partido e também com maior capacidade de governação, seja a nível local, seja a nível nacional. Um partido faz-se de muitas pessoas e de muitas caras, e tem sido sempre essa a prerrogativa do Livre, conseguir apostar nos seus quadros, conseguir apostar nas muitas e muitas pessoas que se juntaram ao Livre nos últimos anos, porque nós queremos efetivamente ser um partido que influencia a política a nível nacional. Queremos dar a volta a isto e garantir que Portugal caminha no sentido cada vez mais democrático, num país mais justo para todas as pessoas, e isso faz-se com muitas pessoas. E por isso é que é tão importante também a aposta nas pessoas que se juntaram ao Livre, nas pessoas que fazem parte do Livre já há muito tempo e em cada vez mais rostos. E é isso a que nos propomos agora nestes próximos dois anos, e é isso que levamos ao Congresso com esta equipa com que nos apresentamos.
Isso não significa de alguma forma desvalorizar um pouco o papel que mediaticamente, em termos políticos e em termos de captação de eleitores, pode ter um rosto ou dois rostos que marquem lideranças fortes. Nos outros partidos isso acontece, os partidos mantêm-se, mas muitas vezes são as lideranças que fazem a diferença. No caso do Livre, esse efeito não é pretendido?
Não, penso que os porta-vozes têm sempre um papel muito importante. Os porta-vozes são quem fala pelo partido. E por isso é que também é importante o Jorge Pinto ter avançado. Eu continuo como porta-voz do partido, se assim o Congresso assim o decidir. Mas a importância destas equipas partilhadas da liderança coletiva é algo que não pode nunca ser desvalorizado. E claro que o papel do porta-voz é muito importante e é por isso que queremos dar também continuidade ao trabalho que tem vindo a ser feito.
Isabel Mendes Lopes, como é que o Livre pretende alcançar este objetivo de ampliar A influência e também a implantação do partido. O partido continua a ser acusado de alguma forma de estar um pouco restringido aos grandes centros urbanos. Há um objetivo claro de afirmar o LIVRE também noutras áreas onde não tem tido resultados eleitorais mais significativos?
Nós temos, neste momento, membros em todo o país, temos autarcas eleitos em muitas autarquias, temos conseguido apresentar propostas não só a nível local, mas a nível nacional, que fazem a diferença, e o LIVRE tem sido reconhecido por essa forma de fazer política e é isso que queremos continuar a fazer. Como já fizemos, por exemplo, com a instituição do subsídio de desemprego para vítimas de violência doméstica ou com a criação do passe ferroviário nacional, ou como o programa 3C, Casa, Conforto e Clima, que é para renovar as casas, para fazer o isolamento térmico das casas, que este governo terminou, mas que é tão importante. Agora vamos entrar numa onda de calor em que as pessoas sofrem com demasiado calor dentro das suas próprias casas e isso muitas vezes é até uma questão de vida e morte. Esse será, por exemplo, um assunto que nós levaremos sempre para cima da mesa e que num governo de que o LIVRE faça parte, será sempre um assunto prioritário a questão da renovação das casas. E portanto, é através das propostas, de ser um partido de propostas, ser um partido que efetivamente quer ter a capacidade e estar nos lugares para governar, para mudar a vida das pessoas. E é através dessa vontade de propostas, de capacidade de influência, que o LIVRE vai crescendo e se vai consolidando. E é isso que nós temos visto. A quantidade de pessoas que se juntaram ao LIVRE, e esse é agora o desafio, e é isso também que é muito importante nós fazermos, é conseguirmos aproveitar esta massa crítica gigante de pessoas que se juntaram ao LIVRE e que querem trabalhar em prol do país. É exatamente isso que nós temos de fazer agora nos próximos dois anos e é isso que nos propomos e que levamos para este congresso.
Mas continuamos a ver, em termos eleitorais, uma grande simetria entre os resultados no interior do país e no litoral, nos grandes centros urbanos do LIVRE. É como se o LIVRE, no fundo, quase que fosse um espelho do próprio país que está tombado para o litoral. Os 10% que Rui Tavares traça como objetivo para umas eleições futuras serão conseguidos apenas nos grandes centros urbanos?
Eu lembro que nós temos um problema muito grave de representatividade democrática com os nossos círculos eleitorais. E por isso é que nós temos defendido tanto o círculo de compensação, porque o que acontece é que alguém do distrito de Portalegre, que na prática só elege dois deputados, essas pessoas sentem o seu voto condicionado, porque inevitavelmente sentem que o voto pode ser desperdiçado se votarem em partidos médios ou pequenos. E isso distorce, na verdade, a vontade que os eleitores têm em votar nos vários partidos que têm à sua disposição. E isso é um problema grave de igualdade democrática entre pessoas que moram em círculos eleitorais diferentes e que nós temos sistematicamente chamado a atenção.
Essa alteração dos círculos ou a criação de um círculo eleitoral de compensação será uma prioridade para o LIVRE?
Tem sido sempre uma prioridade para o LIVRE. Aliás, nós temos levado sistematicamente esta questão à Assembleia da República, mas a verdade é que por parte dos partidos maiores não tem havido a vontade de o discutir. Mas nós sabemos, nós quando vamos a Portalegre ou a Viseu ou a Bragança, ou mesmo a outros círculos, por exemplo, Coimbra, até, as pessoas dizem-nos: “Eu queria muito votar em vocês, mas tenho medo que o meu voto seja desperdiçado”. O que nós explicamos é que o voto nunca é desperdiçado. Um voto é sempre um mostrar da vontade e isso tem sempre uma consequência. Agora, percebemos que é muito frustrante sentir que o voto pode não servir para eleger. E portanto, nós temos que resolver esta desigualdade. E não é só pelo LIVRE, não é só pelos partidos médios. É porque nós, de facto, temos cidadãos do mesmo país que têm níveis de possibilidade de conseguir eleger deputados muito diferentes. E isso é uma desigualdade democrática que eu acho que é inadmissível. E é algo que nós continuaremos a insistir muito na Assembleia da República para que seja alterado, porque nos parece inadmissível que haja esta enorme desigualdade entre pessoas que moram em círculos eleitorais com mais pessoas que elegem mais deputados e, portanto, têm mais probabilidade de ver os seus representantes eleitos, de pessoas que moram em zonas com menor densidade populacional e que, na prática, têm muita dificuldade em ver os seus representantes eleitos. E isso não é admissível.
Isabel Mendes Lopes, temos assistido a uma governação com alianças pontuais, quer com o Chega, quer com o PS, dependendo dos temas. Esta forma como o governo e a AD têm interpretado esta possibilidade de fazer aprovar diplomas, de alguma forma tira protagonismo ao LIVRE e a partidos que têm outras propostas, mas que no fundo não ajudam a fazer maiorias?
O principal problema é que Luís Montenegro prometeu que não é não e depois, na prática, tem governado à boleia do Chega. E o pior nem sequer é com as suas próprias propostas, as propostas que vai apresentando, na prática, são propostas que vão na linha do Chega e nas bandeiras do Chega. Quando as primeiras propostas que apresenta são alterações à Lei da Nacionalidade e todo o discurso à volta da imigração, seja na saúde, seja na maneira como as coisas são apresentadas, é algo que é altamente preocupante e aqui muito mais do que o LIVRE ou os outros partidos, é a questão do país, porque está a se normalizar uma extrema-direita que, na prática, só quer destruir as instituições e ganhar o poder para seu proveito próprio, e isso nunca é de esquecer. Agora, de facto, o que o governo tem feito é não tem dialogado, e isso é bastante inacreditável num governo que é um governo de minoria, que devia respeitar muito o Parlamento, que devia respeitar muito todos os partidos que estão no Parlamento, principalmente os partidos democráticos, depois de se ter comprometido com o não é não. E não tem havido esse diálogo. E em propostas tão importantes como a Prestação Social Única, quer dizer, a proposta que o governo apresentou era absolutamente inacreditável na criminalização da pobreza. Felizmente, a proposta que saiu era bastante melhor, mas podia ser muito melhor, podia efetivamente ser uma arma de combate à pobreza. E não foi isso que saiu. Toda a discussão do código laboral foi completamente enviesada, muito arrogante. Nós devíamos, de facto, estar a falar da revisão do código laboral, mas não era no sentido em que o governo a apresentou. Nós, por exemplo, temos agora uma onda de calor e temos trabalhadores que vão trabalhar ao ar livre e têm de ser protegidos. Isso devia estar no nosso código laboral já. E o LIVRE apresentou várias iniciativas também nesse aspecto, mas a verdade é que não tem havido essa vontade de dialogar por parte do governo. Agora, o LIVRE nunca se demitirá de continuar a apresentar as suas iniciativas e de continuar dentro do Parlamento, mas também fora do Parlamento, enquanto partido, enquanto partido implantado localmente, de apresentar as suas propostas.
E Isabel Mendes Lopes já falou aqui nessa afirmação do LIVRE enquanto partido de governo. Isso significa necessariamente uma aliança no futuro com o PS, seja pré-eleitoral, seja em acordos pós-eleitorais?
Não vale a pena agora conjecturar sobre como é que as coisas vão ser em eleições que nem sequer estão marcadas. O que é importante é as pessoas perceberem que o caminho que está a ser seguido para o país não é inevitável, que há outros caminhos que o país pode seguir e que são caminhos que dão muito mais frutos e que dão frutos concretos para todas as pessoas, e que não é um caminho de aumento da desigualdade, como é o que este governo tem seguido, que é um caminho onde, de facto, o problema da habitação pode ser atacado e nós temos de conseguir descer o preço das casas, onde a revisão do código laboral é feita com foco nos trabalhadores e nas suas famílias, onde temos também o foco nos direitos das crianças e garantir que a infância é plena e feliz. Portanto, há aqui uma série de propostas de governo em que temos de trabalhar e o LIVRE está-se a preparar para isso e para ter as propostas para garantir que Portugal é um local melhor, é um sítio melhor. E isso faz-se com propostas, com pessoas preparadas, e é esse o nosso foco agora.
Muito bem, e cá estaremos também para ir dando conta disso, Isabel Mendes Lopes. Obrigado pela disponibilidade para estar conosco esta manhã. Bom dia.
Muito obrigada. Bom dia. Obrigada.








