CIÊNCIA

Quem manda na pronúncia: os dicionários ou os falantes?


Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
“Português Suave” na Rádio Observador. Hoje só com dúvidas, comigo João Costa e Silva e com quem as vai explicar, o Marco Neves, porque eu explicaria muito mal.
Não sei. Queres trocar?
Não. Ainda não é hoje.
Não quero dar uma dessa.
E o programa desceria tanto de qualidade.
Não, vais ver que vai ser interessante. Então hoje vamos falar de pronúncias. Na verdade, todas as dúvidas que temos hoje é sobre pronúncias.
Tudo relacionado.
E eu devo começar por avisar, primeiro, que houve, durante algum tempo, a ideia.
Quando já fazemos estes avisos iniciais.
É porque alguma coisa não. Mas o que eu quero dizer é: houve umas décadas na história do português em que, de facto, se acreditou, num grupo reduzido de pessoas no país, que era possível definir a forma correta de como as pessoas devem falar. Uma coisa é a escrita, em que, de facto, há um padrão e temos a ortografia e tudo isso pode ser definido de cima para baixo. A pronúncia é um outro bicho, muito diferente. É claro que podemos também encontrar pronúncias padrão, que são ensinadas, por exemplo, aos estrangeiros que aprendem português. É claro que é uma pronúncia típica da comunicação social, como já discutimos aqui, mas dizer que a forma como uma pessoa sempre aprendeu a dizer uma palavra está mal só porque não é a forma como a pessoa que está a acusar usava, é hoje considerado muito suspeito. E não é só hoje, atenção, não é, como as pessoas dizem às vezes, uma modernice. A pronúncia sempre foi muito livre em todas as épocas. Houve só um momento histórico em que, de repente, se acreditou que se podia arrumar a forma como as pessoas falavam. Mas isso era um erro. Era um erro, porque, na verdade, a variedade sempre foi a realidade da língua. Na oralidade. A escrita, mais uma vez, é outro mundo. Aqui estamos a falar da oralidade. E vamos então à primeira pergunta, que é da Inês Amorim, que nos diz o seguinte: sobre aquela questão da República, nós falamos disso no episódio anterior. Ela diz: “Estive a ouvir o vosso programa de dúvidas, muito interessante, como sempre, e fiquei um bocado baralhada com a história da República. A verdade é que a regra tem tantas exceções que nem sei bem se é regra. Depois eu tenho a palavra trepo ou trepa, do verbo trepar, trepa, diz-se trepa, se for trepo, diz-se trepo, se for um apelido de uma família, diz-se trepa. Como é que se explica isto? Mais uma dúvida para o Marco explicar. Até breve. Cumprimentos.” Olhe, Inês, aqui o que se passa é que estamos a falar de algo um pouco diferente. Ela tem razão numa coisa: a regra tem tantas exceções que não se sabe bem se é regra.
Nunca tinha pensado nisto, por acaso.
É o que acontece. Quando nós dizemos regra, no caso da oralidade, estamos a falar de regularidade, ou seja, uma coisa que é comum, que acontece muitas vezes, mas não quer dizer que seja uma regra como a regra do trânsito, que não se pode deixar, ou seja, que temos mesmo que cumprir. É simplesmente uma regularidade, algo que acontece com frequência, mas que pode ter sempre exceções e às vezes até são muitas as exceções. Neste caso, o que ela está aqui a referir, do verbo trepar, trepa. Aqui estamos a falar da sílaba tônica, ou seja, a sílaba mais forte, e é diferente. A tal regra é: a sílaba átona, a sílaba que não é principal, em geral, em português, tende a ter uma vogal mais fechada, em português de Portugal.
Quando há o acento, é mais fácil.
A questão é que nós não vamos pôr acento na sílaba tônica. A sílaba tônica não tem acento, com exceção do á e do ácel, que é um caso particular. Como a sílaba tônica não tem acento, então aí é mais difícil. Como a sílaba átona não tem acento gráfico, em geral, é mais difícil de assinalar as exceções. No caso, a sílaba tônica pode ter acento, nalguns casos. As regras também são complicadas, não vou aqui agora referir as regras de acentuação. Estamos a falar só da oralidade. O que eu quero dizer com isto é: os casos que a Inês apresenta são casos em que a diferença está na sílaba tônica, na sílaba principal. E aí, ser ê ou ser é, é simplesmente uma característica da própria palavra, tal como podia ser ó ou o. São vogais diferentes, que são escritas com a mesma letra, mas são vogais diferentes. Portanto, não há nenhuma regra que diga que a sílaba tônica tem que ser com é ou com o e. Há palavras que são com é, outras com ê, outras com á, outras com ó. Cada palavra tem a sua história e os seus sons. A tal regra é: quando uma vogal está numa sílaba átona, em português, a tendência é para ficar mais baixa, ou seja, para ser, em vez de é, ser ê, em vez de á, ser a, em vez de ó, ser o. Portanto, o ó passa para u. Essa que é a regra. Estamos a falar da sílaba átona e a regra chama-se redução vocálica. Portanto, não está relacionada com a sílaba tônica. A sílaba tônica está fora desta regularidade. Os falantes têm estas regras e exceções e tudo na cabeça. E claro que depois, de vez em quando, há algumas mudanças e algumas complicações.
Quando começamos a pensar nisso também de uma forma mais insistente, vêm muitas dúvidas.
Sim, vêm muitas dúvidas. Por quê? Porque nós temos esta complicação toda na cabeça, não reparamos nela e quando começamos a reparar, temos dúvidas. Mas é uma questão de olhar em volta e perceber o que acontece. Vamos à segunda dúvida, da Luísa.
Vamos acelerar. Vamos ouvir a Luísa.
Olá, Marco. Olá, João. Parabéns pelo “Português Suave”. Eu sou a Luísa, de Luanda. Certamente que perdi a resposta a um e-mail que enviei sobre o plural de líder. Aprendi a dizer líderes, mas ouço na comunicação social a palavra lídres. O que está correto? Muito obrigada.
Pronto, o aviso inicial era para eu escapar.
Para o caso de ter perdido.
Era para eu escapar, como é que se diz, para fugir com a raposa.
Sim, exato.
Não, mas eu vou dizer o que é que se passa. Aqui os jornalistas estão a tentar seguir a tal regra, porque estão a reduzir a vogal numa sílaba átona.
Como é que tu dizes, Marco?
Eu digo líderes.
Eu também.
Igual, se calhar, vão muitas pessoas ficar chocadas, mas é assim que eu digo e foi assim que eu ouvi.
Eu também. E aprendi assim na escola.
Provavelmente, porque vem do inglês. Tal como nós dizemos telemóvel, não dizemos telemóvel.
Verdade. Já falamos dessa questão aqui também.
Teleférico. Tele Telemóvel é “telé”. Há várias razões para isto. Líderes, precisamente porque foi uma palavra importada há relativamente pouco tempo, ainda tem a força da língua de onde sai e portanto, aquela sílaba tônica em particular é lida de forma mais aberta por uma grande parte dos falantes. E os jornalistas tentam fazer uma coisa que muitas vezes as pessoas dizem que eles não tentam, que é falar da tal forma mais correta e por isso vão tentar usar uma regra que, na verdade, é um pouco artificial, porque grande parte das pessoas não diz assim. E vamos agora à última dúvida, do Nuno Palma. O Nuno Palma escreve livros, um deles muito famoso, “As Causas do Atraso Português”, e ele teve aqui uma dúvida, que andou a batalhar nas redes sociais com uma dúvida, e vamos ouvir que dúvida é essa.
Vamos lá.
Olá, Marco, viva. Como é que vai isso? Olha, na minha opinião, a palavra Flórida deve-se escrever com acento no O, acento agudo no O, porque nós lemos Flórida, pronunciamos, pelo menos todas as pessoas que eu conheço pronunciam Flórida e não Florida. O que é que tu achas sobre o assunto? Um abraço.
Obrigado, Nuno, pela dúvida.
O que tu achas sobre isso?
Aqui não estamos a falar da mesma coisa, já não estamos a falar de subir ou descer, mas sim onde é que está a sílaba tônica.
Sim.
Há casos em que nós temos, e aqui os dicionários costumam tentar indicar onde é que está a sílaba tônica, mas indicam com base em quê? Indicam com base naquilo que os falantes fizeram ao longo da história. Não é um falante em particular que vai mudar a sílaba tônica, são os falantes, com base na história dessa palavra. Há pessoas que acham que a sílaba tônica deve ser definida pela etimologia da palavra, mas se fosse por aí, nós teríamos uma língua muito diferente daquela que temos. Os falantes foram pondo a sílaba tônica em lugares que nem sempre fazem muito sentido tendo em conta a origem. Neste caso, o que eu posso dizer é que há casos em que há uma parte dos falantes que estão a mudar a sílaba tônica, como rubrica, que agora algumas pessoas dizem rúbrica. E eu nesse caso digo que é rubrica. Se agora as pessoas não me ouvirem e uma grande maioria dos falantes acabar por dizer aquilo que hoje está dito mal, de acordo com o padrão, como eu disse, na tônica, nós podemos ver isso nos dicionários. Há um padrão, é um pouco diferente de outras situações. Então, a palavra vai mudar e a escrita vai ter refletido essa mudança. No caso de Flórida.
Mas é preciso muito tempo para isso, não é?
É preciso tempo. Claro que as pessoas que fazem os dicionários têm que ter alguma paciência, não devem ir a correr atrás de qualquer mudança. Não é um falante, não são dois, não são três, nem sequer são um milhão. É um milhão de falantes que faz isto. É quando temos uma grande parte dos falantes, de tal maneira que já ninguém tem grandes dúvidas como é que se pronuncia aquilo, aí é que a escrita deve mudar. Isto é a minha perspectiva sobre este caso. O que se passa com Flórida é que hoje eu não conheço ninguém que naturalmente diga Florida como o nome do estado.
Eu também não. Acho que nunca ouvi.
O argumento contra Flórida e a favor de Florida é que a origem é espanhola. Mas primeiro, é um estado nos Estados Unidos, e nós acabamos por ser influenciados pela pronúncia americana, inglesa, se quisermos. Mas também devo só dizer, para terminar, que a palavra Flórida, com acento, existe em português há muitos séculos. Existe Florida e existe Flórida, algo que tem muita flor. Não há razão nenhuma para nós insistirmos numa pronúncia que não é usada por ninguém. Eu concordo com o Nuno, que deve ser Flórida, com acento.
O Nuno ganhou.
A escrita deve refletir a pronúncia que os falantes já decidiram há muito tempo e decidiram em bloco.
Ficamos por aqui neste “Português Suave”. Dúvidas a enviar para o e-mail, Marco Neves.
portuguessuave@observador.pt.
Ou, como fez o Nuno e a Luísa, 91 002 41 85. Ficamos por aqui nesta edição de quarta-feira. Um abraço, Marco.
Um abraço.

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