CIÊNCIA

Mulheres infelizes e zangadas? A revolução sexual falhou?


Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Vamos então conhecer o tema do Contracorrente de hoje. O Contracorrente é aberto aos ouvintes depois do jornal das 10. Pode ligar o 910 024 185. Carla.
O romance deste verão chama-se “Yesteryear” e aborda o tema das mulheres que apostam num regresso aos modelos tradicionais ou antigos de divisão do trabalho como solução para as suas frustrações e ansiedades. Isto num tempo em que algumas feministas, a quem chamam feministas reacionárias, começam a culpar a revolução sexual e os seus excessos pela infelicidade de muitas mulheres e raparigas. Isto também num tempo em que se multiplicam os sinais de inadaptação dos rapazes e dos homens, crescem os indicadores de suicídio e se fala depreciativamente da manosfera. O que se passa? O que fizemos mal? Mais liberdade e mais igualdade, afinal, não trouxeram mais felicidade? É este o ponto de partida para um Contracorrente que se anuncia polémico. Sim, José Manuel, bom dia. Então a culpa é mesmo da revolução sexual?
Há quem diga isso. Curiosamente, eu estava ontem a reler alguns textos à procura de informação, estudos que existam sobre esta matéria, e há bastantes. Encontrei uma frase escrita por um senhor que já morreu, uma figura muito importante na vida intelectual dos Estados Unidos, Irving Kristol. O neoconservadorismo, antes de ser uma política internacional, era um debate sobre a evolução cultural dos Estados Unidos. Ele publicou no New York Times em 1971, portanto estás a ver o tempo que isto foi, um texto a propósito de uma coisa que na altura estava a começar a aparecer e que não tinha de forma nenhuma o alcance que tem hoje, nem nada que se compare, que era a pornografia. E ele defendia que devia haver controle, que não devia ser totalmente liberalizada, como hoje em dia é. Ele começa o artigo no New York Times, que é um longo ensaio, com uma frase que eu achei muito pertinente e controversa, que é assim: “Sentir frustração é desagradável, mas os desastres verdadeiros começam quando se alcança aquilo que se deseja.” E depois ele vai explicando dali adiante, é o ponto de partida do artigo. E eu acho que isto é algo que, porventura, faz parte da natureza humana e da forma como nos relacionamos e que muitas vezes não temos em consideração. Eu creio que quando falamos dos assuntos que têm a ver não só com a mulher, é com a mulher e com o homem, porque se há tema que também se tem discutido nos últimos anos é, por um lado, os problemas por que passam os rapazes e os homens, desde a chamada manosfera, os incels, coisas que se fala muito, mas sobre os quais se sabe pouco. Nós fizemos até aqui um programa quando foi aquela série adolescência a propósito do que poderia significar esse desconforto, sobretudo dos adolescentes na época da adolescência, mas é muito mais do que isso. Por exemplo, temos a ideia de que as mulheres são mais propensas à depressão. As estatísticas dizem, pelo contrário, que neste momento são sobretudo os homens aqueles que se suicidam. Pelo menos onde as estatísticas chegam, deixou essa matéria. O que até pode surpreender um pouco. Mas além disso, há a questão da evolução política diferencial, por exemplo, entre os jovens rapazes e as jovens raparigas. Isso é muito evidente, por exemplo, mais uma vez, onde há muitos dados de estudos estatísticos sobre isso e de estudos de sondagens sobre essa matéria, que é Reino Unido, Estados Unidos, França também. Há muita indicação de que as raparigas jovens estão a ir sobretudo pra esquerda e pra extrema esquerda, e os rapazes fazem o movimento exatamente contrário. O que já há textos a discutir, já se começa a debater o tema de saber se esta divergência chega ao ponto de tornar ainda mais difícil encontrar o companheiro para a vida ou a companheira para a vida, porque as pessoas não são capazes de falar com alguém que tem ideias muito distintas, muito diferentes, ficam muito assustadas com isso. E portanto, isso aumenta ainda mais um outro fenômeno, que também existe e é, mais uma vez, um daqueles fenômenos que toca homens e toca mulheres, que é, aparentemente, os mais novos, há muitas décadas, praticamente desde o início deste período, digamos que é década de 60, 70, mas os mais novos estão a ter muito menos sexo do que tiveram os seus pais e, porventura, os seus avós. O que também é algo contraintuitivo, em alguns aspectos surpreendente, e que tem várias possíveis explicações. Esses fenômenos de que tu falaste e que têm a ver com, por um lado, o regresso a casa, digamos assim, o regresso a um modelo de vida em que a mulher está sobretudo em casa a tratar dos assuntos domésticos, como uma vida às vezes idealizada, é uma coisa que talvez não tenha uma representatividade muito grande. Deriva sobretudo de algumas influencers norte-americanas e sobretudo, pois têm aquele número imenso de seguidores e a mais famosa é uma que até vive naquele Utah, que é o estado onde dominam os mórmons. Mas pode haver aqui sinais de outras coisas e, sobretudo, no que respeita, por exemplo, à questão da revolução sexual. Eu fui recuperar esta frase do Irving Kristol, porque ele tinha uma outra frase. Eu conheci-o pessoalmente aqui há muitos anos, em Lisboa e depois em Washington. Ele costumava dizer uma coisa que, mais uma vez, é muito controversa. Ele dizia que quando se mudou completamente o grau de liberdade sexual, esqueceu-se que a cultura do engate favorece sobretudo os homens, e os homens são por natureza predadores. Ele era um homem e dizia: “Os homens são por natureza predadores. E quando as defesas caem, os predadores estão mais à vontade.” Portanto, estás a ver, há muito tema aqui controverso para falarmos. Se calhar vamos só falar de alguns deles, mas vamos tentar falar disso. Temos conosco a Patrícia Fernandes, que escreveu, aliás, três artigos aqui no Observador sobre este livro e a propósito deste livro e do que se está a passar com as mulheres. E ela é mulher, como é óbvio, estuda estes assuntos. Vamos tentar lançar alguma luz. Não sei se chegamos a uma conclusão, mas vamos lançar alguma luz.
Não, pelo menos ter aqui alguma discussão. Até já, José Manuel.

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