Irão e Israel: Ameaça de guerra ou apenas jogo diplomático?
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Gabinete de Guerra esta manhã com a análise do coronel José do Carmo. Muito bom dia.
Olá, bom dia, João.
Bom dia. Vamos começar por esta declaração do primeiro-ministro israelita numa televisão estatal ou à televisão estatal israelita. Diz o primeiro-ministro israelita que não afasta a possibilidade de uma nova vaga de ataques ao Irão. Como é que interpreta estas declarações do primeiro-ministro israelita?
Interpreto no sentido de que internamente precisa de marcar o resultado do seu consulado. As eleições serão o mais tardar em outubro, se não forem antes, e portanto já está em campanha eleitoral. Por outro lado, há aqui também uma certa dose de realismo a perceber que também tem interesse em, no fundo, dissuadir o Irão de novas aventuras ou novos ataques ou novos mísseis sobre Israel, que o Irão também está constantemente a ameaçar, em função do que se passa no Líbano. Portanto, há aqui também uma dissuasão e, por outro lado, a narrativa interna para se posicionar para as próximas eleições.
Irão cujo chefe da equipa nacional negocial do Irão afirmou que a República Islâmica dá prioridade ao diálogo com os Estados Unidos, mas continua pronta para a guerra. É este alimentar de retórica da guerra, coronel José do Carmo, que estamos a assistir nesta altura?
Isto reflete a divisão interna iraniana. No Irão há uma fação, os moderados, digamos assim, se pudesse chamar moderados, que é a presidência, o Ministério dos Negócios Estrangeiros, o governo, que no fundo quer dinheiro, quer compor as casas e tratar de reerguer aquilo tudo, porque o Irão não está bem em termos de economia, de tudo aquilo que se passou à volta da guerra. E por outro lado, há outra fação que é os mais radicais, nomeadamente a Guarda Revolucionária, que é quem manda, que quer continuar à procura das questões do Hormuz, da independência regional, expulsar os Estados Unidos da região, portanto continua com objetivos muito grandiosos, enquanto há um setor que se preocupa com a casa. A casa não está arrumada e precisa de arrumar. É esta divisão que marca aquilo que se está a passar. Neste momento há umas negociações a decorrer que são sobre questões técnicas. E no fundo, o que é que essas questões técnicas são? No fundo é o Irão quer dinheiro. Quer dinheiro à partida, quer tratar do Hormuz, a Guarda Revolucionária, e quer a questão do Safou. E depois só mais tarde é que se irá discutir então a questão do nuclear, que é aquilo que no fundo levou à guerra.
O Irão que voltou a descartar a possibilidade de manter conversações diretas com os Estados Unidos em Doha, no Catar. A ideia, coronel José do Carmo, é empatar as negociações ou é dar continuidade a uma tradição diplomática que é o Irão não negoceiar diretamente com os Estados Unidos?
É empatar as negociações e de facto também é verdade. O Irão tem este sistema. Estas reuniões aqui em Doha são reuniões técnicas, no fundo é o quê? É estabelecer a engenharia das negociações, ou seja, que cadeiras é que vamos usar. Estou a ser um bocado caricatural, mas é isto. Que cadeiras é que vamos usar, que papel é que vamos… No fundo são questões à volta da substância do acordo, são questões formais. E para o Irão essas questões técnicas são basicamente o dinheiro, que agora quer dinheiro, é Hormuz. É dinheiro, Hormuz, sanções e é isto, é o que o Irão pretende para já resolver. Não manda lá ninguém, manda lá pessoal menor, portanto, o pessoal que vai compor as folhas, não manda lá ninguém que tome decisões. Os Estados Unidos mandaram lá Kushner e Witkoff, mas não foram para lá se encontrar com ninguém do Irão, foram lá para se encontrar com o emir do Catar, com os senhores do Catar. E por isso, tudo isto, sim, o Irão quer empatar e quer fazer com que estes assuntos importantes do memorando, importantes para os americanos e para o resto, que é a parte nuclear, os mísseis, toda aquela arquitetura de segurança regional que tem muito a ver com estas questões, sejam enviadas para as calendas gregas. Isto em bom português chama-se “o Irão tenta fazer como sempre fez, que é encanar a perna à rã”. Basicamente é isto.
Poderá haver desenvolvimentos nas próximas horas ou nos próximos dias, coronel José do Carmo?
Os desenvolvimentos aqui depende sempre daquilo que a Guarda Revolucionária fizer. Nota-se que há aqui uma divisão interna. O governo diz uma coisa, os negociadores dizem uma coisa, depois a Guarda Revolucionária diz outra e basta seguir as agências Fars, Tasnim e Mersh, que são ligadas à Guarda Revolucionária, para perceber onde é que está o centro do poder. Quem é que decide o quê. O presidente Pezeshkian reuniu-se esta semana, dia 28, com o Conselho dos Clérigos para tentar ganhar algum peso nas negociações que estão a ser claramente determinadas pela Guarda Revolucionária. Portanto, tudo o que sair daqui, a Guarda Revolucionária quer controlar o setor Hormuz, já o disse, já estabeleceu. É uma linha vermelha para os Estados Unidos, embora as linhas vermelhas dos Estados Unidos, como nós sabemos ultimamente, sejam bastante vagas. O próprio memorando é vago, a linguagem é vaga e a linguagem ser vaga permite, de facto, ao Irão fazer esta resistência ativa. O que é que vai acontecer? Vai acontecer que o Irão vai tentar continuar a atrasar as coisas, a protelar, e os Estados Unidos vão tentar continuar a pressionar, acreditando que de alguma maneira, digamos que os moderados em Teerão irão prevalecer sobre os radicais.
Coronel José do Carmo, muito obrigado pela sua análise no Gabinete de Guerra de hoje. Muito obrigado e bom dia.
Obrigado, bom dia.










