Educamos os nossos filhos como prisioneiros?
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Boa tarde, bem-vindos a mais uma edição do “Porque Sim Não É Resposta” com o psicólogo Eduardo Sá. Eu sou o Bruno Vieira Amaral. Hoje vamos falar a propósito de um e-mail que nos foi enviado por uma ouvinte, que é fundadora de um projeto, Crias na Floresta, que promove o contato de bebês, crianças muito pequenas com a natureza. E a pergunta que esta ouvinte nos faz diz que está no centro do trabalho que tem desenvolvido: o que faz um bebê de seis meses na natureza? Ou melhor, por que deveríamos adiar o encontro de uma criança com o mundo natural? Boa tarde, Eduardo. Há pouco contato das crianças com o mundo que as rodeia ou, por outra, o mundo que as rodeia é cada vez mais afastado do mundo natural?
Olá, Bruno, acho que às vezes é. Tenho pra mim que nem sempre as cidades são sítios amigos das crianças. Não são tão abertos e tão disponíveis pra que elas possam circular, mesmo com a ajuda dos pais, com apelos e ofertas que vão de encontro àquilo que é necessário pra elas. Agora, eu percebo estes apelos da floresta e não tenho rigorosamente nada contra, tudo a favor. Por que, Bruno? Porque muitas vezes estes projetos, de onde depois surgem também as escolas da floresta e outros tipos de iniciativas do gênero, acabam por ser num determinado tipo de fase de crescimento. Eu gosto mais até o primeiro ano de escolaridade, assumo, mas podem seguir por ali adiante. Permitem que as crianças estejam num jardim de infância que não se resuma a quatro paredes, às vezes sem um recreio digno desse nome, sem possibilidades de estarem no recreio quando chove ou quando faz frio. E, portanto, crianças que no fundo parecem ser criadas como se fossem crianças de aviário, que é uma atrocidade e não tem realmente sentido nenhum. E, portanto, fazer cozinhas de lama ou permitir que as crianças levem uns botins para a escola e andem por lá, no espaço exterior, semelhante a uma floresta, brincando e sentindo a vida, eu acho que é um privilégio, porque nós às vezes temos a ideia de que elas podem crescer saudáveis sem mexer nas coisas, às vezes sem perguntar por que, Bruno, o que ainda é mais grave. Sem tocar nelas, sem ver os intestinos das coisas, sem perceberem como elas funcionam ou chegando a descobrir que às vezes quando desmontam uma peça, há lá não sei quantas particularidades que parecem estar sempre a mais. E este tipo de crescimento, às vezes muito distante do toque, da surpresa, do espanto, é muito inquietante, porque eu acho que se aprende muito pior dessa forma tão assética como às vezes nós parecemos crer que as crianças tenham e, portanto, o mais possível a favor, até porque surpreenderem-se com a beleza da vida, eu não acho que tenha de pagar imposto de luxo, muito antes pelo contrário. E a beleza da vida está sempre ao nosso lado. Nós é que entretanto temos déficits de atenção que nos engolem e temos a ideia quando andamos a 200 km/h, estamos a produzir muitas coisas, quando às vezes estamos a produzir meia dúzia delas e estamos a produzir toneladas de circunstâncias que têm a ver com a nossa distração, com tudo o que isso prejudica.
E o que se ganha em termos do desenvolvimento nesta fase inicial da vida das crianças, com esse contato direto com o mundo natural?
Corpo. Começando pelo corpo, que é uma realidade que parece estar sempre um cadinho maltratada no registro do sistema educativo, chamemos ele assim. Conhecerem com o corpo, conhecerem de dentro para fora do corpo é uma bênção. E à boleia do corpo, motricidade, que é outra das coisas com que os educadores de infância passam a vida a ficar mais perplexos, porque as crianças chegam ao jardim de infância sem competências mínimas e indispensáveis em relação à motricidade grosseira, a capacidade de terem movimento, tonicidade, equilíbrio, mas ao mesmo tempo a motricidade fina, no sentido de manusearem pequenas particularidades, de lhes tocarem, de observarem e de verem. E eu gostava que às vezes os pais, quando têm uma grande avidez de crescimento cognitivo dos seus filhos, tivessem a noção que não há brinquedos didáticos e os outros brinquedos. Uma floresta é um brinquedo, mais didático é difícil. Uma caixa de papelão onde eles se escondem Na qual fazem uma casinha, é um brinquedo didático absolutamente fantástico. E eu acho que, às vezes, nós crescemos com a ideia de que os brinquedos didáticos os tornam mais inteligentes e os outros brinquedos são uma digressão engraçada na vida das crianças, o que não é verdade. E dá-lhes motricidade, dá-lhes capacidade de conviverem com os espaços e o olharem e ensina-os a olhar e a ver de uma forma muito mais acutilante.
E dar-lhes também liberdade de movimentos. Isso também faz diferença, porque hoje as nossas crianças são muito policiadas nos seus movimentos. Parece que não têm essa liberdade de movimentos. Eu sei que às vezes é um discurso um pouco repetitivo esta coisa de que antigamente havia mais essa liberdade de estar na rua, de brincar, mas a verdade é que as crianças são muito policiadas nos seus movimentos, estão permanentemente a ser chamadas a atenção na sala de aula, mesmo no recreio, quando ele existe.
Sim. Eu acho que no recreio devia estar um letreiro à entrada a dizer: “Proibida a entrada a maiores de seis anos”, porque às vezes é demais. Repare neste pormenor: quanto mais elas acabam por ter esses movimentos e esta motricidade, mais atentas se tornam. Às vezes nós deitamos as mãos à cabeça em relação aos défices de atenção e não nos damos conta como estamos a alimentá-los todos os dias. Elas têm que estar quietas, caladas e atentas. E estarem quietas, caladas e atentas é uma coisa magnífica quando nós lhes damos oportunidades para elas descobrirem coisas que não conhecem, como, por exemplo, quando andam cá fora. É muito importante nós darmos conta que só depois de elas terem esta capacidade de estarem atentas é que depois descobrem, imaginam e simbolizam. E mais espaço, melhor corpo, mais relações, torna-as mais inteligentes. Não pode ser taxado com imposto de luxo.
E torna-as também mais sensíveis à importância do ambiente, porque essa é uma das outras questões levantadas pelo nosso ouvinte, é que nós falamos, claro, muito da proteção do ambiente, desta consciência da nova geração em relação à ecologia, mas ao mesmo tempo, e por paradoxal que possa parecer, é uma geração criada muito longe da natureza. Será que esse regresso das novas gerações a um contacto mais próximo com a natureza também fará com que a sensibilidade, não a consciência ecológica, mas a sensibilidade quase táctil para aquilo que é natural, seja diferente?
Eu tirava o táctil, nada contra, mas a sensibilidade em termos gerais, sem dúvida, absolutamente nenhuma. Até por isto, porque sensibilidade é inteligência, mas em que mundo é que nós andamos? Quanto mais as pessoas vivem livremente a sensibilidade, mais inteligentes se tornam. E filhos mais abertamente sensíveis, às vezes fala-se das emoções nas escolas, mesmo em sentido contrário, como se, no fundo, o busílis não fosse identificar, mas controlar as emoções. Não, a sensibilidade expressa livremente torna os nossos filhos mais saudáveis e muito mais inteligentes. E nós alarmamo-nos quando somos trazidos para uma questão que foi preciso serem os adolescentes a chamarem-nos a atenção para que, de repente, tivessem direito à cidadania, quando nos disseram: “Atenção, olhem que não há um planeta B”. Mas às vezes parece que estamos a criar uma versão B dos nossos filhos, quando eles têm uma versão A, que foi criada por nós, sem estas restrições todas, que nós devíamos não só preservar, alimentar todos os dias. E se eles começarem o jardim de infância, nada contra as educadoras, tudo a favor, com a atividade plástica e tudo mais, mas, por favor, se eles tiverem direito a espaços, ar livre. Uma aluna minha fez uma tese de mestrado há uns tempos que dizia, com uma sensatez absolutamente fora do lugar e com verdade, que as crianças do jardim de infância tinham menos tempo livre e menos espaço que os prisioneiros de alta segurança. E nós queremos alimentar e fazer com que cresça a capacidade de deslumbramento dos nossos filhos perante o mundo, de maneira que eles intervenham e que criem e que façam coisas muito bonitas e, de repente, educamos como se fossem prisioneiros de alta segurança. Mas que absurdo é este?
Parece estranho, mas às vezes criamos os nossos filhos como autênticos prisioneiros, esperando e pensando que estamos a agir para o bem deles, mas esquecendo que essas limitações acabam por cortarem muito essa sensibilidade e esse contacto com o mundo que está à volta deles. Eduardo, chegamos ao fim do nosso programa por hoje. Continuamos sempre em podcast, nas plataformas habituais, no site observador.pt. Envie-nos as suas dúvidas e partilhas através do e-mail eduardosa@observador.pt. Eduardo, muito obrigado. Até amanhã e um grande abraço.
Eu é que agradeço. Até amanhã. Um abraço para si também.









