Pedro não se ajoelha diante dos cismas
Já não estamos perante uma disputa entre conservadores e progressistas. Essa linguagem é pobre, gasta e, acima de tudo, insuficiente. Serve para debates televisivos, para comentários apressados e para alimentar trincheiras ideológicas. Mas não serve para compreender o que está agora em causa na Igreja.
A ordenação de bispos pela Fraternidade São Pio X não é um episódio menor. Não é uma extravagância de sacristia. Não é uma birra litúrgica de quem prefere latim, incenso e paramentos antigos. É muito mais sério: é uma questão de comunhão com a Igreja fundada por Jesus Cristo. É uma questão de fidelidade a Pedro. É uma questão de saber se alguém está dentro da fé da Igreja ou se constrói, mesmo com palavras bonitas e gestos solenes, uma fé contra a própria Igreja.A Igreja não foi fundada por um grupo de resistentes, por um teólogo iluminado, por um bispo revoltado ou por uma fraternidade. A Igreja foi fundada por Jesus Cristo. Foi Cristo quem chamou os Apóstolos. Foi Cristo quem confiou a Pedro uma missão singular. Foi Cristo quem disse: «Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja.» A Igreja é de Cristo, mas Cristo quis que a sua Igreja tivesse em Pedro o princípio visível da comunhão.É aqui que tudo se decide. A Tradição católica não existe contra Pedro. Não se guarda a fé rompendo com Pedro. Não se defende a Igreja desobedecendo à Igreja. Pode haver críticas legítimas, perplexidades sérias, debates teológicos e até sofrimento diante de certas decisões pastorais. A história da Igreja nunca foi um passeio higiénico entre santos de vitral. Mas há uma linha que não pode ser ultrapassada: a comunhão.
Ao longo da história, sempre que a Igreja definiu a fé, houve quem se levantasse para dizer que a Igreja se tinha enganado. Depois de Niceia, surgiu o arianismo, incapaz de confessar plenamente a divindade do Filho. Depois de Éfeso, apareceu o nestorianismo, ferindo a unidade da pessoa de Cristo. Depois de Calcedónia, veio o monofisismo, recusando a plena verdade das duas naturezas de Cristo. Mais tarde, o monotelismo tentou salvar a aparência da unidade diminuindo a vontade humana de Cristo. O donatismo sonhou com uma Igreja de puros, como se a santidade da Igreja dependesse da pureza moral absoluta dos seus ministros. O pelagianismo confiou demasiado na força humana e demasiado pouco na graça. O catarismo desprezou a criação e a carne. A Reforma Protestante rasgou a unidade visível da Igreja no Ocidente.Os nomes mudam. Os séculos mudam. A lógica repete-se. Primeiro diz-se que Roma está confusa. Depois diz-se que Roma traiu. Depois diz-se que é preciso resistir a Roma. Por fim, age-se sem Roma — e ainda se chama a isso fidelidade. Mas fidelidade a quê? A uma ideia de Igreja? A uma fotografia do passado? A uma estética religiosa? A uma memória transformada em trincheira?A verdadeira Tradição não é um museu. Não é uma peça antiga que cada grupo conserva numa redoma, longe da autoridade viva da Igreja. A Tradição é a fé recebida dos Apóstolos, transmitida pela Igreja, guardada pelo Magistério e vivida em comunhão. Quando se separa a Tradição da comunhão com Pedro, já não se está a defender a Tradição; está-se a fabricar uma ideologia religiosa com linguagem tradicional.É por isso que o caso da Fraternidade São Pio X é tão revelador. Durante anos, muitos dos seus defensores apresentaram-se como os grandes guardiães da obediência, da doutrina, da liturgia e da autoridade. Mas, quando a autoridade da Igreja lhes pede comunhão, a obediência torna-se condicional. Obedece-se se Roma concordar. Obedece-se se o Papa confirmar aquilo que já se pensava. Obedece-se se a Igreja falar a linguagem do grupo. Caso contrário, surgem logo as exceções, os comunicados, as justificações canónicas, os estados de necessidade e as declarações dramáticas sobre a crise da Igreja.Isto não é obediência. É orgulho religioso vestido de capa magna.
O Papa já fez o apelo. Roma já dialogou. A Igreja já teve paciência. E, diga-se com clareza, não se pede à Fraternidade que deixe de amar a liturgia, a solenidade, a doutrina ou a memória. A Igreja precisa disso tudo. Precisa de beleza, de silêncio, de reverência, de continuidade e de doutrina sólida. Uma Igreja sem memória fica banal. Uma Igreja sem beleza fica burocrática. Uma Igreja sem doutrina fica sentimental.Mas uma tradição sem comunhão fica estéril. Uma liturgia sem obediência torna-se bandeira. Uma doutrina usada contra Pedro torna-se arma. E uma fraternidade que ordena bispos à margem do mandato pontifício deixa de estar apenas a fazer uma afirmação litúrgica: está a fazer uma afirmação eclesiológica. Está a dizer, na prática, que pode continuar a Igreja sem Pedro. Não pode.A grande ironia é que muitos destes ambientes passaram anos a lutar contra abusos reais. E, em parte, tinham razão. Houve abusos litúrgicos. Houve banalização pastoral. Houve confusão doutrinal. Houve quem confundisse o Concílio Vaticano II com uma licença para demolir tudo. Houve progressismos que envelheceram mal e que deixaram muitas comunidades sem densidade espiritual.Mas ter razão contra alguns abusos não dá direito a romper a comunhão. Denunciar erros não autoriza ninguém a colocar-se acima da Igreja. Combater o progressismo não transforma automaticamente qualquer tradicionalismo em catolicismo puro.
A Igreja não é dos progressistas. Também não é dos tradicionalistas. A Igreja é de Cristo. E talvez esteja aqui o drama mais fundo: há grupos que construíram a sua identidade sempre contra alguma coisa. Contra o modernismo. Contra os abusos. Contra Roma. Contra os bispos. Contra o Papa. Contra o mundo. Contra os outros. Mas, quando se vive apenas da oposição, chega um momento em que já não se combate por amor à verdade; combate-se porque se perdeu a capacidade de viver sem inimigo. E, quando o inimigo exterior não chega, acaba por se transformar a própria Igreja em inimiga. É isso que está a acontecer.Num mundo cheio de polaridades, há quem queira criar mais uma: de um lado, os fiéis; do outro, Roma. De um lado, a verdadeira tradição; do outro, a Igreja oficial. De um lado, os puros; do outro, os contaminados. Mas esta divisão não é católica. É velha. É a tentação de todos os cismas: substituir a Igreja real, concreta, ferida, mas fundada por Cristo, por uma Igreja imaginária, pura, obediente apenas à imagem que dela fazemos.A verdade, porém, não precisa de se humilhar eternamente diante da resistência. O Papa pode rezar, dialogar, esperar e abrir portas. Deve fazê-lo. Mas Pedro não tem de se ajoelhar diante de quem transforma a desobediência em identidade. A comunhão é dom, mas também é responsabilidade. Não pode ser sempre Roma a estender a mão enquanto o outro lado guarda a espada.Dois mil anos depois, o papado continua. Passaram impérios, perseguições, heresias, cismas, revoluções, guerras, papas santos, papas medíocres, bispos mártires e bispos cobardes. A Igreja continua. Não porque os seus homens tenham sido sempre exemplares. Não foram. Não porque a sua história seja impecável. Não é. A Igreja continua porque foi fundada por Jesus Cristo e sustentada pela sua promessa.
Os movimentos de rutura, pelo contrário, ficam quase sempre presos aos nomes dos seus fundadores ou das suas doutrinas: Ário, Nestório, Pelágio, Lutero, Calvino, Lefebvre. A Igreja permanece ligada a Cristo e a Pedro. Os homens passam. Pedro permanece.Por isso, deixemos a conversa pobre dos rótulos. Isto não é uma guerra entre conservadores e progressistas. É uma questão muito mais séria: ou se permanece na comunhão da Igreja fundada por Jesus Cristo e edificada sobre Pedro, ou se constrói uma capela privada em nome de uma pureza que já não é católica. Quem quiser estar na Igreja, esteja com Pedro. Quem escolher outro caminho, que ao menos não diga que foi Pedro quem abandonou a Igreja.
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