CIÊNCIA

Os navios em Ormuz continuam a ditar os juros

O início do conflito entre os EUA, Israel e o Irão, a 28 de fevereiro, e o consequente encerramento do estreito de Ormuz, em ambos os sentidos, ditaram uma disrupção significativa numa das mais importantes rotas marítimas do comércio mundial, responsável por uma parte substancial das exportações globais de petróleo e gás natural. O risco de ataques a embarcações comerciais limitou significativamente as  exportações de hidrocarbonetos do Golfo Pérsico.
Contudo, à medida que o conflito foi abrandando e foram sendo anunciados sucessivos acordos de cessar-fogo e tréguas temporárias, sobretudo nas últimas semanas, o preço do barril de petróleo recuou gradualmente. Desde o início de maio, o Brent desceu de 120 dólares por barril para perto dos 70 dólares, regressando assim para perto dos níveis pré-conflito. E, desde meados de junho, a circulação marítima no estreito de Ormuz tem vindo a normalizar-se gradualmente. Esta recuperação tem sido, no entanto, lenta e assimétrica, evidenciada, numa fase inicial, por um número de saídas do Golfo Pérsico superior ao número de entradas. Tal comportamento poderá refletir a saída gradual de navios anteriormente retidos ou que haviam adiado a travessia do estreito durante o período de maior tensão militar na região, sugerindo que, apesar da relativa melhoria das condições de segurança, as empresas de navegação continuam cautelosas.O tipo de navio que começa gradualmente a voltar a atravessar o estreito é igualmente importante para perceber o grau de normalização das cadeias logísticas internacionais. Os navios comerciais que entram ou saem do Golfo Pérsico podem ser divididos entre navios que transportam combustíveis e restantes navios. O primeiro grupo engloba petroleiros de crude (petróleo bruto), navios de transporte de produtos refinados e petroquímicos, bem como navios de transporte de gás natural liquefeito (Liquefied Natural Gas – LNG) e gás de petróleo liquefeito (Liquefied Petroleum Gas – LPG). O segundo grupo inclui navios de carga geral (General Cargo Ships), graneleiros (Bulk Carriers) e porta-contentores (Container Ships), responsáveis pelo transporte de bens intermédios e finais, tais como peças automóveis, maquinaria, equipamento industrial, cereais, minérios e outros bens manufaturados.O crescente número de navios com combustíveis que atravessam o estreito assume particular importância, uma vez que estes transportam cargas sensíveis e de elevado valor estratégico, enfrentando riscos muito maiores em tempos de guerra. O regresso gradual dos petroleiros e dos navios de transporte de gás ao estreito de Ormuz é, assim, um sinal de melhoria das condições de segurança e de restabelecimento gradual da confiança dos agentes económicos.
O choque energético ditado pelo conflito entre os EUA, Israel e o Irão teve igualmente repercussões significativas nos mercados financeiros. O receio de uma interrupção prolongada dos fluxos de hidrocarbonetos do Golfo Pérsico impulsionou o preço do Brent de 70 dólares por barril, na véspera do início do conflito, para 120 dólares durante os períodos de maior tensão militar. Este forte aumento do preço do petróleo reacendeu os receios de uma nova vaga de inflação energética. Combustíveis mais caros reacenderam novamente as preocupações relativamente a potenciais efeitos de segunda ordem ao longo de toda a cadeia produtiva, desde os custos de transporte até aos preços dos bens intermédios e finais. Assim, as expectativas dos mercados relativamente à política monetária do Banco Central Europeu (BCE) alteraram-se significativamente logo após o início do conflito. Os investidores passaram a antecipar uma inflação mais persistente e, consequentemente, uma política monetária mais restritiva durante um período mais prolongado. Perante este novo cenário macroeconómico, o BCE decidiu, na reunião de 11 de junho, aumentar em 25 pontos base as suas três taxas de juro diretoras, elevando, por exemplo, a taxa de depósitos de 2% para 2,25%.Todavia, apesar de o preço do Brent ter entretanto regressado para níveis muito próximos aos dos dias anteriores ao início do conflito, as expectativas dos mercados para as taxas de juro do BCE no final do ano recuaram apenas ligeiramente. Ou seja, os investidores continuam a incorporar um prémio de risco associado à possibilidade de novas perturbações no estreito de Ormuz, aguardando sinais mais claros de uma reabertura plena e duradoura da principal rota marítima do Golfo Pérsico. Por outras palavras, os investidores parecem exigir uma confirmação mais robusta da normalização do tráfego marítimo antes de anteciparem um regresso das taxas de juro aos níveis do início do ano.O atual choque energético apresenta algumas semelhanças com o de 2022 e as expectativas de inflação parecem permanecer, para já, relativamente ancoradas. Há o receio de que o aumento dos preços da energia, ainda que temporário, possa gerar efeitos de contágio ao longo de toda a cadeia produtiva, mas a rápida correção do preço do petróleo e a gradual normalização do estreito de Ormuz apontam para um impacto potencialmente menos persistente e menos generalizado do que a crise energética ditada pela invasão da Ucrânia pela Rússia.No entanto, o que parece certo é que a gradual reabertura do estreito de Ormuz e o crescente número de navios que diariamente o atravessam parecem ser atualmente mais importante do que o preço do petróleo para explicar a evolução das expectativas para as taxas de juro do BCE.

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