“Tuner — Ouvido Absoluto, Mão Leve”: impecavelmente afinado
▲Niki White (Leo Woodall) abre um cofre em "Tuner — Ouvido Absoluto, Mão Leve"
É já tão raro encontrar alguém que conheça, respeite e saiba reproduzir a mecânica narrativa, os ambientes e o tipo de personagens e o modo de relacionamento entre elas, do cinema policial de série B, que só apetece abraçar Daniel Roher, o realizador de Tuner — Ouvido Absoluto, Mão Leve (o título português é inenarrável…), com o qual este jovem documentarista de 33 anos (e oscarizado por Navalny, em 2023), se estreia a rodar ficções.
O filme passa-se em Nova Iorque, e tem como protagonista Niki White (Leo Woodall), um jovem afinador de pianos solitário e ensimesmado. Niki era um prodígio do piano, mas teve de desistir de uma certamente brilhante carreira musical por ter começado a sofrer de hipersensibilidade auditiva, ou hiperacusia. Esta doença torna-o de tal forma sensível aos sons, que pode ser brutalmente dolorosa, e por isso anda sempre com auscultadores, por vezes dois, um deles da modalidade que cancela ruídos. E tem um ouvido sobrenatural.[Veja o “trailer” de “Tuner-Ouvido Absoluto, Mão Leve”:]Niki trabalha com Harry Horowitz (Dustin Hoffman), um antigo pianista de jazz que quando era mais novo tocou com Herbie Hancock, e é como um filho para ele e para a mulher, Marla (Tovah Feldshuh). Um dia em que ficou sozinho até mais tarde numa mansão a afinar um piano, depara com os homens da empresa de segurança que protegem a mesma a tentarem abrir um cofre, sem sucesso. Niki descobre então que é tão bom a fazê-lo como a afinar pianos. E como Harry foi hospitalizado, deve um dinheirão ao seguro e Marla não pode pagar a conta dos tratamentos, Niki aceita a oferta do gangster russo que lidera o grupo. E começa a abrir cofres para ele, a ser regiamente pago e a usar o dinheiro para cobrir as dívidas daqueles ao hospital.
[Veja uma entrevista com o realizador e os atores:]Entretanto, Niki está também a namorar com Ruthie (Havana Rose Liu), uma pianista e estudante de composição. Tudo parece correr bem para ele, mas certa noite, um dos “trabalhos” de Niki (a quem os gangsters tratam por Afinador), encomendado por mafiosos sul-coreanos muito reles, corre mal, acabando com um tiroteio e um cadáver. E o que até começava a ser rotineiro, passa a ser muito perigoso para o rapaz, que já estava a ser atormentado pela sua consciência, e também para os que lhe são próximos.[Veja uma sequência do filme:]Daniel Roher também escreveu o argumento de Tuner — Ouvido Absoluto, Mão Leve com Robert Ramsey, e cumpre as convenções do formato policial ao mesmo tempo que consegue apresentá-las de ângulos novos (este deve ser o primeiro thriller passado entre afinadores de pianos, e a filosofia de roubo dos gangsters é original — só levar um objeto valioso de cada cofre e que não dê nas vistas), e não dá uma nota visual ou dramática em falso. O filme está todo ele sob a égide do som, e da música (jazz e clássica), e tem conceção sonora de Johnnie Burn, que já padeceu do mesmo mal de Niki, daí o extremo realismo das sequências que nos metem “dentro” dos ouvidos dele.
Leo Woodall (The White Lotus, Bridget Jones: Louca por Ele, Nuremberga) magnetiza a nossa atenção sem precisar de falar muito e tem boa química com o descontraidíssimo Dustin Hoffman (Roher usa fotos de Lenny, de Bob Fosse, em que Hoggman entrou, para evocar o passado de pianista de jazz da personagem), conduzindo-nos até um final muito bem achado. Vai ser difícil vermos um filme tão impecavelmente afinado como Tuner — Ouvido Absoluto, Mão Leve nos próximos tempos, por isso, toca a aproveitar. E a abrir bem os ouvidos.









