CIÊNCIA

Vaticano confirma que grupo conservador cometeu cisma

O secretário de Estado do Vaticano, o cardeal Pietro Parolin, confirmou esta quinta-feira que o grupo católico ultraconservador Fraternidade Sacerdotal de São Pio X (FSSPX) incorreu em excomunhão automática depois de realizar o “ato cismático” de ordenar quatro bispos na quarta-feira sem autorização do Papa.
“Desejo expressar profundo pesar”, disse Parolin esta quinta-feira, um dia depois da cerimónia realizada na Suíça em que quatro bispos da FSSPX foram ordenados sem mandato pontifício, após um longo braço de ferro entre o Vaticano e o grupo ultraconservador, que foi fundado em 1970 pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre, forte opositor das reformas introduzidas na Igreja Católica pelo Concílio Vaticano II. A menos de 24 horas do início da cerimónia, o Papa Leão XIV ainda estava a fazer um último apelo para que o grupo reconsiderasse, mas a ordenação ilícita acabou mesmo por avançar.A legislação interna da Igreja Católica determina que a ordenação de um bispo sem um mandato pontifício é um ato cismático (ou seja, de recusa da autoridade papal e de rutura com Roma) punido com a excomunhão automática.Tradicionalistas consumam cisma com Roma. “O maior sacrifício que Deus nos pode pedir é sermos tratados como rebeldes”
“Falando da unidade da Igreja, um ato deste tipo fere profundamente essa unidade”, afirmou Parolin, acrescentando que “ordenações episcopais realizadas sem um mandato pontifício quebram a unidade da Igreja e levam a sanções muito específicas, fundamentalmente a excomunhão”.Nestes casos, a excomunhão acontece de forma automática — ou seja, foram os próprios bispos que se colocaram de fora da comunhão com Roma na cerimónia de quarta-feira. Ainda assim, é habitual que a pena de excomunhão seja, depois, formalmente confirmada pelo Vaticano. “Não sei o momento nem o modo como esta excomunhão vai ser imposta”, afirmou Parolin, confirmando que este ato foi “cismático em si mesmo”.A FSSPX foi fundada por Lefebvre na sequência do Concílio Vaticano II. O arcebispo francês, forte crítico das reformas conciliares — muito particularmente da abertura da Igreja ao diálogo inter-religioso —, fundou um seminário na Suíça com o objetivo de continuar a formar jovens padres na tradição anterior ao concílio. Embora a faceta mais visível da FSSPX seja o uso do rito antigo da missa, as divergências de ordem teológica e disciplinar com Roma  são muito mais profundas.Apesar de apelos de última hora do Papa, grupo ultra-tradicionalista prepara-se para ordenar bispos sem autorização de Roma e abrir cisma
Em 1988, Lefebvre decidiu ordenar quatro bispos sem autorização do Papa. Como consequência, foi excomungado, bem como os quatro bispos que ordenou. Ao longo das décadas seguintes, porém, houve várias tentativas de reaproximação, com o Vaticano a fazer múltiplas cedências à FSSPX: o Papa Bento XVI levantou as excomunhões e o Papa Francisco concedeu aos padres da fraternidade várias possibilidades de realizarem casamentos e confissões de forma válida na Igreja Católica, embora o estatuto da organização dentro da Igreja se mantivesse irregular.No entanto, a FSSPX, vendo-se de novo à beira da crise existencial — já só restam dois bispos vivos e estão os dois a caminho dos 70 anos —, decidiu avançar com a ordenação de novos bispos. Ao longo dos últimos meses, o Vaticano tentou evitar o ato cismático propondo negociações teológicas com a FSSPX, mas o grupo rejeitou a possibilidade, argumentando que não podia concordar com a premissa de que as conclusões do Concílio Vaticano II têm de ser aceites por toda a Igreja.

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