"A Europa é os EUA com atraso"
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Começa agora o Domínio da Guerra da Rádio Observador, sempre com o Major-General Alberto Moura. Bom dia, bem-vindo, General.
Bom dia, muito bom dia a todos.
Os Estados Unidos comemoram amanhã o aniversário da Declaração de Independência, 250 anos depois. A América parece especialmente dividida, com os americanos crispidos entre si. A propósito deste 4 de julho, tínhamos prometido na semana passada que iríamos dedicar o programa de hoje ao sonho americano. Mas afinal, General, o que é o sonho americano?
Amanhã, 4 de julho, é um dia de festa por todos os Estados Unidos. Nas pequenas cidades haverá desfiles, paradas com bandas muito coloridas. À tarde, as pessoas vão reunir-se nos parques e fazer barbecues e à noite vão pôr aquelas cadeirinhas de campismo para observar o fogo de artifício. É sempre uma festa o 4 de julho. E haverá também cerimônias oficiais das quais poderemos eventualmente, se valer a pena, falar num outro dia. Mas há 250 anos não foi assim. Estava reunido em Filadélfia o Segundo Congresso Continental e tinha sido encarregue de redigir uma carta, que era uma carta de reclamação a Jorge III, monarca britânico, um comitê de cinco personalidades. Essas cinco personalidades eram John Adams, Benjamin Franklin, Thomas Jefferson, Robert Livingstone e Roger Sherman. Foi o comitê, chamado Comitê dos Cinco, que foi encarregue por este Congresso Continental para redigir esta carta. Quem o fez foi, sobretudo, Thomas Jefferson. Thomas Jefferson, entre o dia 11 e o dia 28 de junho, ficou com a responsabilidade de escrever o grande esboço desta carta. Os outros terão dado também, certamente, os seus contributos. E o que isto é? Esta declaração, na verdade, é um conjunto de queixas, 20 e tal queixas, 27 queixas, daquilo que eram os 13 Estados, as 13 colônias norte-americanas contra o monarca britânico Jorge III. A frase mais conhecida desta declaração, acho que todos reconhecem o poder desta frase, é esta: todos os homens são criados iguais, dotados pelo criador de certos direitos inalienáveis. E que direitos são estes? O direito à vida, o direito à liberdade e o direito à procura da felicidade. Aqui temos aquilo que é a razão de tudo isto. Estes 13 Estados querem ser independentes da Coroa e reafirmam um propósito de natureza quase filosófica que vai iluminar o mundo: o direito à vida, o direito à liberdade e o direito a perseguir a felicidade. Não existe uma definição única sobre o que é o sonho americano. Mais do que um conceito, o sonho americano é uma atração para milhões de pessoas, de povos que estão em todo o mundo, sujeitos às maiores tiranias e violências, e que veem nos Estados Unidos a terra das oportunidades. Portanto, são os escorraçados do mundo que têm e alimentam o sonho americano, o sonho onde estão garantidas as três grandes condições já expressas na Declaração da Independência: o direito à vida, o direito à liberdade e o direito à felicidade. Os primeiros colonos que chegaram aos Estados Unidos eram os perseguidos da Europa. Perseguidos do ponto de vista político, perseguidos do ponto de vista religioso, fugiam da tirania para aquilo que era a terra da liberdade. Eu, aliás, penso de forma cada vez mais consistente, que um certo desprezo que eu leio naquilo que é a elite europeia sobre o americano médio, tem muito a ver com este início. Nós parece que não perdoamos que aquilo que foram os escorraçados da Europa tenham tido sucesso a levantar os Estados Unidos da América. E continuamos com este preconceito sobre o americano médio. A ideia do sonho americano tem três componentes essenciais. Vamos a elas.
Então.
A primeira é consequência da Declaração de Independência. Todos os homens são criados iguais. Isto é fortíssimo. Isto significa que independentemente da sua origem, do seu local de nascimento, da sua classe social, todos podem vir a ter sucesso nos Estados Unidos. Nos Estados Unidos, todos podem vir a ter sucesso. Os Estados Unidos são assim a terra da oportunidade. Segunda componente, resulta dos tais direitos inalienáveis expressos na mesma declaração. Os Estados Unidos são uma terra de liberdade e o direito a procurar a felicidade é um direito consagrado na Declaração. A terceira componente é talvez menos simpática, mas tão verdadeira e essencial como as outras. É que o sucesso só chegará através do trabalho árduo Da dedicação e da coragem. Isto tem muito a ver com o que é o ethos protestante dos primeiros colonos, que tinham para si que era preciso, para uma vida na América, muito trabalho, uma vida muito regrada e pouca ostentação. Um bocadinho o contrário daquilo que havia na Europa na altura. Como é que a política norte-americana tem encarado a questão do sonho americano? Cada vez pior, na minha opinião.
Pois.
Cada vez pior. O Partido Democrata está cada vez mais à esquerda. Vejam-se as últimas primárias que estão a ser desenvolvidas pelo Partido Democrata. Cada vez os mais progressistas e mais radicais estão a tomar conta do Partido Democrata nestas eleições das primárias. E no Partido Republicano também o extremismo ganhou âncora. Donald Trump escolhe todos aqueles que lhe são fiéis em detrimento de todos aqueles que no Partido Republicano poderiam ser elementos de natureza útil. Isto é, o sonho americano está a desfazer-se por culpa dos grandes partidos norte-americanos, porque abandonaram o centro. O Partido Democrata está cada vez mais progressista e à esquerda, o Partido Republicano está cada vez mais conservador e à direita. Perdeu-se o centro e como se perdeu o centro, perdeu-se a capacidade de estabelecer pontes, de estabelecer consensos entre as forças políticas. O ethos agora destes partidos, do Partido Democrata e do Partido Republicano, é destruir a obra feita pelo anterior e tornar impossível qualquer obra que seja feita pelo seu adversário. Ora, nenhum dos partidos, nem o Democrata, nem o Republicano, tem o monopólio do sonho americano, mas cada um pega nele de forma diferente. Deixe-me dar aqui dois exemplos. Eu vou inventar um bocadinho, mas as pessoas vão perceber. Como é que Obama se dirige às pessoas? Partido Democrata. Obama é o mestre do discurso político. Nunca ninguém conseguiu nos Estados Unidos escrever discursos como Obama. Obama põe as plateias a chorar. Obama diria o seguinte: enquanto houver uma criança nos subúrbios de Chicago que não saiba ler, esse é um problema que nos afeta a todos. Põe uma plateia imediatamente a chorar. Portanto, o Partido Democrata atira-se àquilo que eu diria os valores da solidariedade, da humanidade, etc. É uma parte apenas do sonho americano. As pessoas não sonham com a América apenas por esta parte mais humanitária. Um discurso de Trump. Um discurso de Trump são frases de três palavras. “Drill, baby, drill.” Este é o discurso de Trump.
Pois é, infelizmente.
Trata-se de um discurso que é o mais básico possível, sem nenhuma sofisticação. Se eu escrevesse os discursos de Donald Trump, Donald Trump seria amado por todos, mas ele nunca me deixou escrever-lhos.
Nem lhe responde.
Ele podia ter dito de outra forma: “Chegou a hora de deixar de lado as grandes causas climáticas e de aproveitar os nossos recursos para dar um novo fôlego à economia americana e aos americanos.” Em vez de: “Drill, baby, drill.” Isto é, a forma como os dois partidos encaram o sonho americano são complementares. É que não é possível distribuir riqueza sem criar riqueza. E, portanto, os dois partidos estão apostados em falar sobre o sonho americano, mas sob perspetivas de natureza diferente. É que o primeiro é, sobretudo, o democrata, sobre todos os homens serem iguais e terem as mesmas oportunidades. O discurso de Trump é sobre o sucesso que vem do trabalho e da economia. E o mais importante é ser capaz de criar riqueza. Obama fala para a alma, Trump fala para a carteira. Ambos cumprem o sonho americano. Em 2024, como é que votaram as pessoas perante dois partidos cada vez mais distanciados? Os brancos votaram, sobretudo, Trump, as minorias étnicas votaram, sobretudo, Kamala. Os jovens votaram Kamala, a partir dos 45 anos votaram Trump. As mulheres votaram Kamala, os homens votaram Trump. Mas também há surpresas nesta distribuição de votos. Eu não resisto a esta: os mais pobres, os que ganham menos de $50 mil por ano, votaram em Trump. Os mais ricos, os que ganham mais de $100 mil por ano, votaram em Kamala Harris. Isto é, os pobres dão preferência à economia. Os ricos dão preferência às causas. Podem escrever isto também, faz favor, aí no granito pra ficar escrito.
O certo é que o sonho americano tem muito a ver com as aspirações individuais das pessoas, das que foram pra lá e das que querem ir pra lá. Mas, General, há certamente também um sonho coletivo pra América, uma espécie de farol moral que deve presidir ao seu destino. Que ambição é esta?
É verdade. Isto foi ganhando vários contornos ao longo do tempo. Nós, de uma forma genérica, podemos chamar isto o excepcionalismo norte-americano. Isto é a ideia de que os Estados Unidos possuem um conjunto de características de natureza histórica, de natureza moral, que são únicos e que estão predestinados a exercer um especial papel na geopolítica mundial. A primeira pessoa que falou sobre a América ser uma nação especial, nem sequer era americano, era um diplomata francês que viajou nos Estados Unidos, Alexis de Tocqueville, que em meados do século XIX escreveu uma obra fundamental chamada “A Democracia na América”. O olhar europeu sobre o que se estava a passar na Revolução Americana e sobre o que representava a democracia como instrumento de progresso e do sonho americano. Pois, ele refere-se aos Estados Unidos como sendo uma nação especial, mas o termo excepcionalismo não foi inventado por Alexis de Tocqueville. O que é mais interessante, eu não resisto a esta, é que o termo excepcionalismo americano foi inventado pelos comunistas norte-americanos no final dos anos de 1920. Em 1929, o chefe do comunismo nos Estados Unidos da América era Jay Lovestone. E Jay Lovestone, uma espécie de pessoa a querer justificar por que o marxismo não conseguia triunfar nos Estados Unidos, dizia: “O excepcionalismo norte-americano.” Isto é, os Estados Unidos, pela forma como foram criados, articulados e organizados desde o seu princípio, por questões de natureza histórica, escapam à luta marxista das classes sociais. Stalin ficou furioso com Jay Lovestone. Jay Lovestone estava a dizer que havia um país do mundo que escapava às leis marxistas da história. Ficou furioso e repreendeu fortemente Jay Lovestone pela ousadia de saber que se tinha criado um sistema que escapava às leis naturais marxistas da história. Bom, o conceito foi evoluindo, foi sendo agarrado por outras forças, sobretudo hoje em dia pelas forças republicanas, como uma espécie de motivação nacionalista. Portanto, hoje em dia, quando ouvimos falar no excepcionalismo norte-americano, é sobretudo da parte do Partido Republicano. Ora, este excepcionalismo resulta de quê? Resulta de dois ou três fatores que eu rapidamente aqui vou explicar. Por que os Estados Unidos se sentem como uma nação diferente, destinada a uma missão especial? Por causa do seu nascimento inhabitual. Não houve feudalismo na América, não houve aristocracia no início da América, não houve rei no início da América. Aquele movimento que agora hoje em dia vemos de No Kings in America, pois é isso, é o excepcionalismo norte-americano. Os Estados Unidos entraram na história sem terem o peso da história que tinham os outros países, com as segmentações de classes, com as aristocracias, com os poderes distribuídos e atribuídos de geração em geração, com os reis e as monarquias e as suas regras. Portanto, o nascimento inhabitual, a forma como os Estados Unidos nasceram, faz parte deste excepcionalismo norte-americano. Os Estados Unidos nasceram como uma república. Isto é extraordinário.
Diretamente.
Diretamente. Não passaram por fases intermedias que moldaram gerações, pensamentos, doutrinas, etc. Segundo aspecto, a divina providência. A divina providência joga um papel extraordinário, porque isto faz parte daquele ethos inicial de raízes puritanas e protestantes, de que o povo americano foi um povo escolhido pela divina providência. Para quê? Para ser no mundo um exemplo da moral, da retidão, da democracia, dos direitos humanos e, portanto, e é aqui que o excepcionalismo norte-americano entra em força, com o direito e o dever de assegurar a segurança coletiva a nível global. Não apenas uma missão interna, mas uma missão de se constituir com os seus valores, dos direitos à vida, à liberdade e à procura da felicidade, um farol para o resto do mundo.
Durante 250 anos, o sonho americano atraiu para a América milhões de pessoas de todo o mundo. Hoje já não é assim. E os norte-americanos, General, continuam a acreditar no sonho americano ou este sonho está a desvanecer-se assim como uma cortina de fumo?
Assim como uma cortina de fumo. As crianças que nasceram nos Estados Unidos nos anos 40, 92% dessas crianças ganharam mais do que os seus pais. Eram mais ricas do que os seus pais, em 1940. Nos anos 80, já só 50% das crianças foi mais rica do que os seus pais. Houve uma degradação daquilo que era a expectativa de enriquecimento nesta terra da oportunidade. E hoje em dia ainda não sabemos, porque estas gerações ainda não chegaram completamente ao mercado de trabalho, mas há sondagens sobre isto. Cerca de metade da geração, que são os millennials, a geração Z ou a geração X, de acordo com sondagens de 2020, apenas metade deles crê que vai ganhar mais do que os seus pais. Portanto, ao longo dos anos, a terra da oportunidade também foi dando menos oportunidades aos seus habitantes. E é aqui que estamos. Portanto, esta cortina de fumo de que os Estados Unidos garantem o sucesso a quem chega, já não é assim, mas continuam a garantir sucessos inesperados. Acabam de criar o primeiro trilionário do mundo, Elon Musk, um homem também vindo de raízes relativamente modestas.
Esta manhã trazemos para o nosso ponto de mira uma teorização a que poderíamos chamar: vê hoje nos Estados Unidos o que amanhã verás na Europa. General, que teoria é esta? Até tenho medo.
Esta teoria é o resultado de uma semana inteira de estudo sobre o sonho norte-americano. À medida que fui colecionando os temas para o programa sobre o sonho americano, fui também constatando um conjunto de factos que resultaram nesta teoria que está aqui. A teoria tem que ser ainda provada, cá estaremos um dia para eventualmente provar ou desmentir a teoria, mas aqui vai a teoria. A teoria é interessante. A mim parece-me muito interessante esta teoria. A teoria é portanto esta: se quisermos saber o que vai acontecer na Europa daqui a meia dúzia de anos, temos que olhar para o que está a acontecer agora nos Estados Unidos. A Revolução de 1789, a Revolução Francesa, ocorre 13 anos depois da Declaração da Independência, que é a Revolução Norte-Americana. Isto é, a Revolução Norte-Americana chegou à Europa 13 anos depois. Isto é o início da teoria. O que acontece na América vai acontecer na Europa. Temos que dar aqui um tempo de espera. Segunda questão, as grandes revistas norte-americanas, estou a falar da Cosmopolitan de 1886, da Vogue de 1892, de revistas mais simples como o Reader’s Digest, a revista Time, o National Geographic. Estas revistas norte-americanas influenciaram a forma como nós olhávamos para The American Way of Life, em que víamos famílias da classe média com uma casa, com um relvado, com um automóvel, com eletrodomésticos na sua casa. O American Way of Life, através das revistas norte-americanas, chegou também à Europa e influenciou as nossas classes médias. O rock nasceu nos Estados Unidos antes de se vir implantar na Europa. Os temas sociais, como o wokeismo ou o controle de imigração, começaram nos Estados Unidos antes de assentar arraiais na Europa. Depois de protestarmos contra as guerras tarifárias, nós vamos aplicar também guerras tarifárias contra a China. A ser verdade aquilo que se anuncia de que a Volkswagen vai despedir 100 mil trabalhadores na Europa, prepare-se a revolução na Alemanha. Nós vamos ter guerras tarifárias feitas por nós, aquelas mesmas que criticamos aos Estados Unidos, vamos ter que as impor à China se quisermos salvar alguma da indústria europeia. Corolário da minha teoria.
O corolário.
O corolário. A Europa é como os Estados Unidos da América, só que com alguns anos de atraso. Feliz 4 de julho para todos os norte-americanos.
Eu estou aqui muito deprimida, desculpa. João Larrañaga Moreira, obrigada por este “Ponto da Manhã”.
Foi um prazer.
Bom fim de semana.
Bom fim de semana para todos.
Muito obrigada.








