Os alunos deixaram de escrever. É talvez o grande problema.
Há uma imagem que se tornou comum nas salas de aula universitárias.O professor explica um conceito durante quinze minutos. À sua frente, dezenas de computadores abertos. Alguns alunos seguem a apresentação no Moodle. Outros têm o PDF dos slides aberto. Muitos olham para o ecrã. Poucos escrevem.
No final da aula, quase todos saem com exatamente os mesmos ficheiros com que entraram.Mas… o que ficou realmente na memória?Durante décadas, escrever apontamentos era quase uma obrigação. Não porque os professores gostassem de ver cadernos preenchidos, mas porque não existia outra alternativa. Hoje, felizmente, a tecnologia democratizou o acesso ao conhecimento. Os slides, artigos, vídeos, exercícios e bibliografia estão disponíveis a qualquer momento, em qualquer lugar.
Paradoxalmente, quanto mais acessível ficou a informação, menos parece ser processada.Ter acesso ao conhecimento não significa aprender.Aliás, talvez este seja um dos maiores paradoxos da universidade contemporânea: nunca os alunos tiveram tantos recursos disponíveis e, simultaneamente, nunca foi tão frequente encontrar estudantes que chegam aos exames sem conseguirem explicar, com as suas próprias palavras, conceitos que leram várias vezes.A razão é simples.Ler não é o mesmo que pensar.E escrever obriga-nos precisamente a pensar.Quando um estudante escreve um apontamento, não está apenas a copiar palavras. Está a selecionar informação, reorganizar ideias, estabelecer relações entre conceitos, decidir o que é importante e traduzir o discurso do professor para a sua própria linguagem.
É um exercício de construção de conhecimento.Quando apenas assiste à aula esperando que tudo fique gravado na memória — porque os slides estão no Moodle ou porque mais tarde poderá perguntar ao ChatGPT — esse processo cognitivo praticamente desaparece.O cérebro deixa de construir.Passa apenas a consumir.Este fenómeno faz lembrar uma das ideias centrais de Zygmunt Bauman na sua obra Modernidade Líquida. Bauman descreve uma sociedade onde tudo se tornou mais fluido, mais rápido, mais provisório e menos duradouro. O que antes era sólido passou a ser temporário. A estabilidade deu lugar ao movimento permanente.
Talvez o conhecimento também tenha sofrido essa transformação.Antes, aprender exigia tempo, repetição e consolidação. Hoje parece bastar guardar um PDF, adicionar um favorito no browser ou acreditar que a resposta estará sempre disponível online.O conhecimento deixou, em muitos casos, de ser algo que se incorpora para passar a ser algo que simplesmente se consulta.É um conhecimento líquido.Sempre disponível.Nem sempre interiorizado.Bauman afirma que os fluidos não mantêm a forma e estão constantemente prontos a mudar, ao contrário dos sólidos, que resistem ao tempo e conservam a sua estrutura.
Talvez os apontamentos escritos sejam precisamente um mecanismo para transformar conhecimento líquido em conhecimento sólido.Escrever fixa.Obriga a parar.Cria tempo para refletir.E é precisamente esse tempo que parece estar a desaparecer das nossas universidades.Vivemos numa cultura da velocidade. Queremos respostas imediatas, resumos automáticos, vídeos de dois minutos, apresentações simplificadas e, agora, respostas produzidas por Inteligência Artificial em poucos segundos.
Tudo isto tem enorme valor.Utilizo diariamente Inteligência Artificial. Defendo a sua utilização. Ensino os meus alunos a utilizá-la.Mas há uma diferença fundamental entre utilizar Inteligência Artificial para potenciar o pensamento e utilizá-la para substituir o pensamento.A universidade nunca teve como principal missão transmitir informação.Essa função está hoje praticamente resolvida pela internet.A missão da universidade continua a ser formar pessoas capazes de pensar.Porque as empresas não contratam apenas pessoas que sabem encontrar respostas.Precisam de pessoas que saibam fazer as perguntas certas.Que consigam interpretar contextos.Relacionar variáveis.Questionar pressupostos.Construir argumentos.Tomar decisões quando não existe uma resposta evidente.E, sobretudo, resolver problemas inéditos.É precisamente isso que um engenheiro, um gestor, um economista, um jurista ou um profissional de saúde fará ao longo da sua carreira.No mundo real, os problemas raramente aparecem organizados por capítulos.Não vêm acompanhados de quatro opções de resposta.Nem sempre existe internet.Nem sempre haverá tempo para perguntar ao ChatGPT ou ao Claude.E mesmo quando houver, continuará a ser necessário avaliar criticamente a qualidade da resposta recebida.A Inteligência Artificial pode sugerir soluções.Mas continua a ser o ser humano quem deve decidir qual delas faz sentido.Essa capacidade não nasce no primeiro emprego.Treina-se.Durante anos.Em cada aula.Em cada discussão.Em cada apontamento escrito.Existe ainda um aspeto menos visível.Quando um aluno escreve, abranda.E ao abrandar, pensa.Numa época em que tudo parece acontecer em tempo real, talvez a universidade deva assumir também a responsabilidade de criar espaços onde seja permitido pensar devagar.
Não porque seja mais confortável.Mas porque é assim que se desenvolve pensamento crítico.Curiosamente, o próprio Bauman termina Modernidade Líquida com uma ideia simples e poderosa: “A necessidade de pensar é o que nos faz pensar.”Talvez devêssemos recuperá-la.Não para regressar nostalgicamente ao passado.Nem para abandonar as plataformas digitais, o Moodle ou a Inteligência Artificial.Seria um erro.A questão não é escolher entre tecnologia e papel.É perceber que algumas práticas tradicionais continuam a ter um enorme valor precisamente porque obrigam o cérebro a fazer aquilo que nenhuma tecnologia consegue fazer por nós: construir significado.
Talvez esteja na altura de voltarmos a valorizar algo aparentemente simples.Não porque os apontamentos em papel sejam melhores do que os digitais.Mas porque escrever continua a ser uma das formas mais eficazes de aprender a pensar.E talvez esse seja, ainda hoje, o maior propósito de uma universidade.
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