Salazar e o fracasso do integralismo português
A Primeira Guerra Mundial reconfigurou profundamente o mapa político da Europa. Em primeiro lugar, pôs termo à monarquia russa e conduziu à criação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), uma superpotência comunista apostada em difundir a sua ideologia através da conquista e da subversão de outros governos europeus. Em segundo lugar, assinalou o fim do Império Austro-Húngaro e da sua dinastia reinante de longa data, os Habsburgos. O Tratado de Versalhes separou a Áustria e a Hungria em dois Estados parlamentares distintos. Em terceiro lugar, foram criados Estados independentes a partir de antigas províncias austro-húngaras. A Checoslováquia, reunindo povos checos e eslovacos, foi instituída como Estado parlamentar independente. O Reino da Jugoslávia foi criado como monarquia constitucional, agregando a Sérvia, a Croácia, a Bósnia, o Montenegro e a Eslovénia. Apesar de se tratar de uma monarquia, a Constituição estabelecia um parlamento dotado de poderes que limitavam a Coroa. Em quarto lugar, a Polónia independente foi restaurada após mais de um século de sujeição à Alemanha, à Áustria e à Rússia. Também a Polónia se tornou um regime parlamentar. No Outono de 1918, o Kaiser Guilherme da Alemanha abdicou do trono, e a própria monarquia alemã foi abolida em favor de um regime parlamentar conhecido como República de Weimar. Naturalmente, a guerra e a sua conclusão pelo Tratado de Versalhes são realidades muito mais complexas do que isto; mas o que fica exposto constitui o que mais importa para a discussão que se segue.
A ascensão do comunismo na Rússia e dos Estados parlamentares liberais no resto da Europa significou a abolição de antigas monarquias na Rússia, na Alemanha e na Áustria. As que subsistiram eram frágeis, como em Espanha e na Jugoslávia, ou meramente ornamentais, como nos Países Baixos, em Itália, na Dinamarca e na Grã-Bretanha. A França, evidentemente, permanecera parlamentar, continuando a funcionar sob a Terceira República. Para aqueles que procuravam restaurar uma Cristandade de trono e altar, estes resultados foram devastadores. Os reaccionários católicos já não podiam encarar a sua abordagem política como uma restauração. Uma nova Cristandade exigia uma revolução; e uma revolução exige a criação de uma ideologia e de uma política revolucionárias.Os novos sistemas parlamentares favoreceram o surgimento de pequenos partidos de forte coesão ideológica. Embora as constituições destes países variassem entre si, partilhavam, em termos gerais, o mesmo desenho: dificilmente um único partido conseguiria obter maioria. Em vez disso, os partidos tinham de formar coligações, e a vitória dessas coligações traduzia-se no controlo do governo de forma muito mais directa do que, por exemplo, nos sistemas constitucionais americano ou mesmo britânico. Esta configuração institucional permitiu aos reaccionários católicos estabelecer alianças com partidos fascistas seculares, com vista à derrubada dos governos parlamentares e à sua substituição por regimes autoritários de direita. Além disso, os novos governos parlamentares funcionavam, na maior parte dos casos, em Estados com escassa experiência de autogoverno e longas histórias de monarquia absoluta. Mesmo os chamados «liberais» desses Estados compreendiam o governo parlamentar em termos absolutistas, isto é, como um regime em que maiorias liberais podiam fazer o que entendessem, pelo tempo que fosse necessário, para garantir uma vitória permanente. Daí resultaram mudanças políticas radicais, que provocaram agitação popular e desilusão com o governo representativo.O nascimento do integralismo políticoFoi neste contexto político que figuras como Charles Maurras e Carl Schmitt formularam a sua exigência de ditaduras. Eles, e os seus leitores, acreditavam que os regimes parlamentares eram o domínio de agentes obscuros, como judeus e maçons, bem como dos partidos socialistas e comunistas, bem organizados, que avançavam significativamente nos governos europeus do pós-guerra. Os reaccionários católicos começaram a falar da conspiração «judaico-maçónica» ou «judaico-maçónico-bolchevique», atribuindo o comunismo ao judaísmo, tanto pela presença de judeus nesses partidos como pela ascendência judaica do mais influente pensador político comunista, Karl Marx.
Destas condições emergiram os partidos integralistas católicos. O «integralismo» não era apenas uma actualização moderna das teorias reaccionárias e ultramontanas; era também uma causa de organização política contra os regimes parlamentares «liberais». Pretendiam restaurar a primazia da Igreja Católica e recorrer a todo o poder coercivo do Estado para subjugar a dissidência em nome do «bem comum». Para os integralistas católicos dos anos entre guerras, a rejeição do Estado moderno já não era uma opção: as monarquias do passado tinham desaparecido para sempre. Em seu lugar, os Estados autoritários de direita dependiam de um ditador capaz de romper os bloqueios parlamentares e aniquilar os inimigos da Igreja sem se preocupar com os seus chamados «direitos».Os partidos integralistas católicos da Europa e da América Latina tiveram duas grandes influências. A primeira foi Maurras, referido anteriormente, e o seu movimento político, a Action Française. Como a França já vivia sob um regime parlamentar antes da Primeira Guerra Mundial, Maurras foi um dos primeiros, no continente europeu, a compreender como organizar um partido político. A Action Française não possuía uma composição homogénea; era antes uma coligação de católicos de classe média, monárquicos e um número considerável de militares franceses. Embora partilhassem algumas convicções, os interesses destes grupos nem sempre coincidiam O elemento que Maurras utilizou para preservar a unidade entre eles foi a identificação de um inimigo comum: a ameaça judaico-maçónica. O aparecimento do comunismo acrescentou uma nova dimensão a esta teoria conspirativa, transformando-a na ameaça judaico-maçónico-bolchevique. Além disso, a Action Française defendia no seu programa o restabelecimento do catolicismo como elemento estruturante da vida nacional, a abolição da laïcité, a política de secularismo rigoroso instaurada pela Terceira República em 1905, a restauração da monarquia e o fortalecimento das instituições imperiais e militares francesas. Os pós-liberais da época imitariam a Action Française em praticamente todos os aspectos: na formação de coligações de interesses semelhantes, na criação de um bode expiatório através da conspiração judaico-maçónica e na mobilização do descontentamento popular por intermédio dos meios de comunicação de massas.Apesar do apoio do movimento à criação de um Estado católico francês, o Papa Pio XI condenou a Action Française no final de Dezembro de 1926. A condenação foi abrangente: os livros e jornais de Maurras foram incluídos no Index Librorum Prohibitorum e todos os membros do movimento foram privados do acesso aos sacramentos. O Papa Leão XIII apoiara o ralliement dos católicos à participação na Terceira República Francesa, e Pio XI preferiu preservar essa orientação em detrimento de qualquer projecto de restauração monárquica. Embora a maioria dos reaccionários católicos tenha abandonado a Action Française após a condenação, alguns mantiveram intactas as suas convicções e acabariam por encontrar lugar no efémero regime colaboracionista de Vichy, instaurado após a conquista da França por Adolf Hitler. Maurras permaneceu, contudo, uma figura de referência entre muitos dirigentes reaccionários, chegando mesmo a manter uma estreita amizade com António de Oliveira Salazar, futuro ditador de Portugal.A outra grande figura deste período foi Benito Mussolini. Após a sua expulsão do Partido Socialista Italiano, Mussolini fundou um movimento nacionalista que combinava nacionalismo político com políticas económicas de inspiração socialista. Esse movimento, o Partido Nacional Fascista, recorreu a tácticas paramilitares durante a Marcha sobre Roma de 1922 para intimidar o parlamento italiano. A estratégia revelou-se eficaz. O rei Vítor Emanuel III exigiu a demissão do governo em funções para evitar uma escalada da agitação social.
Mussolini estava longe de ser um católico praticante, mas conquistou o apoio dos católicos, tanto em Itália como no estrangeiro, através da negociação dos Pactos de Latrão com a Santa Sé, em 1929. Esses acordos estabeleceram a Cidade do Vaticano como território soberano da Igreja Católica e garantiram uma compensação financeira pela perda dos Estados Pontifícios durante o processo de unificação italiana (1848-1870). Mais ainda, os Pactos de Latrão restabeleceram, na prática, o catolicismo como religião oficial do Estado italiano.Ao mesmo tempo, Mussolini proclamava a morte do liberalismo em toda a parte. Para muitos católicos reaccionários, isso bastava para o tornar um aliado nos objectivos, ainda que não necessariamente nas motivações. Apesar da sua notória irreligiosidade, estas iniciativas consolidaram o apoio católico ao seu regime e inspiraram reaccionários católicos por toda a Europa e América Latina a seguirem um caminho semelhante nos respectivos países. Se o regresso ao passado era impossível, Mussolini oferecia-lhes um modelo para o futuro. Talvez preferissem um ditador genuinamente católico; mas, na falta dessa possibilidade, estavam dispostos a aceitar um aliado pouco devoto desde que este estivesse no poder e defendesse os seus interesses fundamentais.Os discursos de Mussolini e os escritos de Maurras eram pós-liberais no sentido mais literal da expressão. Mussolini apresentava o fascismo como uma forma de pós-liberalismo no ensaio A Doutrina Política e Social do Fascismo, onde escreveu: «A era do Liberalismo, depois de ter acumulado uma infinidade de nós górdios, tentou desfazê-los através do massacre da Guerra Mundial e nunca qualquer religião exigiu dos seus fiéis um sacrifício tão monstruoso. Talvez os deuses liberais estivessem sedentos de sangue? Mas hoje a fé liberal deve fechar as portas dos seus templos desertos, desertos porque os povos do mundo compreenderam que o seu culto,agnóstico no domínio económico e indiferente nos domínios político e moral, conduz, como já conduziu, à ruína inevitável. Acresce que todas as esperanças políticas do presente são anti-liberais, pelo que é supremamente ridículo tentar colocar este único credo fora do julgamento da História, como se a História fosse um campo de caça reservado exclusivamente aos professores do liberalismo, como se o liberalismo constituísse o veredicto final e imutável da civilização.»E, acrescentava, se os templos do liberalismo estavam vazios porque a fé nele morrera, «o Fascismo criou uma fé viva; e que essa fé é extremamente poderosa no espírito dos homens é demonstrado por aqueles que sofreram e morreram por ela». Em suma, para Mussolini, o fascismo era o verdadeiro pós-liberalismo.
Tanto Maurras como Mussolini encaravam as suas ideologias como sucessoras naturais de décadas de desordem associadas aos regimes parlamentares liberais. Naturalmente, uma das principais causas dessa desordem eram precisamente os seus próprios movimentos políticos, e isso não era acidental. Provocar uma crise no funcionamento da política parlamentar criava as condições favoráveis ao aparecimento de uma ditadura; e o ditador ascenderia ao poder com a promessa de restaurar a ordem e o prestígio nacional.Os partidos integralistas católicos rapidamente imitaram Mussolini, frequentemente colaborando directamente com ele e com destacados dirigentes fascistas italianos, e multiplicaram-se em países de maioria católica na Europa continental e na América Latina. Adoptaram tanto as tácticas fascistas de Mussolini como a estratégia de Maurras (bem como de Maistre, Veuillot e Sardà y Salvany) de identificar um inimigo comum capaz de unir interesses sociais diversos e, por vezes, contraditórios.Contudo, estes partidos enfrentavam o mesmo problema dos regimes parlamentares que pretendiam destruir: eram demasiado pequenos para conquistar maiorias estáveis e assegurar um domínio permanente sobre os seus países. Por essa razão, viam-se obrigados a estabelecer alianças com outras forças políticas, geralmente mais próximas dos partidos fascistas seculares, também eles inspirados no modelo mussoliniano. No fim de contas, aquilo que determinava o sucesso não era o parlamento, mas a influência exercida sobre os exércitos.Os resultados obtidos pelos partidos integralistas católicos enquadram-se, de forma geral, em duas categorias. A primeira inclui os casos em que conseguiram instalar um ditador, mas em que este acabou por marginalizar os próprios integralistas dos centros efectivos de poder. A segunda inclui os casos em que conseguiram estabelecer uma ditadura católica na qual conservaram uma influência significativa. Portugal sob Salazar constitui um exemplo da primeira categoria.
Portugal: O Integralismo e a Ascensão de SalazarA Nova República arrastava-se penosamente, apesar do seu fracasso evidente. Depois de os industriais portugueses terem procurado proteger-se do aumento da carga fiscal, a instabilidade política reacendeu-se com a aprovação, no parlamento, de uma moção de desconfiança contra o governo de Álvaro de Castro. Este foi substituído por um executivo chefiado por Vitorino Guimarães. Guimarães pouco diferia de Castro, e os integralistas mostraram-se profundamente insatisfeitos com a mudança. Em consequência, passaram a colaborar com facções fascistas e monárquicas, articulando-se com oficiais do Exército simpatizantes das suas ideias para preparar um golpe de Estado em 1925. A tentativa fracassou e custou a vida a catorze pessoas. A seguinte seria bem-sucedida.Em 28 de Maio de 1926, o general português Manuel Gomes da Costa derrubou a República e instaurou uma ditadura militar. Os principais protagonistas do golpe foram oficiais do Exército, mas esses mesmos oficiais mantinham ligações estreitas ao movimento integralista.Os integralistas haviam consolidado posições no sistema educativo português, canalizando jovens simpatizantes para a carreira militar. Através da sua imprensa, mantinham viva a fidelidade ideológica desses jovens. Como explica Douglas L. Wheeler, na sua obra Republican Portugal: A Political History, 1910-1926, o golpe representou «essencialmente uma conspiração de oficiais integralistas do Exército e da Marinha», que planeavam reformar o governo utilizando a «espada» das forças armadas. Este grupo pretendia restringir profundamente as liberdades civis, incluindo o encerramento do parlamento e a imposição de censura, embora existissem divergências internas quanto à natureza exacta da futura ditadura militar.Entretanto, os integralistas operavam a partir de Lisboa através de uma junta composta por um núcleo secreto de oficiais, apoiado por uma estrutura pública e por jovens militantes encarregados da propaganda. O objectivo era assegurar a ascensão de um ditador aceitável para o movimento, acabando a escolha por recair sobre Gomes da Costa. Todavia, este não permaneceu no poder sequer durante dois meses. A junta utilizou-o para neutralizar os republicanos e afastou-o antes que pudesse consolidar uma base de apoio própria, em parte devido às dúvidas quanto ao seu verdadeiro compromisso com o integralismo.
No Outono de 1926, Portugal encontrava-se politicamente à beira da falência institucional. Gomes da Costa foi substituído por António Óscar de Fragoso Carmona, general e, ironicamente, maçon. Carmona conduziu a ditadura de forma hesitante até encontrar em António de Oliveira Salazar, um burocrata dotado de extraordinária competência administrativa, alguém capaz de assegurar o funcionamento quotidiano do Estado. Em pouco tempo, Salazar tornou-se o verdadeiro detentor do poder, razão pela qual Carmona acabou por assinar legislação proibindo a maçonaria em Portugal.Salazar e a promessa integralistaAntes de iniciar a sua ascensão política, Salazar fora professor universitário e, tal como o seu amigo Maurras, encontrara inspiração em pensadores reaccionários como Auguste Comte e Gustave Le Bon. Segundo Tom Gallagher, na obra Salazar: The Dictator Who Refused to Die, Salazar confessou ao futuro cardeal-patriarca de Lisboa, Manuel Gonçalves Cerejeira, que aspirava a ser «o primeiro-ministro de um monarca absoluto». As tentativas da esquerda para o afastar da universidade fracassaram, e ele tornou-se uma figura cada vez mais popular entre os católicos portugueses politicamente activos.Apesar da influência de Maurras, Salazar procurou cuidadosamente distanciar-se da teoria da conspiração judaico-maçónica. Quanto ao Holocausto, alguns dos seus defensores sustentam que ajudou os judeus perseguidos, mas o número de refugiados efectivamente admitidos em Portugal rondou apenas os três mil. O historiador Avraham Milgram, em Portugal, Salazar e os Judeus, argumenta que Salazar encarava o destino dos judeus com uma fria indiferença.A sua primeira incursão na política ocorreu em 1921, quando concorreu como deputado pelo Centro Católico Português (CCP). O partido obteve resultados suficientes para que Salazar pudesse ocupar um lugar parlamentar representando Guimarães. Recebeu, nessa altura, correspondência encorajadora da hierarquia católica.A sua primeira formulação consistente de princípios políticos surgiu numa conferência do CCP realizada em 1922. Segundo Gallagher, Salazar defendeu então «a ideia de que toda a autoridade emana de Deus e não de qualquer forma de contrato social. Tratava-se de uma ordem social cristã assente na hierarquia, destinada em última instância a garantir o bem comum, do qual derivava toda a autoridade».Salazar apoiou o golpe de 1926 e, após alguma hesitação inicial, aceitou o cargo de ministro das Finanças. Em 1928, ele e Carmona haviam consolidado a sua posição contra os rivais políticos, e Salazar começara a integrar integralistas em funções de relevo, como Marcello Caetano e Pedro Teotónio Pereira, que passaram a trabalhar sob a sua direcção.Em 1930, fundou a União Nacional (UN), concebida como uma espécie de anti-partido, hostil à democracia e favorável àquilo que designava como «a necessária hierarquia de valores numa sociedade bem ordenada». Conseguiu tudo isto graças ao rigor com que geriu as finanças públicas e à recuperação da estabilidade económica do país.
Parecia, então, que o caminho estava aberto para a instauração de um regime integralista, e as suas próprias palavras pareciam apontar nesse sentido. Contudo, aquilo que os integralistas portugueses receberam foi a Constituição de 1933 e o Estado Novo.A ruptura entre Salazar e os integralistasComo observa Gallagher, «os Integralistas ficaram profundamente desapontados e afastaram-se de Salazar. Longe de eliminar a herança liberal que, na sua perspectiva, comprometera a evolução de Portugal durante mais de um século, consideravam que tinham sido feitas demasiadas concessões ao parlamentarismo numa época em que este se encontrava em declínio noutros países».Uma das razões para esse descontentamento foi a manutenção da Assembleia Nacional, ainda que privada de grande parte dos seus poderes efectivos. O órgão limitava-se essencialmente a formular recomendações que Salazar poderia ou não adoptar. Na maioria das vezes, recusava-se a fazê-lo, desvalorizando o seu trabalho com uma expressão lapidar: «São palavras!», sobretudo quando comparado com as reuniões regulares do Conselho de Ministros, cujos membros ele próprio nomeava.A Constituição de 1933 consagrava direitos como a liberdade de expressão, de educação, de reunião, de associação, de petição e até o direito de resistência contra ordens que violassem direitos fundamentais. Todavia, estabelecia igualmente que tais direitos não poderiam servir para promover «a perversão da opinião pública», incumbindo ao Estado a tarefa de «salvaguardar a integridade moral dos cidadãos». Para os integralistas, estas limitações estavam muito longe do que desejavam.Salazar apresentou igualmente uma visão corporativa da economia portuguesa, que entendia inspirar-se nas encíclicas Rerum Novarum (1891), de Leão XIII, e Quadragesimo Anno (1931), de Pio XI. Contudo, na prática, o Estado Novo nunca chegou a concretizar plenamente esse modelo. Salazar receava que um sistema corporativo demasiado desenvolvido pudesse facilmente degenerar em corrupção. Por isso, o corporativismo permaneceu sobretudo um ideal programático, uma intenção política mais do que de realização efectiva.O golpe final nas aspirações do integralismo português surgiu com as negociações da Concordata entre Portugal e a Santa Sé, iniciadas em 1936. Embora grande parte do catolicismo rural português permanecesse profundamente fervoroso, alimentado pelas aparições marianas de Fátima em 1917, «uma parte significativa do Portugal urbano continuava a possuir uma visão secular da sociedade», observa Gallagher. Por essa razão, «em público, Salazar manteve-se distante do culto de Fátima e permitiu que as negociações se arrastassem durante quatro anos».Salazar compreendia que Portugal não podia transformar-se num Estado confessional católico sem correr o risco de unir contra si sectores diversos da oposição. Consequentemente, opôs-se a essa solução. Recusou igualmente abolir o casamento civil e insistiu em que os casamentos católicos permanecessem registados pelo Estado. Negou à Igreja isenções fiscais e compensações pelos prejuízos sofridos durante os anos da República. Opôs-se ainda à criação de sindicatos e organizações laborais confessionais.As únicas concessões que o núncio apostólico, arcebispo Pietro Ciriaci, conseguiu obter incluíram a obrigatoriedade do ensino religioso, a proibição do divórcio para os casamentos católicos, permanecendo este legal para os casamentos civis, algum financiamento para a construção de novas igrejas e apoio financeiro às missões católicas nas colónias portuguesas.Sem instrumentos de pressão eficazes sobre Salazar, o Vaticano acabou por aceitar estas condições. Salazar, por sua vez, interpretou posteriormente os termos da Concordata de acordo com aquilo que melhor preservava a sua posição no topo do poder político português.
Segundo Gallagher, após a conclusão das negociações, em 1940, Ciriaci chegou a descrever Salazar como uma «encarnação demoníaca». Nesse mesmo ano, Salazar enviou para o exílio Hipólito Raposo, uma das figuras mais destacadas do integralismo português.Salazar ascendera ao poder apoiado nas esperanças dos integralistas e, depois de assegurar o seu apoio, utilizara essas expectativas como trampolim para entrar na junta militar. Contudo, uma vez consolidado no poder, o seu verdadeiro sustentáculo passou a ser o Exército. Os integralistas deixaram de lhe ser indispensáveis, excepto enquanto reserva de quadros qualificados para a administração do regime.Quando a sua posição de ditador se tornou segura, os integralistas passaram mesmo a constituir um problema. Muitos dos homens influentes do governo e das elites da capital eram católicos moderados ou simplesmente seculares. Por isso, Salazar afastou progressivamente os integralistas, deixando-os disputar influência dentro da União Nacional com outras correntes da direita portuguesa.Posteriormente, perseguiu os partidos fascistas portugueses para evitar ameaças vindas da sua direita política e proibiu os comunistas para eliminar ameaças provenientes da esquerda. Em 1935, utilizou a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE), a polícia política do regime, para perseguir o dirigente do Partido Comunista Português, que foi preso e enviado para Cabo Verde sem julgamento, aí permanecendo até morrer em 1942.Mais tarde, a PVDE evoluiria para a Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE), que se tornou o principal instrumento de repressão política do salazarismo. Por seu intermédio, Salazar neutralizou adversários de múltiplas tendências. Mandou prender o seu antigo colaborador Henrique Galvão por este exigir um tratamento mais humano das populações indígenas do Ultramar Português. Em 1958, a PIDE tentou deter Humberto Delgado, antigo apoiante do regime que se transformara num dos seus mais ferozes críticos. Anos depois, em 1965, Delgado seria assassinado por agentes da polícia política.A PIDE perseguiu igualmente as Testemunhas de Jeová e foi responsável pela morte de José Dias Coelho, em 1961, devido à sua militância comunista.Entre os muitos defeitos de Salazar, dificilmente se poderá apontar a incompetência, sobretudo quando comparado com as quase três décadas de assassinatos, revoluções e golpes de Estado que antecederam a sua chegada ao poder. Também não foi pessoalmente corrupto. Levou uma vida pessoal austera e discreta pouco habitual num ditador.As suas falhas residiram sobretudo na forma como enfrentou qualquer resistência ao seu domínio. Para garantir a fidelidade dos militares, esmagou o pluralismo partidário, esvaziou a autoridade parlamentar e ignorou repetidamente as pretensões da Igreja.O Estado Novo de 1933 não reservava qualquer papel relevante à política local e neutralizava a vida democrática através da limitação das funções do parlamento. Em vez de permitir que os desacordos públicos fossem resolvidos pelo debate político, Salazar preferiu recorrer à polícia política, que encarcerava ou eliminava os seus opositores.Curiosamente, ao avaliar a realidade religiosa portuguesa, Salazar concluiu que a sociedade era demasiado plural para permitir a implementação do integralismo. Em vez de procurar subordinar o Estado à Igreja, preferiu afastá-la de todas as áreas que pudessem representar uma ameaça ao seu poder.
A Igreja teve pouca margem para resistir. O cardeal Cerejeira, amigo de Salazar, aceitou inicialmente essa situação de bom grado, embora essa amizade se tenha deteriorado progressivamente ao longo dos anos.Salazar compreendeu os problemas que o integralismo poderia criar para a estabilidade do regime e acabou por abandonar o integralismo propriamente dito em favor de uma forma mais convencional de autoritarismo de direita, revestido de estética católica e acompanhado por algumas concessões flexíveis à Igreja.Após a morte de Salazar, em 1970, Portugal iniciou rapidamente a sua transição para uma democracia liberal, sistema político que continua a vigorar até aos nossos dias. Entretanto, a marginalização da Igreja na sociedade portuguesa continuou a acentuar-se, acompanhando o declínio da prática religiosa e da adesão à fé.O seu pós-liberalismo falhou.Nota editorial: Este texto é adaptado do livro de publicação iminente, Why Liberalism Failed, de James M. Patterson e Thomas D. Howes, editado pelo Acton Institute. Tradução do artigo original em Inglês pela Oficina da Liberdade.James M. Patterson: Professor Associado de Assuntos Públicos na Baker School of Public Policy and Public Affairs da University of Tennessee. É igualmente presidente da Ciceronian Society e colaborador da Law & Liberty.Thomas D. Howes: Professor de Política na Princeton University, editor-chefe da The Vital Center e fundador do Reagan Caucus.Os pontos de vista expressos pelos autores dos artigos publicados nesta coluna poderão não ser subscritos na íntegra pela totalidade dos membros da Oficina da Liberdade e não reflectem necessariamente uma posição da Oficina da Liberdade sobre os temas tratados. Apesar de terem uma maneira comum de ver o Estado, que querem pequeno, e o mundo, que querem livre, os membros da Oficina da Liberdade e os seus autores convidados nem sempre concordam, porém, na melhor forma de lá chegar.
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