A "bomba-relógio" da imperial fresca nos dias de calor
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Este é o “Tratar da Saúde” da Rádio Observador, sempre com a Dra. Vanessa Mendes, diretora clínica dos Centros de Saúde CUF. Doutora, bom dia, bem-vinda.
Bom dia, obrigada.
Uma esplanada, uma tarde de calor e uma imperial bem fresquinha, para muitos portugueses parece o cenário perfeito de verão. Mas será que aquela bebida, que sabe tão bem para refrescar, pode, afinal, aumentar o risco de problemas de saúde? Dra. Vanessa, por que beber álcool nos dias de maior calor, como estes que estamos a viver, pode ser mais perigoso do que imaginamos?
É uma ideia muito comum pensar que uma cerveja bem fresca ajuda a hidratar. Mas, na verdade, o que acontece é precisamente o contrário. O álcool pode ter um efeito diurético, ou seja, aumenta a perda de água através da urina. Ao mesmo tempo, nos dias quentes, já perdemos mais líquidos através da transpiração e, portanto, aqui o resultado é um efeito duplo de maior risco de desidratação. E quanto maior for o consumo de álcool, maior tende a ser esse risco.
E além da desidratação, há outros riscos?
Sim, claro. O álcool provoca também vasodilatação, ou seja, dilata os vasos sanguíneos. Inicialmente, até podemos sentir uma sensação de frescura, mas essa sensação é enganadora. Na realidade, o nosso organismo perde calor mais rapidamente e torna-se menos eficaz a tentar regular a temperatura corporal. Além disso, pode surgir uma diminuição da pressão arterial, aumentando o risco de tonturas, de quedas e até desmaios. Estamos aqui a falar, por exemplo, de idosos ou pessoas com doenças cardiovasculares.
E Dra. Vanessa, o álcool também interfere com a forma como percebemos o calor, como o sentimos?
Sim, interfere. O álcool diminui a capacidade de reconhecer os primeiros sinais de desidratação e até de exaustão pelo calor. Além disso, reduz o tempo de reação e a capacidade de decisão, como tão bem conhecemos. E é por isso que aumenta também o risco de acidentes. Vemos também alguns afogamentos associados ao consumo de álcool e até traumatismos durante este período do verão. Ou seja, o problema não é apenas o calor, é também o efeito que o álcool pode ter.
Então devemos evitar completamente aquela imperial fresquinha na esplanada nestes dias quentes?
Não necessariamente, porque todos nós sabemos reconhecer.
É o equilíbrio, não é?
Exatamente. Ou seja, aqui o importante é mesmo a quantidade e o próprio contexto. Consumir álcool com moderação, acompanhado de uma boa ingestão de água e evitando as horas de maior calor, reduz significativamente o risco de haver algum efeito. Também é importante nunca utilizar bebidas alcoólicas como forma de matar a sede. E muitas vezes, há esta ideia de que vamos beber uma cervejinha para tentar tirarmos a sede. Isso não é bem assim. E portanto, a água é, sem dúvida, o nosso melhor amigo nestes dias de maior calor.
E certamente que há pessoas que devem ter uma atenção especial, cuidados redobrados.
Sim. Como já referi, por exemplo, os idosos, as pessoas com doenças cardiovasculares, também quem toma medicamentos para a tensão arterial. E aqui falamos dos diuréticos, que podem também haver uma diminuição da pressão arterial. E também quem pratica exercício físico ao ar livre. Nestes grupos, o risco de desidratação e de complicações é naturalmente maior nestes dias de maior calor.
Portanto, Dra. Vanessa, para resumir, aquela imperial bem fresca pode saber muito bem, mas não substitui a água.
Isso mesmo. Não podemos substituir a água de forma alguma. O álcool faz parte do convívio para muitas pessoas, mas no verão devemos consumi-lo com ainda mais prudência, porque o calor e o álcool potenciam-se mutuamente e a melhor forma de prevenir problemas é muito simples: é alternar cada bebida alcoólica com água, por exemplo, evitar o consumo nas horas de maior calor e nunca ignorar sinais como tonturas, fraqueza, alguma náusea e uma sede intensa. Isso deve ser reconhecido e tentarmos fazer algo de imediato.
Dra. Vanessa Mendes, muito obrigada por mais um “Tratar da Saúde”. Até amanhã.
Até amanhã. Obrigada.









