CIÊNCIA

Turismo circular: o futuro da hotelaria em Portugal


Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Seja bem-vindo ao “Vozes Circulares”, é o podcast do Observador em parceria com a associação Smart Waste Portugal, onde exploramos os desafios e as soluções que estão a transformar a sustentabilidade e a economia circular em Portugal. O turismo é um dos motores da economia nacional e em 2025, Portugal recebeu mais de 32 milhões de hóspedes, registou mais de 82 milhões de dormidas. São números impressionantes que trazem também uma responsabilidade acrescida. Como tornar este setor mais sustentável sem comprometer a qualidade da experiência? É precisamente esse o tema deste episódio de “Vozes Circulares”, que conta com o apoio do Pestana Hotel Group. Conosco estão hoje Luís Castanheira Lopes, administrador do Grupo Pestana, e também a Cristina Siza Vieira, CEO da Associação da Hotelaria de Portugal. Muito obrigado aos dois por terem vindo à Rádio Observador. Luís, o turismo tem hoje um peso grande na economia portuguesa. Isso quer dizer que tem também uma grande responsabilidade em tornar estes grupos hoteleiros numa transição mais fácil para modelos que sejam cada vez mais sustentáveis, mais circulares.
Obrigado, Nelson. Boa tarde à Cristina e aos nossos ouvintes. Sim, temos essa responsabilidade e, no que concerne ao Grupo Pestana, estamos a assumi-la. Desde logo, contribuindo para a revitalização das baixas das cidades. Temos feito um grande trabalho no investimento de recuperação de edifícios nas baixas de várias cidades, de Lisboa, por exemplo, em Alfama, no Porto, mas também em Madrid, em Amsterdã e outros locais onde o Grupo Pestana está. Por outro lado, e no contexto em que nos traz hoje aqui, temos desenvolvido produtos turísticos diferenciados e ajustados a esta transição em que nos encontramos. Por exemplo, o Grupo Pestana desenvolveu e tem em execução o projeto do Pestana Troia Eco-Resort e também, só para dar um exemplo recente, abriu este mês um hotel em Porto Santo, o Pestana Dunas, com um contexto totalmente sustentável de ligação direta ao meio ambiente onde se encontra.
Já vamos falar um pouco melhor sobre esses exemplos práticos que deu. Cristina Siza Vieira, do ponto de vista da Associação da Hotelaria de Portugal, quais considera que são atualmente os maiores edifícios que os hotéis enfrentam nesta transição?
Olá a todos, muito obrigada à Smart Waste Portugal, de quem somos parceiros, a Associação da Hotelaria de Portugal, já há uns anos a esta parte, ao meu amigo e colega Luís Castanheira Lopes por nos ter trazido aqui e obviamente ao Observador por nos acolher em sua casa. Eu diria que é uma mesa com quatro pés. Um primeiro que é um desafio de investimento, isto que um grande grupo hoteleiro como o Pestana faz, eu diria que mesmo os pequenos querem fazer mais, mas de facto é necessário haver recursos, e depois também já podemos falar um pouco de recursos financeiros e outros. Mas o primeiro é um desafio de investimento, um segundo de operação, implica mudar processos, e processos muitas vezes diários, mudar equipas, mudar a forma como se olha para a operação e perceber onde é que poderemos efetivamente intervir. E reconhecimento, um terceiro pilar, diria eu, ou seja, não apenas do the walk, e também há muito que já fazemos, mas talk the walk. Portanto, comunicar para que haja reconhecimento por parte dos nossos clientes e finalmente a comunidade, porque nós vivemos num ecossistema, a própria economia circular é um ecossistema, e portanto não conseguimos fazer a transição só por si. Precisamos de outros que estão conosco neste trabalho, desde os fornecedores locais a toda a cadeia de abastecimentos, que é muito grande, da hotelaria. E portanto, estes quatro diria que são os grandes desafios. Não obstante, toda a gente querer fazer mais, porque é evidente, e já se percebeu também, vantagens económicas, e se não as há, então também vale a pena.
E de competitividade também.
E de competitividade. Exatamente, são os dois.
Muito bem. Luís Castanheira Lopes, quando falamos de sustentabilidade na hotelaria, imagino, há aqui muitas áreas que entram em linha de conta. A energia, a água, os resíduos, a alimentação, as compras e depois a experiência do cliente que tem de se manter. Onde sente que é possível gerar mais impacto ou em qual destas áreas ainda estamos um pouco atrás e poderemos fazer mais?
A primeira situação a que eu me queria referir é a experiência do cliente, para utilizar a expressão feliz que adotou. Sim, a experiência do cliente é sagrada, nós queremos salvaguardá-la. Depois, a questão essencial do nosso ponto de vista é a mentalidade, é a criação de um contexto para estarmos disponíveis para adotarmos as boas práticas corretas. A energia mais limpa é aquela que não consumimos. A melhor água é aquela que não gastamos, se pudermos não a gastar, evidentemente. Eu salvaguardei primeiro a experiência do cliente. Mas não faz sentido nós termos luzes acesas em salas onde não está ninguém. Não faz sentido nós termos ares condicionados ligados com janelas abertas. Portanto, antes de mais nada, estamos aqui numa matéria de mentalidade, de boa prática, de reduzir e só gastar aquilo que realmente precisarmos. Esse esforço que está a ser feito tem vindo a dar resultados Vamos mantê-lo e sempre medindo aquilo que foi a nossa prática anterior com a nossa prática atual e também para saber qual é o nosso trajeto, qual é a viagem que estamos a fazer. E, por outro lado, comparar com as boas práticas internacionais, porque já outras pessoas, outras entidades, noutros locais estão a fazer isso. Então é bom que nós meçamos o que estamos a fazer e nos comparemos com essas boas práticas.
Cristina, a hotelaria portuguesa é muito diversa, já aludiu um pouco a isso na resposta que me deu há instantes, desde pequenos grupos até unidades que são independentes. Como é que ajudamos todas estas empresas a avançarem o mais possível ao mesmo ritmo? É um desafio.
Pronto, é verdade isso que diz.
Os recursos não são iguais.
Os recursos não são iguais. E a Associação da Hotelaria de Portugal tem quase 1000 associados, 990 associados. O grupo Pestana é um grupo muito grande, tal como os grupos Vila Galé, Sana, Portobay, etc. E costumamos dizer que com grandes poderes vêm grandes responsabilidades, mas depois há todos os milhares de unidades independentes e até temos também muitos grupos internacionais com práticas diversas. E de facto temos, a meu ver, que ter soluções que sejam simultaneamente escaláveis, simples e adaptáveis. Eu acho que este ponto que o Luís Castanheira Lopes referiu da experiência do cliente é fundamental, porque se de facto o primeiro R dos três Rs é reduzir, a verdade é que muitas vezes nós fazemos muito mais do que o cliente percebe. Portanto, eu acrescentaria quase a estes Rs um de reconhecimento. E esta questão de termos perante o cliente o reconhecimento é a tal coisa, nós fazemos muito mais do que os clientes imaginam, mas depois comunicamos, há muitos certificados, relatórios ISGs, reduções de consumos, trabalhos com produtores locais, reutilização de equipamentos, mas nem sempre o cliente percebe, nem sempre está disposto a pagar mais por isso e comunicar sem cair no greenwashing é complicado. Ou seja, os pequenos têm este problema. Temos que comunicar, por exemplo, estou no meio da Serra da Estrela, em vez de ter Camembert ao pequeno-almoço, tenho queijos da serra, que tenho que ir comprar nos fornecedores locais. E portanto, esta vivência com a comunidade, se eu tenho clientes que olham e dizem: “Não, mas por que eu não tenho salmão ao pequeno-almoço?” Ou “por que eu não tenho Camembert ao pequeno-almoço?” Ou o meu fornecedor de manteiga, às vezes em grupos internacionais, é uma marca internacional e não uma marca nacional. Portanto, esta necessidade de que os pequenos, os grandes caminhem todos, de facto exige soluções simples, exige pensar sobre o que se está a fazer, comunicar bem. E a Associação de Hotelaria de Portugal tem aqui um papel, juntamente com o Turismo de Portugal, etc, de descomplicar, por um lado. Depois temos também um programa de responsabilidade social corporativa e de sustentabilidade ambiental, já posso daqui a pouco falar um pouco nele, onde temos muitos hotéis envolvidos. É um projeto com reconhecimento internacional também, que passa por doações de bens e equipamentos usados da hotelaria, mas também por reciclagem desde óleos alimentares, a sabonetes, a têxtil, a equipamentos elétricos e eletrónicos, e doações também a IPSS. Temos quase 200 IPSS no circuito. Portanto, esta questão deste reconhecimento também de uma forma diferente de ser comunidade e de estar presente, é algo que os pequenos hotéis têm valorizado muito. E esta nossa presença, o give back à comunidade e mostrar que sim, somos um, como há pouco o Nelson dizia, começando por aí, um setor fundamental da nossa economia e muito transversal, mas também temos este efeito direto na comunidade. E os clientes reconhecerem isto é muito também um investimento de tempo, de recursos humanos, de capacidade de comunicar, sem cair no greenwashing, mas também sem deixar de destacar o que fazemos.
Luís, fazia-lhe quase duas perguntas numa só, das que tinha aqui preparado. A redução dos plásticos descartáveis é uma das mudanças mais visíveis neste setor. Gostaria que me dissesse que medidas foram implementadas nesta área dos plásticos no grupo Pestana, mas também aqui juntar a questão do desperdício alimentar, que continua a ser um grande desafio da hotelaria. É possível reduzir desperdícios não afetando, claro, a experiência dos clientes?
Sim, senhor. Eu gostava de, em meio minuto, explicar que nós temos-
Meio minuto. Força.
Um grupo que é o Planet Guest, que é um conceito agregador do conjunto de atividades de sustentabilidade que desenvolvemos na empresa. Planet Guest, porque nós estamos na hotelaria e queremos dizer que somos hóspedes do planeta. Nós não somos os donos. Nós somos apenas os utilizadores desta época e cabe-nos a nós deixar o planeta melhor do que aquele que encontramos às gerações futuras. Isso em várias áreas, do ambiente às pessoas, às comunidades locais. Há bocado a Cristina falou aqui do programa da HP, fantástico. Nós somos associados na HP, revemo-nos nesta cultura e neste trajeto. Nós próprios temos uma situação em que replicamos, de certo modo, estas situações. Temos um grande impacto nas comunidades locais. Se nós estamos naquelas comunidades é porque é do nosso interesse, então nós devemos devolver às comunidades locais uma parte do resultado que aí obtemos. É essa a lógica. Bom, relativamente às duas perguntas que me colocou, sim, porque inovação no turismo há inovação. Não há só inovação nos grandes laboratórios internacionais de engenharia. Não, em todas as áreas, e concretamente no turismo, há inovação. E é possível fazer as coisas de maneira diferente, pensando um bocadinho. E então, de repente, nós começamos a ver nas reuniões, não fomos só nós, foi muita gente. As garrafas deixaram de ser de plástico, são garrafas de vidro, que se põe, que se serve Mas antigamente não era assim. Mudámos. Deixou de haver palhinhas para beber os sumos, deixou de haver utilização de copos de utilização única, de uma vez só. Não, até tivemos uns colegas que acabaram, por terem ainda um bocadinho mais de imaginação, ofereceram uma caneca com o nome, portanto personalizada, a cada um dos colegas. Então cada vez que eu bebo, eu vendo a sua própria caneca. Não era de cada vez bebe um copo e atira no lixo. Há que mudar práticas e não mudámos nada em termos de consumos, mudámos foi em termos dos materiais usados. Relativamente ao desperdício alimentar, o desperdício alimentar é essencial, desde logo, por razões económicas e razões éticas, mais do que, antes ainda da questão da sustentabilidade, nós não devemos gastar aquilo de que não precisamos. É uma questão ética, é um imperativo. Depois, do ponto de vista económico, eu não posso gastar mais do que aquilo que devo. E, portanto, como é que começa por se resolver? Com fichas na alimentação, nas cozinhas, haver fichas técnicas corretas para a composição dos pratos. Sempre, note bem, salvaguardando a experiência do cliente. Nós não podemos lá pôr menos carne ou menos vegetais, ou o que seja. Não, têm que ser as fichas técnicas corretas. E essa educação para o combate ao desperdício é um trabalho que tem que se fazer e está a ser feito. Por outro lado, é verdade que há sempre a possibilidade de haver excesso. Então nós temos vindo a adotar práticas, não somos só nós, felizmente, isto é uma cultura que vai sendo disseminada pelo setor, tipo “too good to go”. Já todos nós ouvimos falar do “too good to go”, que é comida boa, que de outra maneira ia ser desperdício e que não é, é vendido e, portanto, ainda tem aqui um efeito económico, porque vende-se a sobra de uma outra refeição, mas que é sobra de uma e é matéria-prima da seguinte. Isto é que é a economia circular. Estamos aqui num contexto circular, aí está a economia circular. E finalmente, mesmo quando não há uma solução de venda, não há uma solução comercial, há ainda uma solução de doação, porque há na nossa comunidade quem precise daquelas refeições e nós, através de Refood ou de soluções semelhantes nas diferentes comunidades locais, acabamos por atribuir aquilo que sobrou, mas que não se desperdiçou.
Queria deixar ainda uma última pergunta para a Cristina, mas em 30 segundos, Luís, consegue dizer que aprendizagens tirou o Pestana Hotel Group de projetos como o Pestana Tróia Eco-Resort, que fez um esforço e é frequentemente usado como um exemplo de integração entre turismo e sustentabilidade, muito rapidamente?
A primeira palavra que eu diria sobre essa matéria é respeito. Respeito pela natureza, respeito pelo mar, pela floresta, pelas comunidades locais onde estamos. Respeito. E depois também respeito pela lei, porque nós cumprimos escrupulosamente a lei, mesmo numa situação de grande complexidade como é aquela que tem aquela componente ambiental, com a qual nós concordamos. Nós achamos que deve haver. A segunda coisa é: na construção do resort, adotámos soluções não invasivas, não em altura.
Em termos dos materiais que foram escolhidos.
Os materiais são madeiras, as cores são ajustadas ao contexto. Nós estamos lá no meio do resort e às vezes quase não se veem as casas, porque elas estão no meio dos pinheiros. Os jardins não são jardins tropicais, não, são jardins ajustados àquela realidade concreta, com plantas autóctones e, portanto, habituadas a sobreviver naquele contexto, o que também dá menos consumo de água. E é essa aprendizagem que nós temos, que nos levou depois a outras soluções, mas que essa tem sido um sucesso.
Cristina, imagino que a Associação de Hotelaria de Portugal ajude a criar estas pontes. Falou no início entre fornecedores, os municípios, os operadores que estão neste setor, mas uma palavra final e muito rápida para como é que pode a sustentabilidade também deixar de ser vista como uma obrigação e ser encarada como uma vantagem competitiva para os hotéis e para o próprio destino Portugal?
Pois, ainda há bastante a fazer. Ou seja, embora a questão do desperdício alimentar e, por exemplo, da eficiência energética já sejam muito assumidas, a questão ainda das compras sustentáveis, a reutilização de materiais, gestão de água e sobretudo a medição de resultados, como o Peter Drucker dizia, o que não se pode medir, não se pode gerir, é fundamental aqui. E consideramos que efetivamente aqui a Associação de Hotelaria de Portugal pode ajudar a completar este circuito. É evidente que há, como eu já tinha dito, desafios financeiros, mas também há desafios de tempo, de muitas destas unidades terem que dedicar alguém a estas tarefas, de recursos humanos e, apesar do que o Luís dizia, à excessiva complexidade regulatória. Portanto, há uma outra parte, que o Luís falou muito nisto, indiretamente, que é governança. Se é verdade que nos hábitos do dia a dia e da equipa, e nós notamos muito isso desde governantas de andares, etc, que na equipa têm princípios de economia e poupança de recursos, é preciso que ao nível da governança e, portanto, top down, de cima para baixo, também haja muito esta orientação. As espécies autóctones, as compras locais e depois a equipa ir atrás disto também. Portanto, eu acho que é um caminho que se está a fazer. Portugal tem boas práticas, digamos assim. Ainda há para fazer, sobretudo, a meu ver, ao nível da medição de resultados.
Muito bem, muito obrigado, Luís Castanheira Lopes, Cristina Siza Vieira, por esta conversa. O turismo é um dos setores mais importantes da economia portuguesa e, como vimos hoje, a sua competitividade também futura passa por essa capacidade de reduzir desperdícios, otimizar recursos, integrar princípios da economia circular. Este foi o Vozes Circulares, episódio sete, podcast do Observador em parceria com a Associação Smart Waste Portugal, que contou neste episódio com o apoio do Pestana Hotel Group.

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