TECNOLOGIA

Pesquisa usa transplante de fezes para tentar reduzir alergias

Um transplante de bactérias intestinais ajudou seis pessoas com alergia grave a amendoim a tolerar pequenas quantidades do alimento. O resultado, publicado na revista Science Translational Medicine, pode abrir uma nova possibilidade de tratamento para alergias alimentares.Continua após a publicidadeA pesquisa é a primeira evidência em humanos de que a microbiota intestinal pode ser usada para tentar reduzir reações alérgicas.
Cápsulas com bactérias de doadores saudáveis foram usadas no estudo que investigou uma nova abordagem contra alergias alimentares. – Imagem: Mykhailo Repuzhynskyi/ShutterstockBactérias do intestino mudaram a resposta ao amendoimAntes do procedimento, os 15 participantes tinham reações a pequenas quantidades da proteína do amendoim e não conseguiam consumir mais de 100 miligramas sem apresentar sintomas. A quantidade equivale a menos de meio amendoim.Quatro meses após o transplante, seis voluntários apresentaram melhora. Um deles passou a tolerar 300 miligramas da proteína, enquanto outros cinco chegaram a 600 miligramas ou mais, cerca de dois amendoins e meio.O resultado ganhou destaque porque, atualmente, pessoas com alergia grave precisam evitar completamente o alimento e carregar adrenalina injetável para situações de exposição acidental.A ideia por trás do trabalho surgiu depois que pesquisas relacionaram alergias alimentares a alterações nas bactérias do intestino. A hipótese é que esses microrganismos ajudem a controlar a resposta do sistema imunológico.Como foi feito o transplante de bactériasNo experimento, os participantes receberam cápsulas sem cheiro e sem sabor contendo bactérias intestinais coletadas de voluntários saudáveis e sem alergia a amendoim.A maioria tomou 36 comprimidos em um único dia. Cinco participantes também passaram por um tratamento com antibióticos durante quatro dias antes do procedimento.Nove pessoas não apresentaram melhora. A equipe científica aponta algumas possíveis explicações:
As bactérias podem não ter conseguido se estabelecer no intestino de alguns participantes;

O sexo pode ter alguma influência, já que cinco dos seis voluntários que responderam eram homens;

A falta de antibióticos antes do transplante pode ter afetado os resultados.


Mesmo com a diferença entre os participantes, os pesquisadores consideram que a resposta observada justifica novas etapas de investigação.
O futuro das alergias alimentares pode passar por microrganismos do intestino, segundo uma nova pesquisa científica. Imagem: Doucefleur/ShutterstockDescoberta pode ajudar contra outras alergiasPara entender melhor como a técnica funciona, os cientistas transplantaram bactérias dos participantes para camundongos e analisaram a reação dos animais à proteína do ovo.Leia mais:Os camundongos que receberam bactérias de pessoas que melhoraram no estudo ficaram protegidos contra o desenvolvimento da alergia ao ovo. O resultado indica que o efeito pode não estar limitado apenas ao amendoim.Continua após a publicidadeDurante a análise, a equipe identificou uma espécie associada à proteção nos animais: a Bacteroides ovatus. Encontrar microrganismos capazes de reduzir uma resposta exagerada do sistema imunológico é um dos principais objetivos dessa área de pesquisa.Próximos passos da pesquisaApesar dos resultados positivos, o transplante de bactérias intestinais ainda está em fase experimental e não está disponível para pacientes.A equipe já prepara um novo ensaio clínico, maior, para descobrir quais bactérias apresentam melhor efeito e quais pessoas têm mais chance de responder ao procedimento.Nesta próxima fase, os participantes receberão uma dose cerca de 12 vezes maior do coquetel bacteriano usado no primeiro estudo. A aplicação também será distribuída ao longo de um mês, em vez de concentrada em apenas um dia.O trabalho reforça uma linha de pesquisa que busca usar a microbiota intestinal como uma possível ferramenta no controle de alergias alimentares.

Valdir Antonelli

Valdir Antonelli é jornalista com especialização em marketing digital e consumo.

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