Assumidamente "rebeldes", tradicionalistas consumam cisma
▲Os quatro bispos ordenados esta quarta-feira à revelia do Papa Leão XIV
AFP via Getty Images
O grupo ultratradicionalista católico Fraternidade Sacerdotal de São Pio X (FSSPX) consumou esta quarta-feira o já anunciado cisma com a Igreja Católica, ao ordenar quatro bispos sem autorização do Papa numa cerimónia na Suíça, que durou mais de cinco horas e durante a qual o líder do grupo radical — que tem milhares de padres e congrega mais de meio milhão de fiéis em todo o mundo — garantiu que o objetivo da FSSPX não é o cisma, mas a manutenção da fidelidade integral à verdadeira Igreja, que em Roma terá sido corrompida pela modernidade, e acusou o Vaticano de permitir a “humilhação” do Papa ao colocá-lo a dialogar com representantes de outras religiões.
A possibilidade de um cisma estava anunciada desde fevereiro e, como pode ler neste especial do Observador, os últimos meses ficaram marcados por tentativas frustradas de reaproximação entre o grupo tradicionalista (fundado em 1970 pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre, forte opositor das reformas do Concílio Vaticano II) e o Vaticano. Estas tentativas chegaram ao ponto de o próprio Papa Leão XIV ter, a menos de 24 horas do início da cerimónia na pequena aldeia de Écône, nos Alpes Suíços, lançado um último apelo para que o grupo reconsiderasse.Apesar de apelos de última hora do Papa, grupo ultra-tradicionalista prepara-se para ordenar bispos sem autorização de Roma e abrir cisma
Nada feito. Pelas 9h desta quarta-feira, 8h em Lisboa, arrancou nos jardins do seminário de Écône a longuíssima celebração litúrgica em rito antigo e em latim (a FSSPX rejeita, entre outras mudanças, a reforma litúrgica dos anos 60) durante a qual foram ordenados bispos os padres tradicionalistas Pascal Schreiber, Michael Goldade, Michel Poinsinet de Sivry e Marc Hanappier. Uma vez que a ordenação foi feita sem mandato papal, os quatro ficaram automaticamente excomungados da Igreja Católica, bem como os dois bispos que presidiram à celebração, Alfonso de Galarreta e Bernard Fellay — com a excomunhão a arrastar para a marginalidade eclesial todo o grupo, com milhares de padres e centenas de milhares de fiéis, incluindo em Portugal.Durante a celebração, o superior maior da FSSPX, o padre italiano Davide Pagliarani — que rejeitou as tentativas de diálogo propostas pelo Vaticano em fevereiro — fez um discurso no qual rejeitou liminarmente a ideia de que estava em curso um cisma: pelo contrário, só os tradicionalistas da FSSPX, defendeu, se mantêm fiéis à verdadeira Igreja e defendem a verdadeira fé, pelo que as ordenações eram uma necessidade urgente.Igreja Católica. Após proposta de diálogo recusada, cisma entre Vaticano e grupo ultra-tradicionalista parece inevitável
“Finalmente, este dia chegou”, afirmou Pagliarani na abertura da sua intervenção, admitindo desde logo o carácter “divisivo” das ordenações episcopais desta quarta-feira e propondo-se explicar o “significado” da cerimónia, na qual participaram milhares de fiéis presencialmente e que foi acompanhada por transmissão televisiva por outros milhares por todo o mundo. “Em primeiro lugar, esta cerimónia deve ser uma manifestação de fé”, sustentou Pagliarani, sublinhando que os católicos não podem escolher “aquilo em que se deve crer ou não crer” nem têm a faculdade de “modificar, reinterpretar ou reconsiderar” os preceitos da fé católica.“Quanto mais a fé é atacada, mais ela desaparece”, afirmou o líder do grupo radical, sublinhando que “sem a fé é impossível salvar-se”.“Então, alguns poderiam considerar que estamos perante um dilema. Escolhemos a fé integral, mas separamo-nos da Igreja. Estamos a escolher entre a fé e a Igreja. Para guardar a fé, estaremos nós a romper com a Igreja?”, questionou Pagliarani, respondendo que esse é um “falso dilema”, uma vez que a fé é a razão da pertença à Igreja. “Assim como se pertence a uma nação porque se fala a mesma língua, se partilha a mesma identidade, a mesma cultura; assim como se pertence a uma família porque se mune do mesmo nome, se vive na mesma casa; da mesma forma, pertence-se à Igreja porque se professa a mesma fé. É, portanto, um falso dilema no qual não podemos entrar, porque não podemos escolher entre a fé e a Igreja. Ninguém pode escolher. Nós queremos a fé da Igreja para permanecermos na Igreja. E queremos a Igreja pela fé, na fé. É muito importante compreender isto. Mesmo que, à nossa frente, eles não o queiram compreender. Tudo isto não é uma opinião, não é uma sensibilidade, uma opção. É uma necessidade.”Pagliarani abordou, depois, as críticas de que a FSSPX é alvo acerca da relação do grupo tradicionalista com Roma. “Acusam-nos de não amar o Papa. Acusam-nos de não o respeitar”, lamentou o líder do grupo, rejeitando a ideia e entrando num dos temas mais sensíveis para a FSSPX: a rejeição total do diálogo inter-religioso, cuja possibilidade foi aberta pelo Concílio Vaticano II. Embora estes grupos tradicionalistas possam ser mais conhecidos pela sua faceta mais visível — o uso do rito antigo para celebrar a missa, em latim, com o padre de costas para os fiéis e com elementos estéticos como as mantilhas nas cabeças das mulheres —, esse está longe de ser o cerne da discórdia da FSSPX com Roma. Na génese da separação, na década de 1960, estava o diálogo inter-religioso: Lefebvre não aceitava a ideia de que a Igreja Católica pudesse dialogar em pé de igualdade com outras religiões ou igrejas, que considerava falsas.
A missa não é “uma peça de museu”. Como a instrumentalização da missa em latim levou o Papa a abrir guerra aos tradicionalistasEsta quarta-feira, Pagliarani retomou o argumento. “É porque amamos o Papa sinceramente, como vigário de Cristo, como chefe da Igreja, que não o queremos ver humilhado ao lado de falsos pastores, representantes de falsas religiões”, afirmou o líder da FSSPX. “Quantas vezes o vimos durante todos estes anos?”, perguntou ainda, referindo-se às muitas iniciativas de diálogo inter-religioso dos últimos anos que deram origem a imagens como as do Papa Francisco ao lado de patriarcas ortodoxos, imãs muçulmanos e bispos anglicanos. “É porque amamos o vigário de Cristo que não queremos mais esta humilhação para o Papa. Humilhação que recai sobre toda a Igreja, tratada em pé de igualdade com as falsas religiões.”“Já explicámos tudo isto várias vezes”, insistiu Pagliarani, destacando que a FSSPX quer “a linguagem da fé, a linguagem da tradição”, enquanto o Vaticano tem vindo a promover “a linguagem da inclusão, da escuta, do diálogo e do acompanhamento”. Para a FSSPX, é uma inversão inaceitável. “Nós queremos a fé. E depois, na fé, acompanhamos as pessoas”, sublinhou o responsável, destacando que a missão da Igreja é converter as pessoas com quem contacta à única fé católica que existe. Por isso, sintetizou Pagliarani, a FSSPX não vive estas ordenações em polémica, mas em esperança e, particularmente, na “caridade” para com os fiéis, cujas almas estão “desorientadas e perdidas” à medida que a Igreja vem sendo “escarnecida”. Nesse sentido, não custa aos membros da FSSPX serem “tratados como rebeldes” por quererem servir a Igreja, resumiu. “O maior dos sacrifícios que Deus nos possa pedir é o de sermos tratados como rebeldes”, assegurou.
Na fase final da sua intervenção, dirigindo um conjunto de conselhos aos novos bispos, pediu aos quatro que não se “curvem” perante o “espírito do mundo”. Os quatro novos bispos da FSSPX, agora excomungados da Igreja Católica, deverão saber “discernir, captar, perceber a duplicidade, a ambiguidade, a astúcia que está no mundo e nos inimigos da cruz”.“Os vossos piores inimigos não vos vão atacar frontalmente. Vão tentar fazer-vos deslizar gradualmente para uma perceção um pouco mais ‘atualizada’ da fé, da vida cristã, das relações com o mundo”, disse Pagliarani. “Quando sentirdes esse perigo, recuai, rezai, observai, aconselhai-vos, avaliai, permanecei imóveis antes de reagir como uma serpente.” Depois, recorrendo a uma linguagem bélica, comparou o báculo de bispo a uma “espada” de fé com a qual “se pode vencer o mundo”.Estabelecendo um paralelo direto com as ordenações episcopais da FSSPX de 1988, ano em que Marcel Lefebvre ordenou quatro bispos sem autorização do Papa, abrindo o primeiro cisma (que seria mais tarde revertido quando Bento XVI levantou as excomunhões), Pagliarani garantiu que também agora os novos quatro bispos seriam perseguidos. “Há 38 anos, eles condenaram um santo. Deve-se esperar outra coisa?”, perguntou o líder da FSSPX, recordando as palavras do célebre “sermão da montanha”, do Evangelho de Mateus, em que Jesus promete uma grande “recompensa nos céus” aos que forem perseguidos por causa da fé.O Vaticano ainda não reagiu formalmente à cerimónia realizada esta quarta-feira em Écône — e não é certo que venha a haver uma reação formal. Nos últimos dias, o Papa Leão XIV tinha dito que a FSSPX teria de ter “consciência” das consequências de avançar com as ordenações — a excomunhão automática e o cisma —, mas sublinhou que a escolha seria sempre da própria organização. “Se fizerem essa escolha, lamento, mas devemos seguir em frente”, disse ainda o Papa. O boletim diário do serviço de imprensa do Vaticano já foi publicado e inclui informações sobre audiências papais, receções a embaixadores, renúncias e nomeações — mas nada sobre a FSSPX, que deixou de estar em comunhão com Roma.









