Nutrir a esperança de quem precisa
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Olá, seja bem-vindo ao quinto de oito episódios do podcast “Viver num Bairro Feliz”, o espaço em que perquemos as histórias e os projetos que trazem mais amparo e dignidade aos nossos bairros. Este programa conta com o apoio do Pingo Doce e surge numa altura muito especial. As candidaturas para a sexta edição do programa Bairro Feliz já estão a decorrer. Se a sua associação atua no apoio aos mais vulneráveis, é estar atento. Neste episódio, centramos atenções num direito fundamental, o acesso à alimentação, o aconchego de uma refeição e o acesso a cuidados de higiene. Muitas vezes, uma simples ceia entregue a quem está na rua é o pretexto ideal para criar uma relação de confiança. Eu sou a Maria João Simões. Hoje estão comigo Filipa Pimentel, diretora de Desenvolvimento Sustentável e Impacto Local do Pingo Doce, e Nuno Fraga, coordenador de equipas de voluntariado da Comunidade Vida e Paz. Olá, bem-vindos. Obrigada por se juntarem a nós. Filipa, para contextualizarmos quem nos ouve, o Bairro Feliz divide-se em várias categorias. Vou arriscar dizer que esta é uma das mais marcantes. Com as candidaturas à sexta edição agora abertas, que tipo de projetos nesta área de emergência social é que o Pingo Doce procura impulsionar?
Sim, arriscou e bem. De facto, é um tema muito especial e marcante para o Pingo Doce, porque nós somos especialistas em alimentação. E ao Pingo Doce cabe como missão, arriscaria dizer, principal, cuidar da alimentação da população que vive em Portugal e dos nossos clientes. E, portanto, é particularmente especial quando se fala de temas como fome ou dificuldade de acesso a uma alimentação digna e completa. Nós trabalhamos de forma contínua neste tema do combate à fome. Nós temos, inclusive, um programa, que é o programa Alimenta o Bairro, que é um programa de donativos diários a mais de 550 instituições por todo o país e que todos os dias movimentam cerca de 33 toneladas de alimentos. Portanto, são muitos alimentos que todos os dias nas lojas Pingo Doce, nas mais de 450 lojas, são entregues a instituições como a Comunidade Vida e Paz, que depois, melhor do que ninguém, levam a cabo a sua missão de fazer chegar a quem não pode ter acesso, comprando numa loja. As causas que nos chegam no Bairro Feliz, nesta área do apoio social e do acesso à alimentação, funcionam muito como complemento a este apoio contínuo. E quando eu digo complemento é porque dá resposta a situações e falhas ou faltas muito práticas como: o frigorífico que a instituição não tem e precisa, o fogão que precisa de ter para poder conseguir cozinhar. Às vezes até mobiliário, prateleiras para armazenar devidamente os alimentos que vai recolhendo nas instituições e de donativos. Também caixas e material, economato, para poder preparar e acondicionar devidamente as refeições que depois vai distribuir para o terreno. E, portanto, funciona muito como complemento. Outras vezes funciona como um reforço. Um reforço porque há despensas que têm que estar garantidamente sempre bem preparadas e com bom estoque de produtos, sejam eles alimentares ou de higiene, porque nós também temos aqui muitos projetos, no Bairro Feliz, de artigos de higiene e de cuidados primários. No fundo, o Bairro Feliz complementa um apoio que é dado todos os dias e dá resposta a essas situações que parecem óbvias e tão fundamentais, mas que muitas vezes não têm resposta, a não ser no Bairro Feliz, para serem resolvidas. E eu arriscaria dizer também que há aqui um papel que este programa acaba por ter nestas instituições, que é dar visibilidade ao trabalho delas. Nós, nos bairros, e eu falo como cidadã, não temos muitas vezes a noção do trabalho espetacular que os nossos vizinhos fazem. E fazem porque estão disponíveis para oferecer uma parte do seu tempo, porque quase todos eles são voluntários. E entregar o seu tempo, que é uma coisa que temos cada vez menos e todos nos queixamos que nunca é suficiente para nada, para fazer aquilo que é essencial, muito menos sobra para ajudar os outros. Portanto, eu acho que o Bairro Feliz tem aqui um papel importantíssimo na sociedade também, que é de mostrar e ser uma montra daquilo que tão bem estas pessoas fazem, estes voluntários fazem, as instituições fazem. Porque às vezes, ao lado do nosso prédio, é a sede de uma instituição, num espaço cedido por alguém também, muitas vezes, e nós nem sonhamos a quantidade de refeições e de famílias que essas pessoas estão a ajudar todos os dias. E que se um dia eles fecharem a porta, essas famílias não têm resposta. E eu acho que ter estes projetos em votação numa loja Pingo Doce, que recebe milhares e milhares de pessoas todos os dias, é acima de tudo também dar a visibilidade que eles merecem e o reconhecimento que eles merecem. E, portanto, ao Nuno, aqui em particular, que eu considero uma das melhores pessoas a trabalhar esta matéria, e como pessoa também, eu agradeço desde já, em nome dos portugueses todos e da população toda, o trabalho incrível que a Comunidade Vida e Paz faz e que muitas vezes é silenciosa e pouco visível.
Uma das causas precisamente vencedoras de uma edição anterior do Bairro Feliz foi a Comunidade Vida e Paz, que distribui todas as noites cerca de 450 ceias na região de Lisboa. Nuno Fraga, o vosso projeto ficou sem alimentos essenciais como leite e ingredientes para as sandes. Qual a importância real de receber este apoio do Pingo Doce para garantir o fogo desta vossa megaoperação diária na rua?
Eu diria que é difícil encontrar palavras para dizer o que é o apoio do Pingo Doce, mas tentando resumir em duas palavras, eu diria fundamental, extraordinário. Deixaria essas duas. Agora poderia estar aqui mais 10 minutos a buscar adjetivos, substantivos, etc., mas fundamental e extraordinário. De facto, só para vos dar uma ideia, nós todos os dias distribuímos cerca de 450 a 500 ceias na rua. Estamos a falar, números redondos, 180 mil ceias por ano E se transformarmos isto em número de sanduíches, são 360 mil sanduíches por ano. Isto dá uma ideia da dimensão, além de leite e iogurte, etc. É indispensável o apoio do Pingo Doce, porque como sabemos, preparar num ano 360 mil ceias é muito consumidor de recursos e sem o apoio que o Pingo Doce nos dá, seria impossível, e aqui o Bairro Feliz foi um dos parceiros. Também aqui a questão que a Filipa falou do Alimentou o Bairro, nós temos várias respostas à comunidade que também se deslocam a algumas das lojas do Pingo Doce para ir buscar bens alimentares. E depois, ainda extremamente importante, eu sei que o âmbito é Bairro Feliz, mas dizer também que o Pingo Doce é um parceiro fundamental da festa de Natal da Comunidade Vida e Paz. A festa de Natal, que para os voluntários é uma festa de Natal, temos que pensar que para quem está na rua é a festa de Natal. A festa de Natal é extremamente importante. No ano passado tivemos 1800 presenças ao longo de três dias, 1878 é o número correto, mas grosso modo 1800 pessoas, e o Pingo Doce foi fundamental, porque se envolveu diretamente, pôs os seus fornecedores também a envolverem-se e graças ao apoio do Pingo Doce, e desculpem que estou um pouquinho emocionado, mas graças ao apoio do Pingo Doce, consegue-se fazer uma festa de Natal que tem este impacto. Como eu digo, maravilhoso, extraordinário, fantástico.
Já estamos os três emocionados. É natural.
Eu diria que o apoio do Pingo Doce é um fator crítico de sucesso para o funcionamento das voltas da Comunidade Vida e Paz.
Filipa Pimentel, ver que o apoio financeiro do Pingo Doce vai direito a bens tão concretos e vitais para o dia a dia de uma instituição, reforça o compromisso do Bairro Feliz de ser um vizinho ativo e atento onde a ajuda é mais urgente, não é?
Sim, sem dúvida. O Bairro Feliz nasce dessa vontade do Pingo Doce, de ser um vizinho cada vez mais ativo e sempre presente. Isto é como um casamento. Nos bons e nos maus momentos, nas rotinas, não sermos só uma loja, um supermercado. O Pingo Doce faz parte do dia a dia das pessoas, dos bairros de Portugal, e é uma espécie de um coração que bate e que é um impulsionador de energia positiva e de bem-estar, é o que nós pretendemos ser à nossa volta e tentar ser sempre também uma parte da solução. E o Nuno há pouco referia o tema da festa de Natal. No fundo, a atitude e a forma como o Pingo Doce gere a sua participação nestes eventos da comunidade e a sua área da responsabilidade é tentar pôr ao serviço destes bons projetos e destas boas causas, a sua dimensão, mas também os seus recursos, aquilo que sabe, aquilo a que tem acesso e que pra nós se calhar é mais fácil, é pegar no telefone e ligar pra um colega, como fizemos com os chefs de cozinha. Nós ligámos para os nossos colegas das cozinhas e pedimos para dar um salto e ficar a conhecer a equipa da Comunidade Vida e Paz, para poder sugerir uma ementa mais ágil para os voluntários poderem cozinhar e dar alguma formação. E já agora, se puderem ajudar a fazer a lista dos ingredientes, a quantidade de matéria-prima. E depois percebemos que se calhar não vamos conseguir ir lá sozinhos, vamos convidar fornecedores que nós sabemos que estão sempre também disponíveis e que querem muito colaborar, mas muitas vezes como estão no outro lado da cadeia de valor, não têm tanto contacto com as instituições. E a resposta de todos é que sim, vamos lá, bora lá, o que é que é preciso? E é de facto um orgulho enorme.
E é muito bonito ver tanta gente a unir-se por uma causa.
Completamente. Eu acho que também há aqui muito mérito da equipa da Comunidade Vida e Paz, que consegue trazer este entusiasmo, esta paixão e este acreditar enorme que é contagiante. E isso é como em tudo na vida, quem trabalha e quem o faz com amor e com entusiasmo, mobiliza os outros. E tudo é possível. No ano passado assinalámos os cinco anos do Bairro Feliz e tínhamos até um mote precisamente alusivo a causas, que dizíamos que esta causa pode não ter mudado o mundo, mas mudou o mundo de alguém. E estes projetos, nomeadamente este projeto da Comunidade Vida e Paz, é um bom exemplo disso.
Nuno, estamos a terminar aqui com um nó na garganta, mas na prática, de que forma é que este reforço alimentar ajuda a criar pontes para que estas pessoas se sintam integradas e motivadas a sair da rua? E que mensagem, já agora, gostaria de deixar para inspirar outras instituições de solidariedade a candidatarem-se agora à nova edição do Bairro Feliz?
Este apoio alimentar é determinante. A ceia que nós levamos pra rua, essencialmente, é um detonador, no bom sentido, pra conversa. E o objetivo quando levamos esta ceia não é dar um jantar, não é esse o nosso objetivo, mas é ser o detonador. E reparem que todo o processo, e o nosso lema é reconstruir sentidos de vida, todo este processo começa na rua, com o contacto do voluntário quando vai, e que muitas vezes a pessoa, se calhar, no primeiro dia não está ali para grande conversa, mas há um dia em que diz: “Mas esta gente não me abandona, porque todos os dias vêm cá, esteja eu bem disposto, mal disposto, a chover, com sol, com calor, com frio, eles não me abandonam”. Este apoio é determinante, porque se nós não levarmos as ceias, é mais complicado chegar às pessoas, porque a proximidade é diferente. Relativamente às outras instituições se candidatarem. A Filipa tocou aqui num ponto importante e interessante. Eu tenho a sorte de viver a 20 metros de uma loja do Pingo Doce.
Eu também.
E acompanho o Bairro Feliz e o que é que acontece? Já várias vezes vejo lá instituições, puro desconhecimento meu, ignorância minha, eu não conhecia e fui ver. E cheguei a casa.
É a visibilidade que até foi falada.
E descobri num raio, se calhar, de 500 metros, instituições que fazem um trabalho extraordinário, podem não ter ganho o prémio daquela vez, mas ficaram na mente das pessoas e isso não tem valor.
Filipa Pimentel e Nuno Fraga, muito obrigada pelo vosso trabalho. Foi um gosto conversar convosco. Obrigada pela partilha. Eu regresso na próxima semana com uma nova causa, um novo episódio de Viver num Bairro Feliz. Até lá, cuide de si e dos seus vizinhos.










