CIÊNCIA

"O Estreito de Ormuz é a grande bomba nuclear do Irão"


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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, espaço em que analisamos os principais focos de conflito no mundo. Hoje com o Bernardo Valente, professor de Relações Internacionais na Universidade de Lisboa. Boa noite, Bernardo, obrigada por ter aceitado o nosso convite. Começamos pelo Médio Oriente. Donald Trump avisou hoje que os ataques iranianos a navios são uma violação imprudente do cessar-fogo, isto depois de o Irão ter lançado pelo menos quatro drones contra navios que atravessavam o estreito de Ormuz. Pergunto-lhe por que é que o Irão continua a levar a cabo estes ataques, mesmo depois do memorando de entendimento com os Estados Unidos. Não parece muito preocupado com a quebra deste pré-acordo.
Estes ataques são ilustrativos daquilo que são as diferentes posições, a posição americana e a posição iraniana neste conflito. Mais do que este conflito, até relativamente a este memorando de entendimento. Por quê? Porque se olharmos para aquilo que tem sido a postura dos Estados Unidos, tem sido uma postura principalmente de tentar controlar Israel, no sentido em que sabia que a questão do Líbano continua, que foi um problema desde o início para que os Estados Unidos conseguissem uma saída rápida e que sabem que o continua a ser e que portanto é essencial e é uma linha muito ténue, muito fina relativamente àquilo que é uma violação do direito internacional de Israel e que os Estados Unidos estão a tentar controlar e que não conseguem. E depois relativamente também ao estreito de Ormuz, como sabemos. E o estreito de Ormuz é a grande bomba nuclear do Irão, no sentido em que para além do seu programa nuclear, o Irão percebeu que consegue criar a disrupção através destes drones no estreito de Ormuz e portanto, não tendo pressa para terminar o conflito, ou pelo menos não tendo pressa para que os Estados Unidos saiam das suas portas e não têm pressa, por quê? É importante referirmos que o Irão está sob sanções norte-americanas há cerca de 15, 10 anos. Estas sanções deixaram a economia iraniana num estado lastimável e por isso é que em janeiro tínhamos as pessoas a sair à rua para se manifestarem precisamente contra as condições de vida que foram impostas pela guarda revolucionária iraniana, por este regime xiita, se quisermos. A verdade é que essas condições mantêm-se, no sentido em que a economia iraniana continua ainda mais decrépita, num estado ainda mais lastimável do que estava antes. No entanto, a guarda revolucionária iraniana consegue sobreviver e consegue sobreviver porque se autonomizou completamente da sua população. Ou seja, uma coisa são as necessidades da população, daqueles que se manifestavam em janeiro, em fevereiro, antes desta intervenção, e que realmente sofrem, porque o real iraniano está num valor recorde desde a Segunda Guerra Mundial, portanto, estamos a falar de uma inflação galopante. Para além disso, há uma crise hídrica em toda a região, e isto é muito importante. Por isso é que os primeiros ataques iranianos se deram precisamente aonde às centrais de dessalinização dos estados do Golfo, porque o Irão sabe que é aí que atinge a instabilidade e uma instabilidade relacionada com sobrevivência aqui, não é uma instabilidade necessariamente militar, bélica, ou soberana até, estamos a falar de uma instabilidade que está relacionada diretamente com a sobrevivência da população, porque estes Estados estão todos a sofrer de uma crise hídrica profunda e claro, este conflito veio agravar isso e o Irão está perante esta inflação do real, que já vem de há 10 anos para cá, está perante uma crise hídrica, não sabendo até quando é que vão dar estas reservas de água que têm, principalmente se continuarmos com este conflito meio adormecido, meio congelado, mas de vez em quando com este novo recrudescimento, portanto, este conflito muito volátil naquilo que é a sua amplitude quanto ao quebrar dos sucessivos cessar-fogo. E portanto, esta é a posição iraniana. O Irão não tem pressa porque já vem passando por tudo isto há muitos anos. E neste momento percebeu que consegue também passar uma mensagem ao mundo e uma mensagem de projeção de poder para o mundo, que é, mesmo sendo uma potência regional, está longe de ser uma potência global, mesmo sendo uma potência regional e uma potência regional com a economia muito melindrada, a verdade é que consegue fazer frente, principalmente através da questão do estreito de Ormuz e pelo fato de a relação Estados Unidos e Israel obrigar também a que os Estados Unidos, enquanto Israel estiver no Líbano, que os Estados Unidos fiquem também pela região, por uma questão de defesa das suas linhas de política externa e de uma das suas prioridades, principalmente desta administração Trump, que é a defesa do Estado israelita. Israel já percebeu que tem aqui também uma possibilidade de projeção de poder, que é demonstrar então que, como estava a dizer, esta potência, esta média potência, esta potência regional, no momento em que saímos daquela ordem liberal que conhecemos e essa ordem liberal passa a ser uma ordem fragmentada em blocos regionais, em que não existe uma hegemonia declarada, porque essa hegemonia declarada não consegue combater ou não tem a força suficiente para concretizar os seus objetivos bélicos e diplomáticos num conflito contra uma média potência em francas dificuldades do ponto de vista económico, como é o Irão. E portanto, é no meio deste momento do Irão, em que percebe que não há pressa nem para acabar as negociações, nem para chegar a bom porto relativamente ao memorando de entendimento, que os Estados Unidos estão a jogar o seu futuro também como a grande potência hegemônica. E por isso é que se diz que talvez este tenha sido o grande erro Donald Trump, o grande erro geopolítico de Donald Trump, porque aqui fica a nu aquilo que já vinha sendo antecipado nos últimos anos, mas que quando foram as intervenções no Médio Oriente de Bush, percebeu-se não só que Bush conseguiu transmitir para o seu eleitorado que isto era uma questão existencial para os Estados Unidos, que a questão do Médio Oriente, a questão do combate ao terrorismo, mesmo que fosse feita em profundidade em territórios do Médio Oriente, era uma questão existencial para os Estados Unidos, também beneficiou do contexto pós 11 de setembro. E para além disso, saiu do Médio Oriente e depois de vermos todo aquele cenário dantesco que foi pintado durante a presidência Bush no Médio Oriente e com algumas ações bastante desumanas também do lado norte-americano, conseguiu sair de lá preservando a ideia de que os Estados Unidos continuavam a ser a grande potência do mundo, a grande potência hegemônica, coisa que Donald Trump não está a conseguir fazer. Não conseguiu convencer o seu eleitorado que este era um conflito não para a sobrevivência de Israel, não para defender os interesses israelitas, mas sim para defender os interesses norte-americanos. O contribuinte norte-americano não está convencido disso, nem sequer o contribuinte que pertence ao movimento MAGA, e por isso é que vemos Joe Rogan, Tucker Carlson, pessoas influentes na sociedade norte-americana que sempre apoiaram Donald Trump, agora a falarem mal desta intervenção ao Irão e até a recuarem na sua intenção de voto relativamente a Donald Trump. E para além disso, percebemos aqui, por aquela questão que estava a dizer de termos uma média potência em dificuldades contra aquela que deveria ser a grande potência hegemônica ainda do mundo, percebemos aqui que existe uma ideia de fraca projeção de poder ou pelo menos de decadência ligeira desta grande potência que poderiam ser os Estados Unidos.
Vamos olhar agora para a atenção interna em Israel, a propósito do Líbano. Hoje, numa reunião do gabinete de segurança de Israel, a propósito deste cessar-fogo no Líbano, o ministro da Segurança Nacional defendeu que o governo deve fazer o cessar-fogo colapsar e questionou os outros membros, e passo a citar: “Se vemos o Hezbollah a rearmar-se, por que não estamos a desmantelá-los?” O chefe de gabinete do exército terá respondido que o governo é que quis esta trégua e o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu defendeu que os Estados Unidos também compreendem o direito a defender-se de Israel. Pergunto-lhe se estamos aqui perante uma situação em que claramente Israel não quer, de forma alguma, uma trégua com o Líbano, mas no fundo está a ser pressionado por vários lados para parar estes ataques contra o Hezbollah e os Estados Unidos não estão, portanto, a conseguir forçar Israel a parar tão facilmente como talvez tenha pensado Donald Trump.
Sim, indo primeiro a esta questão da aliança Estados Unidos-Israel, parece-me que é precisamente isso. Ou seja, se existia ali, no início da assinatura deste memorando de entendimento, há cerca de uma semana e pouco, esta ideia de que por o Irão e os Estados Unidos estarem agora numa mesa a dois, neste binômio de negociação, estarem a excluir Israel e estarem a excluir também a questão do Líbano e as pretensões israelitas que não se ficam pelo sul do rio Litani. Portanto, neste momento, Israel está precisamente nesse espaço a sul do rio Litani, que é o objetivo do Grande Israel ou o objetivo, pelo menos, deste estado, neste momento, tal como está com esta administração, é criar uma zona-tampão que permita então afastar o Hezbollah das fronteiras israelitas. No entanto, vemos ataques paulatinos às zonas suburbanas de Beirute e o objetivo passará por aí, muito dependendo também daquilo que serão os resultados das eleições de outubro, e já lá iremos. Mas ainda neste primeiro ponto, relativamente à união Estados Unidos-Israel, os Estados Unidos têm tido aqui a dificuldade de controlar Israel no Líbano, porque, de facto, é a única vantagem líquida de Israel deste conflito. Vai ficar numa zona mais instável, com as monarquias do Golfo mais instáveis, com um Irão que passa até, diria eu, de um regime teocrático para um regime, se não for teocrático, muito militarizado. É algo muito semelhante a isso, portanto, um regime muito musculado, um regime que tem militares à frente da guarda revolucionária iraniana, que são eles também que ditam agora as linhas da política externa iraniana e, portanto, tudo isto são consequências nefastas para Israel e a única coisa que Israel ganhou é esta zona-tampão sul do rio Litani. O que é que está aqui em cima da mesa a ser discutido, ainda no âmbito da operação israelita no Líbano e da aliança Estados Unidos-Israel? Está aqui a ser discutida a possibilidade de essa zona-tampão agora ser desmilitarizada aos poucos, portanto, as IDF irem saindo dessa zona, enquanto é o governo libanês que vai ocupar esses espaços com forças militares libanesas, que vão controlar, vão impedir o crescimento do Hezbollah, e essas forças militares libanesas serão treinadas pelos norte-americanos para esse fim mesmo. Portanto, para combaterem a influência do Hezbollah naquela zona. As IDF, Israel não quer recuar e por isso é que Israel julga que mesmo este possível acordo que tenhamos para o Líbano, se for um acordo autônomo relativamente àquele que é o acordo para o Irão, não querem melindrar a sua aliança com os Estados Unidos, mas também não querem arrasar pé da zona que conseguiram conquistar, da zona que conseguiram ocupar efetivamente até agora. Este é o primeiro ponto. Depois, o segundo ponto é: o que é que aí vem, no sentido em que vemos vozes diferentes dentro da sociedade israelita. Não é um corpo monolítico em que olhamos para Ben-Gvir, olhamos para Smotrich, para Katz, portanto, daqueles partidos dos estudos talmúdicos, aqueles partidos ultraconservadores que têm esta ideia do Grande Israel e não podemos achar que são todos os israelitas assim, que são todos os partidos políticos israelitas sequer assim. Nas últimas sondagens, percebeu-se que Netanyahu, apesar de ainda pertencer, se as eleições fossem hoje ou há uma semana atrás quando saiu a sondagem, Netanyahu continuava a vencer, ou seja, o partido de Netanyahu ganhava. No entanto, outras coligações O partido de Netanyahu seria o mais votado, mas outras coligações de vários partidos sobrepunham-se a este partido de Netanyahu, o Likud. E sabendo que, em princípio, não haverá um novo alinhamento do Likud, o partido de Netanyahu, com estes partidos da direita mais radical, com estes partidos ultraconservadores, dessas personagens que agora enumerei, principalmente porque foram também estas personalidades que fizeram com que o governo agora fosse particularmente instável nestes últimos meses, até com votos de dissolução no Knesset, no Parlamento israelita. A possibilidade é Netanyahu ou encontra outro tipo de coligação mais ao centro, e parece-me difícil, porque os partidos mais ao centro já estão captados pela liderança de Bennett numa grande coligação contra Netanyahu. Portanto, essa coligação é mais moderada relativamente àquilo que são as ambições de política externa israelita. Podemos ter aqui uma reconfiguração da aliança Estados Unidos-Israel, que poderá até ser bom para ambos os lados. Podemos ter aqui uma reconfiguração daquilo que é a relação de Israel com o próprio governo libanês e eventualmente com o Hezbollah, mas nunca esquecendo que há estas forças israelitas, forças mais ligadas aos movimentos sionistas, como sabemos, dentro do território israelita e que nem têm Netanyahu como a sua cabeça, têm estas personalidades mais radicais nas lideranças e que essas pessoas não irão desaparecer da opinião pública. Portanto, mais tarde ou mais cedo, voltaremos a ter, se tivermos principalmente esta situação muito instável que temos na região e que seja nefasto para Israel, e se eventualmente tivermos um ataque como tivemos o de 7 de outubro, mais tarde ou mais cedo, essas forças voltarão a emergir e Israel tem aqui uma questão existencial. Aliás, ambos os lados têm aqui uma questão existencial, porque sabemos que existe um ódio visceral a Israel. Se os Estados Unidos saírem, se esta aliança com os Estados Unidos for reconfigurada e deixarmos de ter Donald Trump como o grande apoiante e o grande presidente dos últimos anos dos Estados Unidos, que olha para Israel como a grande linha mestra da sua política externa, é nefasto para Israel, porque vai se encontrar aqui numa zona cada vez mais perigosa, com uma sociedade cada vez mais dividida e enquanto isto, ainda vai ter que perceber o que fazer com o legado de Netanyahu, porque Netanyahu tem não apenas a sua vida política em jogo nas próximas eleições, mas também a sua vida jurídica e judicial, não só do ponto de vista internacional, pelos mandatos que tem nos tribunais internacionais, mas também do ponto de vista nacional, pelo mandato relativamente às suspeitas de corrupção que tem também na justiça israelita.
Vamos ainda olhar para a Ucrânia rapidamente. Vladimir Putin está a ponderar uma nova mobilização para a guerra na Ucrânia. A falta de soldados estará a preocupar o Kremlin. A acontecer, esta seria a primeira mobilização militar desde 2022, mas esta possibilidade motivou já um êxodo de cerca de 700 mil russos. A Rússia começa a ficar aqui cada vez mais apertada, sem soldados e também com a opinião pública cada vez mais contra o Kremlin?
Acho que fica a sensação à opinião pública e a todo o sistema internacional que a Rússia, neste momento, tem poucas saídas do conflito que lhe sejam benéficas. É verdade que este seria o segundo grande recrutamento e seria um recrutamento que, pelos vistos, já não teria grande critério até sobre as pessoas que recruta e sobre a sua formação e até sobre critérios de idade. Ou seja, o objetivo seria ter mais pessoas a colaborar, não necessariamente as pessoas mais experientes ou as pessoas mais aptas para gerir este conflito e para ir para a linha da frente. Mas, na verdade, a Rússia tem feito, perante aquilo que tem sido o descontentamento de muitos dos seus quadros militares, devido a problemas orçamentais relacionados com o ordenado e com as compensações de guerra também para os soldados russos, a Rússia tem tentado encontrar ao longo dos últimos anos várias soluções e essas soluções passaram inicialmente, como sabemos, pela Coreia do Norte, por soldados da Coreia do Norte, portanto, passaram essencialmente por soldados do eixo da resistência antiocidental, se quisermos, e depois foram paulatinamente desviando este eixo para a África. Nos últimos anos, tivemos um intenso recrutamento de soldados para apoio às forças russas em território africano. E os estados africanos também começaram a apertar o cerco a nível das suas fronteiras internacionais para não deixar estes cidadãos saírem para alimentarem o esforço de guerra russo. Portanto, acabou-se essa fonte de recursos humanos, acabou-se esta fonte de recursos humanos que falava dentro da Rússia, até porque, como a Laura dizia, há um êxodo gigante sempre que é anunciada uma nova vaga de recrutamento para o esforço de guerra, porque obviamente que nem todos os jovens estão de acordo com este conflito e falo tanto de jovens da Rússia como de jovens da Ucrânia. Portanto, há aqui uma ideia de ocidentalização também dentro dos jovens que têm contacto com a diáspora, que têm contacto com amigos fora da Rússia e que faz com que esses mesmos jovens não se identifiquem com o conflito e também não queiram ver a sua vida ceifada por um conflito com o qual não se identificam. E para além disso, a Rússia está neste momento a recuar no território. E esta é que é a grande novidade, porque a Rússia nos últimos meses tem pela primeira vez recuado nas zonas que tinha contestado, nas zonas que tinha ocupado efetivamente. Sabemos que ontem, anteontem, tivemos em Kibernetsy, um istmo no sul, junto à zona de Kherson e Mykolaiv, o hastear de uma bandeira ucraniana, dá a ideia que foi feito, ou pelo menos as informações apontam para que tenha sido feita por um drone e não por mão humana. No entanto, o hastear dessa bandeira ucraniana naquele território, em Kibernetsy, que é um istmo que estava a ser guardado pelos russos porque tinham lá armamento e munições Foi atacado de tal forma, foi dizimado de tal forma que permitiu que tivéssemos agora o erguer da bandeira ucraniana nesse território. Vemos que há aqui também uma nova intervenção e uma intervenção em força quanto àquilo que é a tentativa de isolar a Crimeia, portanto, o ataque a pontes, o ataque a sistemas de abastecimento na Crimeia, e que se andamos há mais de 10 anos a falar no atentado ao direito internacional, que foi a tomada da Crimeia pela Rússia, neste momento já há quem fale da possibilidade da Ucrânia vir a tomar a Crimeia novamente à Rússia e não deixa de ser extraordinária a capacidade militar que os ucranianos tiveram e de inovação em quatro anos de drones rudimentares para conseguirem causar a disrupção completa nos acessos à Crimeia e tornar a Crimeia de uma península numa ilha, e numa ilha que neste momento os sistemas de combustíveis estão todos racionados, precisamente pelas falhas nas refinarias e por este isolamento logístico que têm agora do território ucraniano e obviamente russo. Portanto, tudo isto faz indicar que há uma força renovada ucraniana no território. Os russos, apesar de todos estes problemas, têm ainda meses ou anos de capacidade para sobreviver no conflito, mas não conseguirão sobreviver como fizeram nos últimos três anos e meio, desde há seis, sete meses, quando o conflito se inverteu um pouco. Que antes tinham a capacidade de intervenções musculadas, quase constantes, noturnas, todos os dias ou todas as noites, tínhamos notícias de novos ataques à zona de Kiev, ataques em profundidade, ataques às refinarias. Neste momento, a opção tem sido por grandes ataques, mas grandes ataques muito espaçados no tempo. Portanto, uma espécie de aviso que a Rússia ainda tem capacidade militar, também para ajudar caso cheguemos a novas negociações diplomáticas, e isso também obviamente daria alguma alavancagem a Putin, mas naquilo que é o big picture, naquilo que é o grande quadro, deixamos de ter esses ataques continuados e passamos a ter ataques espaçados no tempo. E isso é mais um sintoma que a Ucrânia, de facto, que agora até consegue atacar infraestruturas energéticas nos arredores de Moscovo, está em franco crescimento no conflito, ao contrário daquilo que se esperava há sete, oito meses. Então muito rápido, Zelensky ainda tem a ousadia de dizer a Lukashenko, da Bielorrússia, que estaria disposto quase a abrir outra fonte de conflito, outra fonte de confronto, e Lukashenko tem recuado na sua palavra e se antes hostilizava muito Zelensky, tem feito exatamente o contrário e tem até passado, à falta de melhor expressão, alguns paninhos quentes na resistência ucraniana, que não deixa de ser interessante e sintomático dessa força da Ucrânia.
Não temos tempo para mais, chegou ao fim o nosso tempo, mas obrigada pela sua análise, Bernardo Valente, professor de Relações Internacionais na Universidade de Lisboa. Obrigada.
Obrigada, boa noite.
O Gabinete de Guerra regressa na segunda-feira.

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