CIÊNCIA

Olivia Rodrigo em todo o lado ao mesmo tempo: porquê?

Não sei exatamente quando é que alguém se lembrou pela primeira vez de usar o verbo “quebrar” em conjugação com o órgão “coração”, nem quando é que alguém criou a expressão “quebra-corações”; sei o que sentido metafórico da última (com “corações”, plural, e não “coração”, singular) é uma metáfora sobre aquele tipo de pessoa que é tão desejada por tanta gente que só ao passar pelos humanos estes sofrem como se tivessem perdido uma perna.
Pode eventualmente haver um sentido literal para a expressão: por exemplo, Joshua Bassett, ex-namorado de Olivia Rodrigo (e seu colega na série da Disney High School Musical) acabou hospitalizado com uma falha cardíaca depois de toda a histeria mediática que rodeou Driver’s License, o primeiro single de Rodrigo e um êxito instantâneo sobre, lá está, corações quebrados (as más línguas dizem que a outra pessoa mencionada na canção é nem mais nem menos do que Sabrina Carpenter).(Apenas a pausa tradicional e obrigatória para assinalar que Cameron Winter, o líder dos Geese, com quem Olivia foi fotografada à saída de um restaurante, no que parecia ser um date, não teve o mesmo destino hospitalar de Joshua Bassett e esperemos que assim continue)
Driver’s License foi lançado a 8 de janeiro de 2021, pela Geffen, que Rodrigo escolheu face a outras majors por sentir que essa era a única editora que a via como compositora e não como uma potencial estrela pop; desde então até agora, quando ela está a lançar you seem pretty sad for a girl so in love, o seu terceiro longa-duração, muita coisa aconteceu:— Ela teve de continuar a trabalhar em High School Musical durante mais dois anos, até que o seu contrato expirasse;— Ela teve de acabar os exames finais de liceu (sim, ela é assim tão nova);— Ela teve de chegar a acordo com outros artistas depois de ser acusada de plágio em Déjà vu (Taylor Swift acabou por ficar com 50% dos direitos de autor, devido à semelhança com Cruel Summer); e de ser acusada de plágio por Good 4 U# (por comparação com Misery Business, dos Paramore, que também acabaram por ficar com 50% dos direitos de autor);
— Já agora, e a título de curiosidade, Brutal é igualzinha a Pump it Up, de Elvis Costello, mas este não exigiu qualquer direito de autor, dizendo que é assim que o rock funciona.— E possivelmente, depois de Sour (o disco de estreia, de 2021) e de Guts (o 2.º, de 2023), ela pode muito bem ter-se tornado a go-to pop star de qualquer rapariga de 14 anos.Há um pormenor curioso na ascensão de Rodrigo: um dia ela não era conhecida (exceto pelas crianças que viam o Disney Channel), no dia seguinte lançou Driver’s license e tornou-se uma estrela mundial. Até Taylor Swift passou anos a batalhar pelo estrelato, enquanto Billie Eilish teve de ser reconhecida pelos bloggers antes de o mainstream lhe prestar atenção.É possível que a ligação à Disney tenha ajudado: ao fim e ao cabo, foi na Disney que Britney, Miley Cyrus, Selena Gomez e Demi Lovato começaram; mas Rodrigo não desenhou a sua carreira da mesma maneira – desde logo ao escolher a Geffen, depois ao não entregar as suas canções aos produtores da moda e depois a recusar-se a tocar para arenas: durante o primeiro ano após a saída do seu primeiro disco, Olivia Rodrigo só tocou em clubes, para poder crescer e errar, já que até aí não havia sido uma música profissional.
Então porque é que ela chega a tantas pessoas? – e, já agora, não é apenas a adolescentes: eu conhecia uma exacta canção dela quando uma amiga da minha idade veio dizer-me que tanto ela como o companheiro (igualmente da minha idade) haviam adorado o primeiro disco. Em primeiro lugar há a música, que oscila entre baladas em crescendo ao piano e uma espécie de power-pop meia rebelde e eufórica; em segundo, a voz, que é extraordinária; e em terceiro, a capacidade que ela tem de escrever sobre os dilemas de quem está a crescer de uma forma que não é unidimensional.Sour pendia para o disco de dor-de-corno, mas Guts era mais do que isso: “Era sobre crescer, sobre tentar ser a rapariga americana perfeita e sentir sempre que falhava”, em suma sobre as oscilações de humor e os sentimentos contraditórios que se sente quando se está a crescer (também se sente em mais velho, mas de forma diferente).Já agora, um pouco de trivia-pop: há quem afirme que Vampire, do álbum Guts, com a sua linha “bloodsucker, fame fucker, bleedin’ me dry like a goddamn vampire” é sobre Taylor Swift e o tal acordo. Se é ou não, é impossível de saber, mas é verdade que no pós-acordo as duas nunca mais foram vistas juntas.Curiosamente, Rodrigo tem sido acarinhada e tem gravitado em torno de estrelas mais velhas. Pode parecer a estratégia comercial mais estranha, mas faz sentido se pensarmos que ela ainda é muito nova e estará constantemente a descobrir música nova: chamou Lilly Allen ao palco (e Lilly disse que sim porque a filha, fã de Rodrigo, a obrigou), chamou Robert Smith, dos The Cure, ao palco (e cita-o no novo disco), além de falar com ele regularmente ao telefone, e tornou-se amiga de Jack White.
White, aliás, deu-lhe a dica que anulou o bloqueio criativo que ela sentiu na feitura do segudo disco, ao dizer-lhe “Não te preocupes com o que as pessoas e a editora dizem, escreve aquilo que queres ouvir na rádio”. A partir daí, conta ela, sentiu toda a liberdade para chegar a estúdio e dizer ao produtor “Aqui quero ouvir isto”.you seem pretty sad for a girl so in love parece ser a consequência lógica dos dois discos anteriores: aposta ainda mais na ambiguidade dos sentimentos, é ligeiramente mais adulto (ou pelo menos liricamente mais complexo), mas cada vez mais sofisticado em termos de composição e sabedoria pop.Como exemplo, peguem logo na primeira canção, drop dead: excelente melodia pop, depois um grande synth, ótimas guitarras a acelerar e a dar vontade de pular, ela começa a cantar mais depressa, enorme refrão, com cordas atrás (as cordas estão por todo o lado neste disco). A letra tem uma frase fabulosa que de uma penada sintetiza as contradições que todos comportamos: “If you let me se stay the night / I think I might just have to stay forever”, e caramba, tirando eu, que não tenho coração, quem nunca sentiu isto?Tal como os discos anteriores, este divide-se entre canções com maior pendor de guitarra e as que começam como baladas ao piano – mas desta feita há um pendor épico constante que serve, também, para demonstrar o vozeirão que ela tem. stupid song começa com piano e vai subindo à medida que as cordas ascendem; entra uma guitarra e uma bela batida; agora está tudo lá em cima: que maravilha, isto.
Em algumas canções — como maggots for brains, u + me = ou my way — sente-se influência do pós-punk (e, eventualmente, dos The Cure) nas guitarras; nas canções que começam ao piano noto um pormenor que me havia escapado: estas melodias são profundamente clássicas, remontam ao Brill Building e a Laura Nyro. Há muita, muita sabedoria na composição destes temas, até dos mais simples.O disco acaba com cigarette smoke, uma balada à guitarra acústica, até que chegam os violinos que ascendem e quando se chega ao refrão estamos mãos dadas com o Incrível. Quando chega ao fim, fica uma certeza: a de que Olivia Rodrigo é a estrela pop mais interessante do momento.

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