CIÊNCIA

Micro ou XL? Os calções também contam para os Mundiais


Já a Adidas, aplicava-se no alviceleste da Argentina desse mesmo ano, uma estreia de gala para Lionel Messi nos campeonatos do mundo, que mais uma vez aproximava herança e modernidade.Em 2010, na África do Sul, a tecnologia de impressão tornava-se ainda mais sofisticada e apetecível para o jogo de padrões, para que não fizessem apenas escola as ruidosas vuzuelas que marcaram a edição. A década seguinte, a começar pelo efeito do Mundial 2014, no Brasil, marcou um ponto de viragem e cimentou a cultura das réplicas entre os fãs. Sempre venderam bem, mas a sua acessibilidade em termos de escala atingiu um ponto alto. A geometria do equipamento germânico fez quase tanta escola quanto o infame 7-1 sobre a equipa da casa. E os miúdos em Santiago terão tentado emular o gesto que cristalizou durante a prova. Contra a equipa anfitriã, o chileno Alexis Sánchez jogou a maior parte do jogo com uma perna dos seus calções enrolada até cima. No tempo extra, foram as duas pernas.Em 2018, na Rússia, o xadrez encarnado e branco da Croácia deixava bons sinais enquanto a Islândia se estreava. No Qatar, em 2022, a histórica prestação de Marrocos pôs o equipamento verde e encarnado no mapa das mais procuradas.
Quanto à parte inferior do uniforme, há uma nuance adicional para juntar a esta saga. Chamam-lhe sagging, ou o hábito de usar os calções, já de si compridos, ostensivamente descaídos da cintura, uma prática seguida por atletas como Lamine Yamal, Calvin Bassey ou Edon Zhegrova e para a qual se ensaiam diferentes teorias. Desde logo, deixar visível a marca da roupa interior, uma forma de inserção mais ou menos voluntária e uma oportunidade clara para as marcas, mas também, há quem creia, uma forma de iludir os adversários em campo, já que tornariam menos visível as manobras com os pés e a localização da bola.A verdade é que a relação com o corpo e os estereótipos consentidos face a décadas anteriores também mudou. Pelo menos neste particular, o tamanho importa. Talvez alguns leitores ainda se lembrem quando o então Presidente da FIFA Sepp Blatter causou um pequeno tumulto depois de defender que as jogadoras de futebol deveriam começar a usar “calções mais apertados” para gerar mais interesse na sua modalidade. Um sugestão que não foi propriamente vencedora.Sem grande surpresa, os equipamentos do Campeonato do Mundo de 1930 eram simples, pesados e funcionais, consistindo em camisas grossas de lã ou algodão, calções largos e botas de couro rígidas, que de alguma forma traduziam a roupa usada comumente na rua. Com as regras do futebol acordadas em 1863 pela Football Association, o uso de cores distintas entre adversários tornava-se obrigatório e fazia nascer os uniformes. A distinção cromática servia acima de tudo para distinguir uma equipa da outra em campo, e exprimir a identidade nacional de cada coletivo. Sem tecidos sintéticos modernos, logotipos de marca ou números de jogadores. A Itália usava azul (o azzurri), o Brasil afirma-se originalmente em branco e azul, Inglaterra alinhava de branco, tal como a Alemanha. Em 17 de julho de 1930, os jogadores da Bolívia usaram letras nas suas camisolas para o encontro frente à Jugoslávia. Alinhados, na mensagem lia-se “VIVA URUGUAY”, uma peculariedade transigida nesses primeiros anos. Inicialmente, os clubes esmeravam-se também nos ornamentos, cores e bordados, visíveis em barretes (também com efeito protetor da cabeça, face às primeiras encarnações das bolas) e brasões. Entenda-se: o uniforme era também parte da distinção social.O estilo de vida de há um século descobriu as vantagens de uma rotina ao ar livre, e com ela uma transição de visual ajustada à mudança, naquilo que seriam as imagens precursoras do sportswear. Formas fluídas, decotes mais arriscados, a admissão dos calções. Os tecidos de tonalidade mais clara ou “crus”, sem tingimento, popularizaram-se no fabrico das primeiras indumentárias desportivas, contribuindo para uma desvantajosa e elevada retenção de líquidos, da chuva ao suor. As bermudas, largas e geralmente amarradas com cintos ou cordões, também acusavam o peso e inapropriação aos desafios dos atletas. Aos poucos, a malha de algodão, mais leve e resistente, foi rendendo o pano cru. Os uniformes ficaram mais curtos, as golas mais largas e as bermudas menores.

AFP via Getty Images

Os uruguaios Pedro Cea, Hector Scarone e Hector Castro comemoram após o Uruguai vencer a Argentina por 4-2 na primeira final do Mundial de arranque, em Montevidéu, em 30 de julho de 1930Ao longo da década, a formalidade no vestuário atingiu máximos através da figura do árbitro, obrigados a apitar os jogos vestindo camisas, blazers e calções extra large. Os anos 50 trariam tecidos mais leves e mangas mais curtas, com a simplicidade dos equipamentos a prevalecer nos torneios. A invenção do fio de elastano em 1959, permitiu uma revolução na indústria têxtil a partir da década de 1960, com as roupas a ganharem elasticidade e resistência a perfurações, além de mais leves e com custos mais baixos para a coloração.Se de certa forma parecia que o jogo evoluía de forma mais veloz que os uniformes em campo, nada como um resultado traumático para revolucionar um guarda-roupa de campo. Em 16 de julho de 1950, num recém-inaugurado estádio do Maracanã, o anfitrião Brasil consente a vitória do Uruguai por 2-1, num vexame perante 200 mil adeptos. O escândalo do Maracanazo, como entrou para os anais, levou à imediata e drástica rendição dos equipamentos brancos, para abrir uma nova e umaculada página no curriculum do escrete.

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