CIÊNCIA

O que move Trump?

Em 7 de Outubro de 2023, o Hamas invadiu Israel e executou um dos mais mortíferos ataques terroristas cometidos contra um país ocidental nas últimas décadas. Não foi “resistência”, nem “contexto”, nem jogos florais, nem nenhuma das abstracções retóricas com que Guterres, os cínicos e os “activistas” procuram perfumar a barbárie. Foi uma carnificina. Civis assassinados, mulheres violadas, crianças massacradas, reféns arrastados para túneis como troféus de uma selvajaria que teve ainda a obscenidade suplementar de se filmar a si própria.
Nesse dia, Israel entrou em guerra. Com o Hamas e com uma vizinhança armada, teológica, revolucionária e genocida, comandada por um regime que fez da destruição da “Entidade Sionista”  uma das suas razões de Estado.Israel combateu com a coragem e a determinação que os seus inimigos não esperavam e que muitos aliados acharam inconveniente. Perdeu milhares de soldados e mais de dois mil civis. Teria perdido muito mais se não tivesse desenvolvido, ao longo de décadas, uma cultura de defesa civil, abrigos omnipresentes e tecnologias capazes de interceptar parte da chuva de fogo lançada contra as suas cidades. Já o  “Iron Dome” dos seus inimigos é feito de crianças, hospitais, escolas, prédios de habitação, alegados jornalistas e da cumplicidade imoral de uma esquerda flotilheira que só consegue distinguir vítima e agressor quando a vítima não é judia.O mundo assistiu. Primeiro, com horror. Mas, uma semana depois,  a compaixão já estava transformada em acusação. O velho demónio antijudaico regressou a galope, mascarado de humanitarismo, direito internacional e indignação selectiva. A regra é simples: o judeu tem direito a defender-se desde que não se defenda; tem direito a existir desde que se submeta, anule e desculpe; tem direito a vencer desde que perca.
A pressão sobre Israel cresceu até ao absurdo momento em que a  administração Biden, em plena guerra, embargou armas  ao seu maior aliado no Médio Oriente. A América, que sabe perfeitamente o que faria se um 7 de Outubro tivesse ocorrido no Maine, decidiu explicar a Israel como se combate educadamente gente que degola civis e usa bebés como moeda negocial.Depois veio Trump que, por momentos pareceu compreender o essencial. Prometeu ao povo iraniano que a ajuda estava a caminho. Pareceu disposto a devolver à política externa americana a ideia simples, reaganiana e hoje quase subversiva, de que a paz nasce da força; que não se negoceia com regimes revolucionários oferecendo-lhes dinheiro; que, se o adversário está fraco, não se lhe concede a pose do vencedor; que, se o Irão joga ao atraso, não se lhe dá tempo; que, se Teerão transforma cada pausa numa oficina de mísseis, centrifugadoras e proxies, a paz é apenas a preparação para a próxima guerra.E, no entanto, subitamente, Trump deu meia volta.Depois de bombardear o Irão com bombas de penetração, parou. Travou Israel quando este procurava concluir o trabalho contra o Hamas e o Hezbollah. Fez regressar aviões israelitas quando se dirigiam ao Irão para responder a um ataque com mísseis. Acomodou os Houthis.
Voltou a atacar ao lado de Israel quando Teerão recusou qualquer cedência séria e, logo depois, tirou o tapete ao aliado, tratando-o como o parente pobre que aparece à porta quando há visitas importantes na sala. Chega-se agora ao extremo do absurdo, quando são os EUA a proteger o proxies do Irão no Líbano e a dar à Guarda Revolucionária um papel no sistema de verificação que, no Líbano, sentenciará sobre se a acção do Exército Israelita é justificável.O que move Trump?-A hipótese preferida dos que lhe são cegamente fiéis, é a do plano genial. Há, dizem-nos, uma arquitectura invisível. Cada recuo seria uma manobra; cada humilhação, uma armadilha; cada contradição, uma peça de xadrez. Trump pareceria abandonar Israel apenas para atrair o Irão para uma cilada perfeita. Pareceria ceder para dominar. Pareceria confuso porque a mente verdadeiramente superior não pode ser compreendida pelos comuns mortais.Talvez. Mas nem toda a desordem é estratégia. Às vezes é apenas desordem embrulhada em retórica. A navalha de Ockham, instrumento conceptual que usa a parcimónia e corta quase sempre com mais precisão, sugere uma conclusão desagradável: quando uma coisa parece rendição, cheira a rendição, produz efeitos de rendição e é celebrada pelo adversário como rendição, talvez não seja génio. Talvez seja mesmo rendição.
-A segunda hipótese é  mercantil. Trump é um homem de negócios. Como tal vê o mundo como uma sucessão de activos, perdas, oportunidades, custos e saídas negociáveis. Se a operação iraniana não produziu dividendos imediatos, corta-se a posição. Se Israel entrou no investimento, paciência. Há Qatar, há Arábias, há promessas, há projectos, há Rivieras imaginadas sobre escombros reais, há cheques grandes e apertos de mão com homens que financiam monstros na cave enquanto sorriem no salão.Nesta lógica, um aliado é apenas uma linha de balanço, amigos, amigos negócios à parte. E quando estraga o negócio, descarta-se.-A terceira hipótese, igualmente  inquietante, é a da glória pessoal. O Nobel da Paz será anunciado em Outubro e Trump quer muito o prémio. Quere-o como consagração individual, como troféu político e como activo antes das intercalares. Assina-se um acordo, sorri-se para Oslo, recebe-se o certificado, ganha-se tempo eleitoral e depois logo se vê.Trump poderia ficar na História como Reagan, como o líder que recuperou  o Ocidente de si mesmo, e demoliu uma aliança islamista, revolucionária e autoritária. Poderia ter compreendido que há momentos em que a janela estratégica se abre e deve ser atravessada, não admirada. O regime iraniano está mais vulnerável do que finge. O seu prestígio foi atingido. A sua invencibilidade foi desmentida. E é precisamente por isso que é monumental o erro de lhe conceder tempo, credibilidade, prestígio e dinheiro.
É que enquanto Trump parece hesitar entre o génio secreto, o negócio arábico e o diploma norueguês, o Irão prepara-se para a próxima guerra. Com ele alinham-se Qatar, Turquia, Paquistão, Rússia, China e Coreia do Norte. O Ocidente desgarra-se e continua sem rumo definido, preso aos seus tabus, miopias e ideologias niilistas, a discutir  semântica e a negociar a necessidade de respirar com moderação.Israel começa  a perceber que as promessas de Trump dependem apenas dos interesses pessoais de Trump, e está  a chegar a um ponto sem retorno.  Se a América recuar, terá de combater outra vez, pagar outra vez, e ser outra vez acusado urbi et orbi, de se defender com excesso contra aqueles que prometem exterminá-lo. Israel é o canário na mina das democracias ocidentais, e quando o canário começa a deixar de cantar, os mineiros podem optar entre fugir ou resolver o problema.  Se fugirem é o fim da mina.

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