CIÊNCIA

Faz sentido parar um jogo 30 minutos por causa de um raio?


Quase tudo nos raios contraria a intuição. A chuva pode estar fraca e o risco ser real, o céu pode parecer estar a abrir e ainda haver descargas, um raio pode cair longe da zona onde está a chover e ser muito perigoso, uma árvore pode proteger da água mas aumentar o risco de morte se houver uma descarga. Também um campo de futebol pode parecer amplo e seguro, mas é precisamente essa exposição que o torna perigoso: um jogo pode ter de parar mesmo com o relvado praticável, apesar da chuva intensa que caiu antes, e pode não recomeçar quando os adeptos acham que a tempestade já passou.“Quando a chuva diminui, quando o trovão parece mais distante ou quando a trovoada aparenta perder intensidade, as pessoas podem pensar que o perigo já passou”, diz Stéphane Schmitt, especialista em deteção de raios da Meteorage, ao Observador, mas “não basta interromper a atividade no momento certo. É também necessário saber quando é realmente seguro retomá-la”, alerta.É por isso que os protocolos modernos não se baseiam apenas na perceção humana. Não basta perguntar se se vê relâmpago, nem basta perguntar se se ouve trovão, e muito menos basta olhar para o céu. Em eventos com milhares de pessoas, a decisão tem de depender de deteção, monitorização e regras previamente definidas.“É neste contexto que se aplica a regra dos 30 minutos”, nos EUA, explica Schmitt. “Este intervalo permite assegurar, tanto quanto possível, que a atividade elétrica terminou e limitar o risco associado a raios ainda possíveis na periferia do sistema tempestuoso.”
No comunicado enviado após o França-Iraque, Stéphane Schmitt resume a filosofia dos protocolos modernos numa frase. “Estas práticas assentam num princípio fundamental: as decisões não devem basear-se exclusivamente na perceção humana.” E explica porquê: “Os sinais visuais ou auditivos — relâmpagos visíveis ou trovões audíveis — são, por natureza, variáveis e por vezes enganadores.” Mas os sensores continuam a detetar atividade elétrica.É por isso que Schmitt conclui que “a tomada de decisão deve basear-se em soluções precisas de deteção de raios e em protocolos definidos antecipadamente, de forma a evitar qualquer improvisação.” A frase resume praticamente toda a filosofia seguida atualmente pelas grandes ligas desportivas norte-americanas. Nos Estados Unidos, praticamente todas as grandes competições ao ar livre seguem protocolos semelhantes. A National Athletic Trainers’ Association, que reúne milhares de profissionais responsáveis pela segurança de atletas, recomenda que exista sempre um plano específico para trovoadas, sistemas de monitorização meteorológica e critérios objetivos para interromper e retomar competições.A decisão deixa de depender do treinador, do árbitro, do organizador ou da pressão do público: depende da meteorologia, depende da deteção de raios, depende da ciência. É exatamente esse sistema que a FIFA está a aplicar durante o Mundial. Não porque exista uma “regra FIFA” específica sobre raios, mas porque a competição decorre nos Estados Unidos e segue os protocolos de segurança utilizados pelas autoridades locais. É por isso que jogos podem ficar interrompidos durante muito mais tempo do que aquilo a que os adeptos europeus estão habituados. Não porque a tempestade seja extraordinária. Mas porque os responsáveis preferem esperar até terem a certeza de que o risco desapareceu.“A gestão do risco de raios não deve deixar espaço à improvisação. Baseia-se simultaneamente na deteção, na monitorização, na pedagogia e em procedimentos coletivos adaptados”, diz ao Observador Stéphane Schmitt, que repete a ideia de que “os sistemas de deteção poderiam ter alertado mais de 30 minutos antes em quase três quartos das situações analisadas.”As respostas deste especialista vão além do estudo e permitem fazer uma leitura mais ampla sobre se o Mundial está a funcionar como uma montra pública de uma cultura de prevenção que a Europa ainda não generalizou e se deve caminhar para protocolos semelhantes. Para Stéphane Schmitt, a resposta é afirmativa, embora com adaptações às diferentes realidades. “Sim, deveriam ser desenvolvidas reflexões para propor procedimentos coletivos adaptados ao risco”, defende. E faz questão de desmontar outra ideia feita: estes protocolos “não são exclusivos dos Estados Unidos”. Segundo o especialista, muitas entidades públicas e privadas europeias já os utilizam em parques de campismo, festivais, parques de lazer, algumas federações desportivas e atividades profissionais no exterior.As interrupções registadas durante este Mundial podem assim acabar por ter um efeito que vai muito além da competição. “Podem surpreender, ou mesmo frustrar, mas têm também uma virtude pedagógica: tornam visível um risco frequentemente subestimado”, considera Schmitt. Para o investigador, o facto de milhões de pessoas assistirem, em direto, à interrupção de jogos devido à aproximação de uma trovoada poderá contribuir para alterar a perceção do risco também na Europa e incentivar uma maior adoção de protocolos em competições amadoras, eventos locais e outras atividades ao ar livre.Schmitt lembra que a questão ultrapassa largamente o futebol. Segundo o estudo, cerca de um em cada cinco acidentes ocorre em contexto profissional, afetando trabalhadores da construção civil, telecomunicações, energias renováveis, redes elétricas, caminhos de ferro, aeroportos e todas as profissões que exigem trabalho no exterior. “Não se trata apenas de conforto ou organização, mas de segurança e responsabilidade”, sublinha. “Não se pode deixar espaço ao acaso quando se trata de proteger equipas, intervenientes ou público.”

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