A Europa só estará segura com autonomia energética
A guerra na Ucrânia e a instabilidade no Médio Oriente têm um traço em comum que deve ser sublinhado: a energia deixou de ser apenas um recurso estratégico e passou a ser um instrumento de coerção económica e arma de pressão militar.
A instabilidade no Estreito de Ormuz, uma das zonas mais sensíveis para o comércio global de petróleo e gás natural, voltou a demonstrar como a energia pode ser instrumentalizada em contexto de conflito. Qualquer constrangimento nesta rota crítica tem efeitos que ultrapassam largamente a região, afetando mercados, preços, cadeias de abastecimento e economias dependentes da importação de energia.Recentemente, no rescaldo do conflito entre a Rússia e a Ucrânia, a Europa sentiu os efeitos da instrumentalização da energia num conflito: o corte e a redução do fornecimento de energia por parte da Rússia despoletaram uma crise energética com impacto direto nas famílias e na competitividade da economia.Este choque desencadeou no seio europeu uma vasta discussão sobre a necessidade de aumentar a autonomia energética e a resposta veio através do reforço legislativo, ao abrigo do RePowerEU, e de avultados envelopes financeiros destinados a reduzir a dependência externa, acelerar a transição energética e reforçar a segurança do abastecimento.
O desafio abraçado visava diminuir a dependência energética externa enquanto se continuava com o plano de atingir a neutralidade carbónica em 2050, reafirmando assim a coerência na posição assumida no combate às alterações climáticas, tentando conciliar dois desafios: alcançar uma maior autonomia e fazê-lo através de energias limpas.Volvidos quatro anos, a Europa volta a confrontar-se com uma realidade em que a energia ocupa o centro da disputa geopolítica e económica e é certo que ainda é cedo para estimar o impacto pleno da atual instabilidade, mas é evidente que a discussão sobre a autonomia energética continua longe de estar encerrada.Está a União Europeia a fazer o suficiente? Aprendeu verdadeiramente com a crise de 2022? Está hoje mais preparada para responder a novos choques externos?Os dados recentes do Eurostat mostram que a Europa continua a apresentar níveis elevados de dependência energética externa. Em 2024, a União Europeia importava 57,2% da energia que consumia, um valor muito próximo dos 56,9% registados em 2004. É certo que houve uma maior diversificação dos países fornecedores, mas essa evolução não elimina a vulnerabilidade estrutural. Por outro lado, a presença das energias renováveis na matriz energética europeia tem vindo a crescer. Em 2024, representavam cerca de 20%, face a 16% em 2014.
Estes sinais são tímidos: ainda que o aumento em renováveis seja positivo, é curto; e a diversificação das fontes não constitui, por si só, uma solução a longo prazo como a situação no Golfe Pérsico nos veio relembrar.Entretanto, os desafios multiplicam-se. Os Estados Unidos revelam-se um parceiro imprevisível; a China ganha vantagem tecnológica; e a Europa continua condicionada porprocessos decisórios lentos, por redes insuficientes e por dificuldades na execução dos investimentos anunciados.A Europa precisa de passar da intenção à ação. Isso exige redes elétricas mais robustas, melhores interligações entre países, licenciamento mais rápido e o reforço da produção renovável e do armazenamento. Para o conseguir, importa agilizar o processo decisório, promover a eficiência e a poupança energética, desenvolver cadeias de valor em matérias-primas críticas e consolidar as apostas no hidrogénio verde ou no nuclear.
Num contexto internacional imprevisível, em que a ordem mundial é desafiada diariamente, a Europa tem de perceber que a autonomia energética já não é uma escolha estratégica; é o preço da sobrevivência económica.
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