Como uma rede de falsa canábis medicinal enganou o Infarmed
▲O verdadeiro objetivo, de acordo com o MP, foi transformar o laboratório clandestino no polo tecnológico de Abrantes num centro de produção ilícita de catinonas sintéticas
FOTOMONTAGEM INÊS CORREIA / OBSERVADOR
Constituída em agosto de 2022 por Benny Falk — apontado como um dos líderes da alegada organização criminosa —, a Polyfarchemi começou por chamar-se “Abecedário Glorioso”. No papel, declarava como atividade a produção, importação e exportação de plásticos, artigos de borracha e produtos químicos. E, para dar credibilidade ao negócio, Falk criou o site polyfar.biz (hoje indisponível), onde copiou “integralmente” os conteúdos de uma empresa norte-americana real, a Polyfar – Monomeres Polymers, no qual apresentava a informação falsa de ter três décadas de experiência no setor.
Na verdade, a Polyfarchemi nunca teve qualquer autorização do Infarmed para comercializar substâncias controladas. O verdadeiro objetivo, de acordo com o DCIAP, foi sempre o de transformar o laboratório clandestino no polo tecnológico de Abrantes num centro de produção ilícita de metanfetaminas e catinonas sintéticas. O plano incluía ainda a “irrigação” de canábis (desviada do circuito legal) para produzir THC-P, um canabinoide de extrema potência e muito valorizado no mercado negro — modificação que pode valer mais de 30 mil euros por cada quilo.Para “ludibriar” as autoridades e passar ao lado de eventuais fiscalizações, a organização tentava “criar uma fachada de normalidade industrial”, lê-se no despacho de acusação. Durante as buscas da Operação “Erva Daninha”, realizadas em maio de 2025, a PJ apreendeu cerca de 500 quilos de 3-CMC e caixas de anfetaminas. Os cristais de droga estavam embalados em sacos com o logótipo da farmacêutica multinacional Novartis e escondidos dentro de caixas da empresa portuguesa Cabopol — empresa com a qual a Polyfarchemi nunca teve qualquer relação comercial. Os rótulos, falsificados, indicavam que dentro das caixas estavam compostos químicos lícitos, como “Ortho AB-monomer”.Além da química, o armazém funcionava como um entreposto estratégico para grandes quantidades de canábis — o core business da fachada legal do alegado esquema. A mecânica parecia simples: a rede adquiria a planta a produtores nacionais licenciados, utilizando o pretexto de falsas exportações medicinais para países em África (em que esta substância nem sequer está legalizada). Mas o seu destino real, como veremos, não será este.
A canábis é legal em Portugal?
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Em Portugal, a canábis recreativa é proibida (existindo os crimes tráfico e o desvio do fim medicinal), mas descriminalizada desde 2001. Já o uso medicinal é legal e regulamentado.
Com a Lei n.º 33/2018, Portugal legalizou a canábis para fins medicinais, permitindo o seu cultivo e exportação sob licença do Infarmed.
De acordo com o DCIAP, este quadro legal teve como objetivo tornar acessível o tratamento com tais produtos, garantindo:
“Que as preparações disponibilizadas cumpram todos os requisitos de qualidade e segurança, salvaguardando a saúde pública”;
“A prevenção do uso indevido de substâncias controladas, em conformidade com a Convenção das Nações Unidas contra o Tráfico Ilícito de Estupefacientes e de Substâncias Psicotrópicas”.
A legalização da canábis para fins medicinais em Portugal “potenciou uma elevada apetência”, por parte de várias empresas nacionais e estrangeiras, “para o investimento em unidades de produção de canábis para fins medicinais”. Sendo igualmente certo que a concessão de tais autorizações pelo Infarmed “passava por um processo administrativo pouco controlado”, lê-se no despacho de acusação.Até maio de 2025, não existia uma verificação sistemática ou por contacto direto com as autoridades estrangeiras para validar a autenticidade dos certificados de importação.Segundo o DCIAP, Portugal registou a exportação de 1.206 quilos de canábis para a Guiné-Bissau entre 2023 e 2025, e de mais 5.533 quilos para a República Democrática do Congo entre 2024 e 2025. Contudo, nenhum destes países declarou qualquer importação oficial desse produto. Já em 2025, Portugal exportou 357 quilos da mesma substância para o Quénia, apesar de o país africano ter uma estimativa de importação aprovada de apenas 300 gramas.O próprio diretor da unidade de licenciamento do Infarmed, Vasco Bettencourt, e a diretora da unidade de inspeção, Fernanda Ralha, admitiram-no mais tarde em depoimento: a instituição não estava dotada dos meios humanos — técnicos e inspetores — necessários para responder à avalanche de pedidos gerada pela nova legislação.










