CIÊNCIA

João Batista: de radical no deserto a santo popular


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Como é que um louco no deserto se tornou um santo popular? Este é o oitavo episódio da segunda temporada de As Histórias da Bíblia, o podcast da Rádio Observador, em que deciframos o livro mais impresso e distribuído da história da humanidade, mas não necessariamente o mais lido. Eu sou o João Francisco Gomes, sou jornalista e escrevo sobre religião no Observador.
Eu sou o Daniel Nascimento, padre e professor na Universidade Católica Portuguesa.
Eu sou o João Bastos, padre e colunista do Observador.
E esta semana, depois de vários episódios a falar de personagens do Antigo Testamento, vamos entrar no Novo Testamento e vamos falar de uma personagem muito importante para compreender este momento de transição entre dois mundos. João Batista podia ser uma personagem do Antigo Testamento, um último profeta, mas surge na Bíblia já como precursor do Messias, anunciado pelos profetas. Era um homem estranho, vivia no deserto e comia gafanhotos, e foi ele quem batizou o seu primo, Jesus. Acabou por ter um final trágico, decapitado e a sua cabeça numa bandeja entregue ao rei. Vamos tentar perceber quem foi esta figura que hoje os portugueses festejam como um dos seus famosos santos populares. Estas são as Histórias da Bíblia. Olá a todos, e antes de seguirmos para o tema deste episódio, para a história de João Batista, quero lembrar, como sempre, que os nossos ouvintes podem enviar perguntas, comentários e sugestões para o nosso e-mail: ashistoriasdabiblia@observador.pt. Temos recebido muitas mensagens, muitas sugestões, e os nossos ouvintes já sabem que nos temos estado a encontrar duas vezes por semana. Além deste episódio semanal, que vai para o ar aos domingos, depois do noticiário das 09:00 a.m. e fica sempre em podcast, temos também um episódio extra às quintas-feiras. Em 10 minutos procuramos responder a uma pergunta enviada pelos nossos ouvintes, quer para o nosso e-mail ashistoriasdabiblia@observador.pt, quer também nos comentários do YouTube e das plataformas de podcast. Esse episódio especial não passa na Rádio Observador, fica apenas em podcast e, portanto, os nossos ouvintes já sabem que se não querem perder nenhum destes episódios, é uma questão de clicarem em “seguir o programa” nas diferentes plataformas que usam para ouvir podcasts e vão receber uma notificação sempre que sair um novo episódio. Na próxima quinta-feira, vamos procurar responder uma pergunta inusitada: em que cruz, afinal, terá sido pendurado Jesus Cristo? Pode ouvir a resposta na próxima quinta-feira. Antes disso, vamos falar do primo de Jesus, João Batista, talvez mais conhecido dos portugueses, sobretudo no norte do país, como dizia no início, simplesmente como São João. Esta é uma personagem central quando passamos do Antigo para o Novo Testamento. Ele é o último profeta que antecede o Messias, é o anunciador de Jesus. Os quatro Evangelhos falam dele, embora não digam todos exatamente a mesma coisa. E, portanto, se quisermos conhecer bem a história de João Batista, além de outras fontes, temos de ler os quatro Evangelhos para tentar reconstituir esta história com o maior detalhe possível. Daniel, por exemplo, só no Evangelho de Lucas é que encontramos a infância de João Batista, não é verdade?
Sim, João Batista aparece-nos nos quatro Evangelhos, como disseste, e bem, mas João Batista aparece também nos quatro no início do ministério de Jesus. Mas destes quatro Evangelhos, só dois, como sabemos, Lucas e Mateus, é que à maneira de prólogo nos falam da infância de Jesus, nos acontecimentos que representamos basicamente no nosso presépio, no nosso tempo de Natal. Lucas começa o seu texto, os dois primeiros capítulos de São Lucas, começa precisamente contar a história desta família de Zacarias e Isabel, um casal já idoso, sem filhos, aos quais é anunciado pelo anjo um nascimento miraculoso. Alguns episódios vimos a história de Sansão e o anúncio do nascimento de Sansão, numa situação semelhante, é aqui reproduzido de certa forma, corresponde a um padrão literário que vemos no Antigo Testamento e também aqui no Novo Testamento. No caso de João Batista, que lhe dá já esta missão de preparar caminho para o Messias. São Lucas vai, no fundo, fazendo um díptico, um quadro com dois lados. Conta-nos o anúncio do nascimento de João Batista, depois o anúncio do nascimento de Jesus. Portanto, vai alternando entre João Batista e Jesus, sempre percebendo nós, como leitores, que há aqui uma maior proeminência, um maior ressaltar da importância de Jesus.
A famosa história de Maria e Isabel, que era a sua prima e que recebem o anúncio do anjo com alguns meses de diferença.
Exatamente. Depois Maria vai visitar a sua prima Isabel e aí há este encontro destas duas mulheres grávidas de forma inesperada, uma porque é muito velha, outra talvez porque é muito nova, ainda não tinha casado. Mas é também um encontro entre estes dois nascituros, entre estes dois bebês que exultam, ou melhor, João Batista, na barriga da sua mãe, já exulta de alegria na presença de Jesus.
Daniel, e uma coisa: logo no início do Evangelho de Lucas, se não estou em erro, é logo feita uma referência a esta figura do Antigo Testamento, Elias Ver aqui qualquer relação entre este antigo profeta e este João que vai nascer. Que referência é esta? Que paralelismo é este?
Elias é uma figura paradigmática dos profetas no Antigo Testamento. Se percorrermos a Bíblia e se olharmos pra lista de profetas escritores, ou seja, livros do Antigo Testamento, ditos proféticos, com o nome de profetas como Isaías, Jeremias, Ezequiel, Elias não está nesses. Elias está um bocadinho antes, no meio desta história dos reis, depois do Rei Salomão, no tempo do rei dividido. É, portanto, o primeiro, mais ou menos, tem que ser um bocadinho entre aspas, porque também Moisés é dito profeta, num outro entendimento da palavra, mas torna-se Elias a figura profética por excelência, representativa. E vai se desenvolvendo na tradição judaica a ideia de que Elias haveria de voltar, que a vinda de Elias estaria relacionada com a vinda do Messias.
Portanto, um Elias que viria antes do Messias.
Preparar o caminho.
Portanto, de certa forma, João Batista é uma personagem do Novo Testamento, mas também não seria estranho se o encontrássemos no fim do Antigo Testamento.
Sim, embora se passe alguns séculos. O último profeta é Malaquias. A profecia acaba bastante tempo antes da era neotestamentária, alguns séculos antes de Jesus, mas ainda assim, São Lucas constrói-nos, de certa forma, a figura de João Batista como um elo de ligação entre o antigo e o novo, entre o tempo da antiga aliança e a nova inaugurada por Jesus.
João, e tal como acontece com Jesus, os evangelhos depois não dizem muito sobre a infância e a juventude deste homem, João Batista. Voltamos a ouvir falar dele apenas já como adulto. E encontramo-lo de uma forma muito bizarra, a pregar no deserto, como um louco, como eu dizia no início deste episódio, usando uma palavra muito polêmica pros meus caros comentadores.
Sim, nós tivemos que regravar o início algumas vezes. Mas a questão é, e até pegando naquilo que já referiste na introdução, se calhar algumas coisas que nós dizemos aqui podem ser estranhas para quem nos ouve em casa, porque muitos de nós temos uma relação devocional e até iconográfica com estas personagens que a partir de agora vamos falar. E por isso também é necessário, e acho que é importante, para construir esta relação devocional, que às vezes há pessoas e ouvintes que possam ter, colocar questões e até nos desabituarmos do uso habitual, pra não estar sempre a repetir a mesma expressão, que temos com estas personagens. Como disseste, João está no deserto. O deserto é um lugar por excelência do encontro com Deus, mesmo que através de alguma penitência e provação na Bíblia, se quisermos remontar aos episódios de Moisés, por exemplo, a travessia do deserto, mas o deserto aqui é também um lugar paradigmático. João Batista é alguém que vem, de certa maneira, romper com os vários paradigmas sociais onde a sociedade estava envolvida. Quer romper com o paradigma romano. Os romanos são os invasores, são uma espécie de nova ordem que se impõe com brutalidade na Judeia naquele tempo. Portanto, João Batista parece que quer romper com essa ordem. De certa maneira, também quer romper com Herodes Antipas, que é também uma personagem que surge e vai voltar a surgir, principalmente na morte de João Batista, porque Herodes é, de certa maneira, o sinal da corrupção judaica e a corrupção do poder da época. Herodes tinha uma capital de Tiberíades, uma nova capital construída sobre um cemitério, com tudo o que isto significa, ainda hoje, nos nossos dias, imaginemos na época. Tinha um palácio onde havia representações figuradas, o que rompia com os próprios mandamentos da época, que se envolveu com a mulher do meio-irmão, o que envolvia algum desprezo pelas leis judaicas e também, de certa maneira, com o próprio sacerdócio. Ou seja, João Batista nasceu filho de um sacerdote e parece que também ele próprio quer romper com essa linhagem.
E a forma que encontra pra isso é essa pregação no deserto, também marcada por alguns aspectos mais bizarros. Vestia-se com pelos de camelo.
Comia gafanhotos e mel silvestre. Portanto, João parece claramente uma pessoa radical. A palavra é muito forte, se calhar tão forte ou mais forte que louco, mas se calhar nós veríamos isto como um fundamentalista, como aqueles maluquinhos do metrô, que cortaram com tudo e com todos e que estão no metrô a anunciar que o reino de Deus vai chegar.
Só pegando neste aspecto do sacerdócio que o João referia. Às vezes temos a ideia que no Novo Testamento, e a ação de Jesus, em particular, é contra o judaísmo do tempo. E aquilo que está de errado é o número da frase, é o singular. Não há propriamente um judaísmo uniforme, mas há judaísmos. Há aqui uma variedade de sensibilidades, de seitas, no sentido mais sociológico e não pejorativo do termo, até com estes nomes que estamos habituados a ouvir. Enfim, quando falarmos de Jesus, voltaremos a tocar nesses aspectos de fariseus, de saduceus, sacerdotes, também de essênios. De fato, João Batista insere-se bem, e há muitos autores que procuraram fazer esta colagem de João Batista com estes essênios, um grupo que Tinha precisamente rompido com o sacerdócio à volta do templo em Jerusalém, que de alguma forma tinha cedido em demasia aos poderes políticos. Pouco tempo antes, várias décadas antes, depois das revoltas dos Macabeus e depois de uma certa recuperação da independência, há ali figuras que usurpam o poder, o sumo sacerdócio. E portanto, a partir daí, desde o ano 100 e tal antes de Cristo, há correntes que são muito críticas do templo, da linha oficial, e que se retiram pro deserto, para a zona de Qumran, por exemplo, mais ou menos onde se descobriu aqueles manuscritos famosos em grutas junto ao Mar Morto. E portanto, ver João Batista como essênio também foi uma certa moda em determinados tempos. E há características em comum, outras também que o diferenciam, mas percebemos que há uma variedade, que há um pluralismo de sensibilidades religiosas também. Portanto, para além de João Batista.
Que realmente aquilo que se passa aqui também tem algo que depende de uma certa, entre aspas, genialidade desta personagem concreta, que não é comum na época em que ela vive.
Na época em que está.
Vamos então tentar conhecer um pouco melhor a figura. Um aspecto fundamental da história dele no deserto, justamente, era esta ideia do batismo, que depois ficou associado ao nome dele. Primeiro, Daniel, de onde é que vinha isto? Ele estava a batizar pessoas no Jordão, a purificá-las, de certa forma, a apelar a que se arrependessem. E é nesse contexto, em que ele está a fazer isso, a tentar pregar a sua mensagem, a batizar as pessoas, que vai aparecer Jesus para também ser batizado. É assim que Jesus nos é apresentado aos leitores dos evangelhos.
Exatamente. Vemos João com uma grande popularidade, atraindo gente de todo lado, apesar de estar no deserto, uma zona que é desértica e, portanto, à partida tem pouca gente, como o nome indica, mas há ali muita gente. Claro, depois os autores tendem a pensar que João não seria propriamente um autor que estivesse fixo numa zona desértica. Tendencialmente mover-se-ia ao longo do Jordão e até teria pregado em algumas cidades, portanto, não seria propriamente uma figura hermítica escondida no deserto, mas teria alguma mobilidade também para conseguir espalhar a sua fama e tornar-se famoso a toda esta gente da Judeia e da Galileia, que pelos vistos, acorreria ao deserto para ser batizada por ele. E o batismo, embora a palavra batismo já tenha uma conotação muito própria pra nós, a palavra grega batismo quer dizer simplesmente mergulho. E, portanto, é um mergulho na água, visto como um rito de purificação. Esse é mais um dos fatores que, aliás, simultaneamente aproxima e distingue destes tais essênios, desta tal corrente mais rigorista que também vivia no deserto, mais retirada, que utilizava muito batismos, ou seja, rituais de purificação, banhos rituais, simbolizando uma limpeza e uma purificação do mundo. Em João Batista, parece-nos ser um ritual único. O conteúdo da sua pregação é, sobretudo, um arrependimento, uma retidão moral, que interpela esta gente.
Muito bem, estamos a chegar agora mesmo ao fim da primeira parte deste episódio de “As Histórias da Bíblia”. A seguir, vamos continuar a perceber a história desta personagem, vamos ver como é que aparece Jesus no meio de tudo isto e vamos conhecer o desfecho trágico da história de João Batista, além de depois tentar perceber como é que esta personagem se tornou um dos principais santos venerados pelos cristãos em todo o mundo. É já a seguir a um curto intervalo. Até já. Segunda parte de “As Histórias da Bíblia”, com os padres João Basto e Daniel Nascimento. Esta semana estamos a falar de João Batista, o homem que batizou Jesus e que marca uma transição entre o Antigo e o Novo Testamento. E no final da primeira parte estávamos justamente a explicar como João Batista vivia no deserto, onde estava a batizar pessoas, a purificá-las através de banhos de água. Ora, os evangelhos contam que a dada altura aparece Jesus. É aí que aparece pela primeira vez em adulto, aparece para ser batizado. João ainda tenta recusar, dizendo: “Eu é que tenho que ser batizado por ti, não é o contrário.” Mas Jesus insiste. Há ali um momento em que parece haver uma intervenção divina, em que desce uma pomba, abrem-se os céus, ouve-se a voz de Deus a dizer: “Este é o meu filho muito amado.” Esse é o momento central da personagem João Batista, com o batismo de Jesus. Depois disto, o evangelho de João fala-nos ali de uma espécie de momento de transição. Há dois seguidores de João que parecem passar a seguidores de Jesus. Seria André e talvez o João que escreve o evangelho, portanto, outro João. E há ali também o momento em que Parece ainda haver uma sobreposição entre os dois ministérios. Jesus já anda a pregar e já tem alguns seguidores. João ainda anda a batizar no deserto. É neste momento que ouvimos João a dizer a célebre frase: “É preciso que eu diminua para que ele cresça”, ou algo assim. Ou seja, de certa maneira, há aqui um momento de transição entre estes dois protagonistas.
Sim, há um momento de transição. Vou me aventurar a fazer aqui uma metáfora, ou uma analogia, melhor dizendo: a relação de Jesus com João é se calhar semelhante à relação de um adolescente que conhece um enorme professor, um professor que o fascina, mas que ele depois de aprender muito com aquele professor e de pertencer àquele seu círculo, esse aluno novo, esse jovem, usemos aqui o nome Jesus, percebe que precisa de fazer uma evolução face ao pensamento do mestre e precisa de fazer aqui um salto, uma mudança, e de certa maneira, uma transição ou uma rutura, se calhar mais uma transição do que propriamente uma rutura, porque Jesus não foi infiel a João, Jesus evoluiu o pensamento de João. Portanto, se calhar, a relação que eles têm, os dois, é mais dentro desta analogia com tudo que ela tem de falível. Porque para João, por exemplo, o presente devia ser mobilizado para fugir à ira de Deus. João fala várias vezes que é preciso meter o machado na árvore, ser radical. Há uma urgência absoluta, é um tempo de medo, porque Deus vem punir, vem e vai castigar, vem separar o trigo do joio. E Jesus, aliás, utiliza essa linguagem. Mas Jesus vê o presente já como a manifestação da graça de Deus. O tempo presente é já uma manifestação de graça. A graça não é uma graça vindoura, é uma graça que já existe. E, portanto, Jesus faz esta transição, claramente pertenceu ao círculo de João, terá possivelmente até batizado com João, terá pertencido ao seu círculo mais íntimo, como já dissemos, e até praticado algumas atividades com João. Claramente como um miúdo que tem um grande ídolo do qual segue e tem os posters no quarto.
E independentiza-se ali.
E depois acaba por se independentizar-se. Desculpem lá. E seguir também um rumo fiel a João, mas inovador.
É aí nesse período de transição em que surge também uma frase muito conhecida dos evangelhos, que é quando João descreve Jesus, esse homem que aparece como esse sim, há de batizar com fogo e não com água, e depois descreve-o como o cordeiro de Deus que vai tirar o pecado do mundo. Há aí também uma simbologia literária.
Sim, há a ideia, claramente, o evangelho, ao contar a história, mostrar que João é uma figura provisória. E que não só o seu batismo, de certa maneira, é provisório, porque virá o outro, cá está o batismo do sangue e do fogo, e do espírito e do fogo, que será realmente o definitivo, mas também a ideia de que João é também uma figura de transição. Cá está, João precisa de diminuir. O Samuel Úria tem uma bonita música sobre isto, uma importante música sobre isto, em que João tem claramente que diminuir para Jesus crescer. Tal como falamos do Antigo Testamento, a versão da história deuteronomista, o próprio evangelho também tem uma versão da história que é: o foco é Jesus, e João é uma personagem secundária para fazer esta transição.
Daniel, uma pergunta que ia para te fazer na primeira parte e entretanto já não tivemos tempo, faço-a agora. Jesus precisava de ser batizado, afinal? O próprio João fica com essa dúvida.
Precisar ser necessário na forma como o evangelho nos narra a vida e figura de Jesus, obviamente que não. Mas há aqui claramente uma decisão de Jesus de querer, com João Batista, com este batismo, inaugurar o seu ministério. Jesus que com cerca de 30 anos, diz-nos um dos evangelistas, São Lucas, salvo erro, e portanto, já com uma vida, com este tempo de silêncio, que nós não sabemos o que é que fez Jesus, não sabemos que conhecimento, que relação tinha tido ou não tinha tido com João Batista, mas decide começar o seu ministério e, na forma como é descrito pelos evangelistas, Jesus de alguma forma quer meter-se na fila dos pecadores, quer marcar o início do seu ministério, baixando-se até àqueles a quem pretende anunciar o Evangelho.
Portanto, nós depois disso, depois do episódio do batismo de Jesus-
Que simultaneamente, desculpa, é também uma teofania, ou seja, um evento místico, uma experiência mística, que as palavras são curtas e que são utilizados símbolos e imagens, da pomba, da voz de Deus que se ouve, são coisas que herdam um pouquinho a linguagem típica do Antigo Testamento para manifestar uma manifestação de Deus, uma teofania.
Nós depois desse episódio do batismo de Jesus, continuamos a acompanhar a história de João Batista nos evangelhos. Ele passa o testemunho, digamos assim, a Jesus, que segue para a sua pregação. Mas depois, além dos evangelhos, temos ainda textos extrabíblicos que claramente atestam a existência de João Batista. Portanto, aqui já parece que estamos dentro do domínio mais ou menos da história. Por exemplo, os escritos de Flávio Josefo. Nós, a dada altura, seguimos a história contada nos evangelhos, vamos encontrar o momento em que João é preso. Por que ele é preso? O que acontece pra ele ser preso?
A sua mensagem de conversão não é apenas
Enfim, uma simples, entre aspas, mensagem moral, mas tem também consequências políticas. Neste caso, porque a sua crítica chega até aos poderosos do tempo, Herodes Antipas. Aqui, às vezes, os nomes podem nos confundir. Há bocadinho falámos do Evangelho de João. O Evangelho de João é o evangelista São João. Não é João Batista. Da mesma forma, Herodes, também há aquele Herodes, o grande, este Herodes mais poderoso do tempo do nascimento de Jesus, e há este Herodes Antipas, que já é outro, dessa mesma linhagem, já não é tão poderoso como tinha sido este seu antepassado, mas de qualquer forma é aqui uma figura também relevante de poder que, como o João disse, tinha tomado aqui a mulher.
Uns maus hábitos.
Uns maus hábitos do tempo. E João não se cala e por isso é preso. Isso, aliás, condiz com o que sabemos desta outra fonte independente, diríamos, Flávio Josefo, um historiador judaico-romano, ou seja, um judeu que passa pro campo dos romanos no final do século I, que nos conta esta história e nos diz, aí sublinha-se até uma dimensão mais política, não tanto da denúncia moral, da imoralidade, da opressão de Herodes, mas do fato de João se estar a tornar popular e, portanto, conseguir arregimentar pessoas e isto ser visto como perigoso pela autoridade política.
De certa maneira, como haveria de acontecer com Jesus uns anos mais tarde. Ele vai ser preso por ordem de Herodes, justamente, mas não é morto por ele. Ou seja, os evangelhos até dizem que Herodes o respeitava, gostava de o ouvir. Mas a verdade é que, pelo menos como vemos no mítico quadro de Caravaggio, ele vai acabar com a cabeça numa bandeja. João, queres contar-nos o que acabou por acontecer pra ele ser executado? É uma parte curiosa do Evangelho de São Marcos, do capítulo seis, até antes de nós vermos aqui a história da morte de João Batista, porque Jesus diz aos discípulos: “Ide, sem bolsa nem alforjes”. Os discípulos vão e é nos efeitos da pregação dos discípulos, que curam, como diz o evangelho, curam, expulsam demônios, que Herodes Antipas pensa: “Não, este aqui é João, é aquele que eu mandei matar. Eu mandei prender e matar, eu degolei-o”. A frase: “É quem eu degolei e que ressuscitou”. Portanto, ele acha que Jesus é uma espécie de reencarnação, ressurreição de João. E é aí que o evangelho tem necessidade de explicar o que se passou. A história é tão dura que a certa altura, a história decorre, conta-se esta história da execução de João Batista, e no final os discípulos voltam, é anunciado que os discípulos voltam pra ver a Jesus e Jesus diz: “Depois de vocês me contarem tudo aquilo que se passou, vamos descansar um pouco”. Parece que até é necessário pro leitor: “Olha, agora vai descansar um bocado”. A história basicamente é simples, como o Daniel disse, João tinha uma relação ambígua com Herodes e Herodes até gostava de o ouvir, mas só que Herodes casa com Herodíades, que era a mulher do seu meio-irmão. E João dizia: “Tu não podes viver com a mulher do teu meio-irmão”. Herodíades faz, através da filha, de Salomé, uma sedução ao rei. O rei fica tão maravilhado com aquilo que vê, com a dança de Salomé, que certamente seria uma dança com cariz erótico ou sensual, de maneira de colocar o rei a seus pés. E o rei diz-lhe: “Dar-te-ei tudo que possuo para compensar esta dança”. E a rapariga Salomé diz: “Quero que me dês num prato imediatamente a cabeça de João Batista”.
Mas diz porque vai perguntar à mãe.
Sim, diz porque a mãe, quer dizer, instruída pela mãe, não foi propriamente uma inspiração divina. Mas repare-se aqui a figura do próprio Herodes, que quase não tem poder nenhum. É um poder muito precário, que diz: “Eu dou-te tudo”. Ou seja, claramente João tinha razão ao denunciar este poder corrupto e morre precisamente em consequência deste poder corrupto. Não se trata só de um melodrama de palácios. Aqui há uma dimensão de confronto político real, que às vezes não parece tão evidente em quadros do Caravaggio ou do Kilmt, por exemplo.
Nós sabemos, Daniel, que Jesus, quando sabe desta notícia, fica bastante triste. Aliás, como dizia ainda agora o João, é neste momento que Jesus diz aos apóstolos, aos seus discípulos, que estavam com ele: “Vamos ali descansar um bocadinho”. Depois acabam por nem conseguir descansar, porque é o episódio da multiplicação dos pães. Mas perante esta notícia, vamos descansar um bocadinho. Podemos intuir que entre estes dois homens, que aliás eram primos, eram familiares, as suas mães eram primas, haveria uma amizade, uma proximidade já antiga, já longa. Sim, o texto dá-nos essa intuição. Intuir talvez seja o verbo correto, porque também não é muito explícito o texto. Nenhum dos evangelistas elabora muito como é que era essa relação entre estes dois homens. Apesar de tudo, vemos que há aqui, por um lado, uma proximidade, logo no início do evangelho E também há alguma distância, como o João já explicou. A mensagem de Jesus vai mais longe. Não se trata propriamente de uma cópia ou de um simples progresso em relação à mensagem de João. Mas ainda assim, como em muitos dos evangelhos, o campo está aberto para podermos deixar espaço para a nossa imaginação funcionar acerca da relação desses dois. Mas Jesus claramente percebe que este é um ponto marcante e, por isso, se calhar, como dizias, não é absurdo pensarmos que Jesus viu aí também um pouco do que esperava. Mais uma confirmação das dificuldades que iria enfrentar por parte de autoridades, quer judaicas, quer romanas.
Mas ao longo da história, João, como é que os cristãos foram lendo a história desta figura? Hoje em dia, para os portugueses, São João é um dos famosos santos populares, como dizia há pouco. Mas como é que passamos desta figura no deserto a comer gafanhotos para os martelinhos e as sardinhas? Para fazer esta pergunta de outra forma: parece ficar-se com a ideia de que os cristãos, na aceção popular desta figura, domesticaram, retiraram estes elementos estranhos da personagem, mais radicais.
É uma pergunta difícil de responder. No norte há uma quadra que diz: “São João era bom santo se não fosse tão gaiato”. Ou seja, há uma ideia claramente que São João é um santo maroto. Aliás, há muitas representações de João como um menino pequenino, quase inocente, longe deste homem zarrão, forte, que enfrenta até às últimas consequências o poder político da época. Portanto, parece diferente.
Associa-se mais à imagem, por exemplo, do cordeiro, não é?
Sim, do cordeiro. Já falámos sobre isso em off. Parece que João Batista é mais associado ao Evangelho de João do que propriamente àquela figura ríspida de Mateus, Marcos e Lucas, que são os evangelhos sinópticos. Agora, há aqui, se calhar, algo que nos pode ajudar a entender. São João Batista tem dois dias no calendário cristão, mas o grande dia é o dia 24, que tem uma certa ligação aos ritmos planetários, solares e lunares. Ou seja, nós dizemos que a noite de São João é a noite mais longa do ano, mas na verdade é o dia mais longo do ano. A partir dali, os dias diminuem e as noites crescem até ao Natal, quando se inverte. Precisamente Santo Agostinho, que depois é readaptado e reintroduzido por Padre António Vieira num sermão sobre o dia de São João, diz claramente isto: São João, no dia 24, o seu dia é o maior dia do ano e a partir de então os dias diminuem, porque ele tem que diminuir para Jesus crescer. E quando Jesus nasce, os dias passam a aumentar porque Jesus aumenta e a noite diminui. É óbvio que isto são sempre questões precárias e certamente que se João Batista fosse à Ribeira do Porto ou à Avenida Central, a Braga, durante o dia 23 para 24, iria ficar louco, se calhar, com a celebração que é feita. O contraste pode ser muito grande, mas possivelmente aquilo que nós estamos aqui a referir já são depois adaptações posteriores a este ritmo solar, de certa maneira pré-cristão. A verdade é esta: independentemente disto, claramente, daquilo que eu conheço, São João é visto como uma figura contracultural. Em Viana há até um São João muito conhecido, São João d’Arga. É visto como uma figura contracultural, contra uma espécie de ditadura reinante, de politicamente correto, alguém forte, que é capaz de romper com o dia a dia, às vezes, muito maneirinho de cada um de nós. Uma espécie de recusa do luxo, recusa do poder, a retidão que é também muito celebrada, apesar de martelinhos, manjericos e sardinhas.
Sim, e é uma espécie de consciência moral. Vemos aqui, até na forma como os evangelistas o apresentam, é um homem da retidão, da verdade e, portanto, que não tem medo das convenções e dos poderes estabelecidos, mas vai à verdade. E depois, isso que dizias. Eu acho que também, historicamente, se dá uma subordinação ao Natal e sabendo nós das dificuldades e a historicidade da questão do Natal no dia 25 de dezembro, o próprio texto, quer nos evangelhos de infância, ou seja, nos relatos de São Lucas, em que vemos esta distância temporal, quer através desta frase do evangelista São João, “ele deve crescer e eu diminuir”, quando os dias começam a crescer, começa o inverno, temos o Natal, quando os dias começam a diminuir, temos São João Batista. E portanto, até no próprio calendário litúrgico estão nesta contraposição e por isso calha aqui em junho, quando está calor, quando está tempo de comer umas boas sardinhas, calhou ficar ao pé do Santo António e do São Pedro. E por isso tudo temos um santo popular, apesar dele, de facto, deste aspecto austero e repelente, há popularidade na mensagem. Atraía multidões. Isso também é uma dimensão interessante.
A gente vai a um café no norte e aquilo que São João Batista dizia, nós ouvimos num café do norte. De outra maneira hoje em dia, mas ouvimos. Portanto, não é estranho.
Daniel, estamos a chegar ao fim deste episódio, mas uma pergunta final: tal como João serve de prenúncio para a vinda de Jesus, também o seu desfecho trágico, o seu fim trágico, serve de prenúncio para o que virá a ser o desfecho da história de Jesus uns anos depois, também ele executado por ser um agitador?
Sim. Bem, para já, não sei que cafés é que o João frequenta lá em Silva.
Depois posso dizer.
Com esta mensagem de João Batista.
Sim, depois posso vos indicar alguns.
Sim, como já tínhamos refletido há bocadinho, sobretudo para nós, como leitores hoje, ao ver este desfecho de João Batista, acho que isso abre-nos também a perspectiva daquilo que depois, no Evangelho de São Marcos, e se calhar mencionamos mais São Marcos porque é o mais antigo dos quatro evangelhos, é o mais essencial, mais reduzido ao osso, por assim dizer, e que nos apresenta um esquema talvez mais próximo da ordem histórica. É depois disto que vemos Jesus mais claramente anunciar a cruz que lhe espera e a sua morte.
Muito bem, chegamos ao fim do oitavo episódio da segunda temporada de “As Histórias da Bíblia”. Na próxima semana vamos falar sobre Maria e José, os pais de Jesus. E os nossos ouvintes já sabem, podem enviar-nos perguntas, comentários, sugestões para o nosso mail: ashistoriasdabiblia@observador.pt. Nós respondemos às perguntas todas as quintas-feiras num episódio especial em podcast. Até para a semana aqui na Rádio Observador e até quinta-feira em podcast. “As Histórias da Bíblia” é um podcast da Rádio Observador com Daniel Nascimento e João Bastos. É apresentado por mim, João Francisco Gomes, e a música do genérico é de Tiago Afonso.

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