Lídia Jorge: no 10 de junho seria "mais explícita"
▲A escritora Lídia Jorge participou esta segunda-feira numa conversa literária no festival Babell, no Porto
ESTELA SILVA/LUSA
A escritora Lídia Jorge disse esta segunda-feira no festival Babell, no Porto, que se voltasse ao seu discurso do 10 de junho de 2025, em que disse que em Portugal “ninguém tem sangue puro”, “sublinharia mais” e seria “mais explícita”.
“Eu sublinharia mais, seria mais explícita [no discurso que fiz nas comemorações do 10 de junho sobre Camões e a atualidade], porque, inclusive, eu aprendi com o que aconteceu naquele 10 de junho [de 2025, na cidade de Lagos, no Algarve]. Foi um dia de revelação para mim própria. Fiquei surpreendida, porque eu tenho a certeza que 20 anos antes aquele texto não incomodaria ninguém“, declarou a escritora portuguesa que ganhou o Prémio Pessoa 2025, e participou esta segunda-feira numa conversa literária com o escritor Gonçalo M. Tavares, no Babell, festival literário que decorre no Porto.No sexto e último dia de Festival Literário Babell, que trouxe escritores internacionais consagrados como Margaret Atwood e Salman Rushdie, Lídia Jorge, questionada pelo moderador Francisco Sena Santos sobre se mudaria o discurso que fez para as comemorações do 10 de junho de 2025, respondeu que seria mais explícita sobre o ADN dos portugueses.Lídia Jorge foi a personalidade escolhida pelo anterior Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, para presidir às comemorações e proferir o discurso oficial do 10 de junho, em Lagos, e declarou que “ninguém tem sangue puro”, apelando fortemente à empatia, ao fim de hierarquias de valor entre os seres humanos e à aceitação da diversidade como traço essencial do país.
“A minha pergunta é: o que é que aconteceu aos portugueses, uma comunidade que tem uma diáspora por todo o mundo, que padeceu agruras por toda a parte, que foi recebida em toda a parte, que conhece o que são os caminhos das dificuldades, que mendigou o acolhimento em toda a parte do mundo, o que é que nos aconteceu para nos esquecermos desse nosso ADN?“, questionou, como desafio, a plateia de várias centenas de pessoas.Lídia Jorge pegou inclusivamente no tema do cristianismo de Portugal, que o escritor Gonçalo M. Tavares estava a referir durante a conversa no âmbito do festival Babell, para continuar a interrogar as pessoas na plateia do evento, sobre como é que é “possível as pessoas que se dizem cristãs e católicas acharem que aquele texto é um texto pecaminoso contra a cultura portuguesa?”Lídia Jorge recordou que o texto que leu nas comemorações do 10 de junho do ano passado foram publicadas num livro sobre a Europa, em França, no dia 4 de março de 2022.“Lembro-me perfeitamente, porque no dia 24 do mês de fevereiro [de 2025] tinha iniciado a guerra na Ucrânia. Estávamos em Paris e esse texto que publicámos foi apresentado no livro dos autores da Europa, dos 27. Cada país tinha apresentado um escritor com uma narrativa sobre o seu país, falando do contributo que esse país tinha dado para o conceito da Europa. E eu precisamente escrevi um texto sobre Sagres e Lagos, dizendo que em Sagres se tinha ensaiado o novíssimo mundo, e que em Lagos, ao mesmo tempo, se tinha iniciado o mundo da escravatura no mundo moderno, porque a escravatura sempre existiu, mas nós inaugurámos uma forma de escravatura nova”.
Segundo a escritora, em relação aos argumentos que utilizou no texto que foi publicado, e que foi apresentado junto à Catedral de Estrasburgo, em França, “passou o mês de agosto, o mês de setembro” desse ano, e não houve ninguém que achasse que “havia ali algum crime”.“Como é que é possível que passado dois anos e meio, em Portugal, se considerasse que aquele texto continha ali um anátema contra a identidade portuguesa. Para mim é alguma coisa absolutamente incompreensível. E eu digo, corroborando por completo o que o Gonçalo [M. Tavares] acabou de dizer. Pode-se não se acreditar que Cristo seja o Messias na dimensão divina. Pode-se só imaginar que tem uma dimensão filosófica. Um filósofo que tenha dito que se te deram uma bofetada numa face, ofereça outra. Significa uma altura da dignidade humana superior. E no mundo de hoje há católicos que dizem que é preciso terminar com esse princípio, que é necessário que os países cristãos e católicos voltem, apaguem da sua visão a ideia de dar a outra face, porque senão vão desaparecer da face da Terra”.Lídia Jorge alerta mesmo para o que está a acontecer com estes dois últimos Papas, sobretudo com Leão XIV, que é “mais calmo, mais racional e que pensa maduramente aquilo que diz”. É “absolutamente extraordinário”, porque é “um convite filosófico” a que ultrapassemos esta situação que estamos a viver das guerras no mundo.“O Gonçalo [M. Tavares] está a falar de uma coisa muito importante, que é a ideia de que hoje os homens das tecnológicas dizem estas coisas horríveis e fazem da sua bancarrota — é horrível o que acontece —, fazem propostas de tal maneira enganosas que transformam a bancarrota em sucessos que enganam o mundo inteiro. Existe uma espécie de mistificação global (…) que faz com que aquilo que está falhando completamente do ponto de vista económico e que nos faz a uns cada vez ser mais pobres, a outros cada vez ser mais ricos, seja tomado como o caminho a aprofundar”.
Lídia Jorge manteve-se crítica durante toda a conversa e voltou a questionar o público sobre “que tipo de alucinação” é que está a acontecer em Portugal.Para a escritora, a literatura é “um campo de resistência absoluta contra este tipo de mentira, porque nós [escritores], ao escrevermos ficção, nós mentimos, mas nós não enganamos”.Citando o escritor chileno Luís Sepúlveda, Lídia Jorge recordou que os escritores não enganam. “Dizia: a nossa mentira não engana, cuidado com aqueles que dizem a verdade, mas estão enganandos. E de facto é o que está a acontecer. Quer dizer, nós no fundo o que estamos a fazer com a literatura é ensaiar dentro de nós o desejo de brincarmos com as coisas, de termos sonhos sobre as coisas, de criar ficção, de criar mentira leal. Mentira leal com a humanidade. Mas precisamente aqueles que não têm essa formação, que não sabem o que é lidar com a mentira leal, estão completamente dispostos a aceitar a ‘fake news’, que é, pura e simplesmente, a mentira desleal que é aceite”.Durante a conversa houve tempo para Gonçalo M. Tavares comentar o que pensa de Lídia Jorge e o escritor destacou a “questão política” que está muito presente na sua escrita. “Mas a política não é apenas de ‘Os dias prodigiosos’, é também uma política que tem a ver com a política da vida. Política tem a ver com a Polis (cidade) e a domus (casa) e o que é interessante é que a Lídia [Jorge] faz política com a cidade, e por outro lado temos uma política da casa, do espaço privado, dos lares de ‘Misericórdia’ e de como se tratam dos idosos”, declarou, referindo que a imagem mais repugnante que ouviu em relação aos mais velhos foi na pandemia da covid-19 quando as noticias diziam “morreram 15 pessoas, mas 14 tinham mais de 75 anos”.
Lídia Jorge também foi desafiada a falar do escritor Gonçalo M. Tavares salientando: “Gonçalo é um escritor muito particular entre nós e em toda a parte”, cujo cunho se vê imediatamente que é ele.“É um escritor que é um filósofo, mais do que um escritor de ficção. O filósofo foge da vida, o encenador encena a vida. Ora eu diria, para sintetizar, que ao ler o Gonçalo ele consegue ser as duas coisas”.O festival literário Babell arrancou na quarta-feira, dia 24, e termina hoje. Custou mais de três milhões de euros à fundação da Livraria Lello, excetuando o apoio da Câmara do Porto, que coorganiza o evento.Rui Couceiro, comissário do Babell: “Há muitos festivais literários, mas não há muitos que sejam muito bons”










