1500º em Leipzig: ebulição climática derrete o aço
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“Ideias Feitas” na Rádio Observador. E hoje, Alberto, queres falar sobre a Carris?
Não é bem a Carris de Leipzig, não é bem a daqui. Não sei qual é o equivalente. Olá, Ricardo, desculpa antes de mais. Ontem correu por aí a notícia, que foi reproduzida em mais de um daqueles sites alegadamente informativos, de que o calor na Alemanha tinha derretido os trilhos do elétrico na cidade de Leipzig. O site Notícias ao Minuto, por exemplo, tinha uma manchete acompanhada de uma fotografia dos tais trilhos debaixo de uma massa fundente. E além disso, a manchete não deixava dúvidas: “Onda de calor na Alemanha faz derreter carris do elétrico.” E o lead da notícia também não deixava dúvidas: “O dia foi de tal forma quente que numa das cidades os carris dos elétricos derreteram.” Ao que parece, os carris, não a empresa, mas os carris propriamente ditos, são de aço e o aço derrete a temperaturas próximas dos 1500 graus. Eu tinha uma vaga ideia de que seria uma temperatura muito mais alta do que a que tem estado na Alemanha, que tem estado quentinho, é verdade, mas não estiveram 1500 graus. O que seria suficiente se tivesse 1500 graus, além dos trilhos do elétrico, talvez a população alemã em peso tivesse derretido também. A manchete, portanto, era falsa, o lead era falso, o lead é o resumo que se faz das notícias. E os senhores do Notícias ao Minuto sabiam disso, até porque no texto da notícia percebia-se, se a pessoa se desse ao trabalho, que o que derreteu foi o betume instalado entre os trilhos e o asfalto. Ou seja, para assustar o leitor e aumentar o número de cliques na página, eu fui um dos que clicaram, transformou-se uma asneira da empresa, suponho que seja uma asneira da empresa que faz as instalações ferroviárias em Leipzig, numa sugestão de que as alterações climáticas estão completamente descontroladas a ponto de derreter ligas metálicas de altíssimo ponto de fusão. E aqui estou a puxar os meus pergaminhos, porque eu estudei mecânica nos meus tempos de liceu, era a minha perspectiva de carreira, que depois não se concretizou. Não sei se feliz ou infelizmente. E claro, uma pessoa pode dizer que isto saiu no Notícias ao Minuto, que tem uma credibilidade talvez comparável à da atual BBC, coitada. Agora, o problema é que o alarmismo noticioso a envolver as alterações climáticas não é um exclusivo destas fontes mais, digamos, alternativas, e nem sequer vale a pena mencionar a vastíssima cobertura jornalística dos infelizes que se têm afogado em França, aparentemente ou alegadamente devido ao calor. O que não faltam nas últimas décadas são casos em que fontes supostamente credíveis exageram até ao absurdo os perigos das alterações climáticas, de modo a convencer as pessoas de que estamos na iminência do apocalipse, mais dia, menos dia, ele há de chegar. E exemplos não faltam. Houve aquele vídeo há oito, nove anos, da National Geographic que mostrava um urso polar esquelético a morrer de fome por causa do degelo. Depois, afinal, provou-se que o bicho estava a morrer de doença ou velhice, como os bichos costumam morrer ou muitas vezes morrem. Também houve aquela história do lago Chad, que tinha de fato encolhido quase 90% por causa do aquecimento global. Não foi por causa do aquecimento global. Tinha encolhido, de fato, mas foi por causa de uma gestão desastrosa da água local e da desflorestação regional, ou seja, problemas de governação e não problemas de dióxido de carbono, nem nada disso. Houve também aquela coisa dos 50 milhões de refugiados climáticos em 2010, que as Nações Unidas previram em 2005. E afinal, nessas ilhas que se previa estarem submersas em 2010, Tuvalu e as Maldivas, afinal não ficaram submersas coisa nenhuma e as populações dessas ilhas até aumentaram, em vez de diminuir. Os exemplos são realmente muitos. E aqui é o ponto a que eu queria chegar. Eu não estou a desvalorizar as alterações climáticas, depois recebo sempre uns e-mails de uns leitores que percebem isto ao contrário. Eu não estou a desvalorizar as alterações climáticas, não estou a desvalorizar as possíveis consequências das alterações climáticas, nem a responsabilidade eventual da ação humana nas alterações climáticas. Quem acaba por desvalorizar isto tudo são os que procuram a toda a força tornar o perigo maior e mais rápido do que na realidade é. Acho que a urgência em mentir para assustar as pessoas torna as pessoas mais insensíveis aos factos. E, por acaso, eu não acho que isso seja necessariamente negativo. Acho que até pode ser positivo, já que não vale a pena as pessoas andarem num pânico constante face àquilo que não controlam. Embora se crie a ilusão de que podem controlar quando pagam mais impostos, os tais impostos verdes. Não, isso não vai controlar, não vai resolver os problemas do clima, e das pessoas andarem a perder o sono, como algumas pessoas confessam, que sofrem de ansiedade climática e que não conseguem dormir a pensar nesse tal apocalipse. Acho que não vale a pena. Acho que mais vale as pessoas realmente ficarem insensíveis perante isto. Isto, no fundo, é a história do Pedro e do Lobo, com a diferença de que na pior das hipóteses, o lobo anda muito devagar e só aparecerá daqui a séculos e não há qualquer hipótese de o Pedro ser devorado, nem devorado, nem derretido, e nem de morrer afogado por causa do calor, embora o Pedro possa morrer afogado por outros motivos. Entre eles não saber nadar, desde logo.
Obrigado, Alberto. E obviamente, eu disse que ias falar de carris, era os carris alemães.
Os carris, depois eu percebi. Eu quando li a notícia do Notícias ao Minuto, ou Notícia ao Minuto, ou como é que aquilo se chama, depois percebi qual era a tua referência. Eu pensei que estavas a referir-te a carris de Lisboa, como aos STCP no Porto e essas coisas.
Um abraço, Alberto.
Não me lembrei dos carris propriamente ditos. Grande abraço, Ricardo. Até amanhã.
Até amanhã.
O que têm em comum Sérgio Sousa Pinto e Miguel Pinheiro?
Ora lá está. Cá está a prova do crime.
A frontalidade e o espírito crítico sobre a política e a atualidade.
O que me interessa é a liberdade. E não gosto desta coisa de pessoas que vivem possuídas de certezas absolutas, quererem apropriar-se da lei para impor as suas conceções aos outros.
Realpolitik.
Não, não conseguimos não ver o problema do SNS. Eu achei que ia dar. Não devias pôr o SNS como eu te entendo. Desculpa, tens toda a razão. Vou tentar fazer melhor.
Para ouvir na Rádio Observador, à quarta-feira depois do jornal do meio-dia e em todas as plataformas de podcast. O Realpolitik tem o apoio da AIMAP, a metalomecânica responsável por 24 mil milhões de euros de exportações. E se algumas das descobertas científicas que podem melhorar a vida de milhões de pessoas estivessem a acontecer neste momento em Portugal? No podcast A Próxima Descoberta conhecemos as pessoas e as inovações que estão a ajudar a transformar a saúde. Às quintas-feiras, a partir das 15h, na Rádio Observador e nas plataformas de podcast, em parceria com a Ovione. Curiosamente, o podcast em parceria com a Fundação Guin, que junta figuras públicas a cientistas de renome. E quem faz as perguntas pode surpreender. Quarta-feira, a partir das 14h, na Rádio Observador, nas plataformas de podcast e em observador.pt. Rádio Observador, são 16h58 em Portugal continental e na Madeira, menos uma hora










